A força do Papa em uma praça vazia

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02 Abril 2020

"Cultivo a esperança de que, uma vez superados dogmas e ritos das antigas religiões com suas guerras e maldições, uma espiritualidade madura e pacífica seja consolidada, onde se possa ver Deus através do próximo, do meio ambiente, do destino comum nesta maltratada bola chamada terra".

O comentário é do jornalista e escritor italiano Corrado Augias, ex-deputado do Parlamento Europeu, publicado por La Repubblica, 01-04-2020, comentando a carta de uma leitora repercutindo o 'evento histórico' do Papa Francisco na Praça de São Pedro na sexta-feira, 27-03-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o texto.

Prezado Augias, não sei por que ou talvez o saiba: já que Deus saiu da cultura atual e não é mais uma moeda de troca, uso e abuso, empregado para explicar o inexplicável, justamente por esse motivo, as palavras e, sobretudo, o silêncio de Francisco se tornaram um evento histórico. Aquela palavra e aquele silêncio se impuseram realmente como a única maneira credível de estar diante do que está acontecendo; sem distinção entre crentes e não crentes - eu diria. Depois dos mocassins vermelhos de Bento, agora amo os sapatos pretos, grandes e plebeus de Francisco com igual amor. O Espírito sopra onde e como quiser, geralmente no devido tempo. Ninguém jamais exorcizou ou exorciza o mistério do mal, mas, na esteira que do Qoelet chega a Simone Weil, podemos nos permitir uma esperança difícil que, no entanto, continua sendo esperança.

Porque o bem também é um mistério, mas como não nos perturba, pensamos que não há necessidade de pensar sobre ele. Existem, no entanto, duas maneiras de não acreditar: uma que impõe a medida de nosso olhar ao mundo, a outra que não argumenta, mas registra apenas uma impossibilidade a consentir.

Acho que você escolheu esta última. Laura Segnati, (Milão).

Não sei, é possível. O mistério de acreditar nunca realmente me tocou, mesmo que, devido às vicissitudes familiares, eu tivesse a possibilidade de duas fés, o cristianismo e o judaísmo. Mas é o fenômeno geral que nos interessa aqui.

Partilho da ideia de que no repertório da pestilência permanecerá a imagem daquele Papa sozinho, sob a chuva, rezando diante do vazio de uma praça imensa - um fino risco branco no escuro e no silêncio. A liturgia nem sempre é capaz de captar o momento; mas, naquele caso, foi capaz de interpretá-lo de maneira inspirada. No entanto, resta a ideia que Deus desapareceu do imaginário contemporâneo. O grande visionário Friedrich Nietzsche anunciara sua morte em um texto fundamental para o pensamento moderno, A Gaia Ciência. Um "homem louco" corre e grita em busca de Deus.

O aforismo 125 que narra essa história termina assim: "Ouviu-se depois que naquele mesmo dia o louco entrou em várias igrejas e lá cantou o seu requiem aeternam Deo. Levado para fora e chamado a prestar contas, disseram que ele replicou todas as vezes, ‘Que são estas Igrejas agora senão tumbas e sepulcros de Deus?’”

A mensagem anunciando a morte de Deus precedeu os tempos e foi rejeitada; no entanto, permitiu vislumbrar um futuro – que agora chegou. Morto ou não, essa ideia de Deus foi expulsa, substituída pelo dinheiro, pelo sucesso, pelo nada. Se falássemos sobre aquele tipo de divindade, teríamos realmente que declarar seu fracasso. Houve tempos em que raios, terremotos e pragas eram interpretados como sinais da ira divina. Uma estação de rádio católica tentou atribuir o vírus atual à mesma causa. Alguns imãs fizeram o mesmo. Cultivo a esperança de que, uma vez superados dogmas e ritos das antigas religiões com suas guerras e maldições, uma espiritualidade madura e pacífica seja consolidada, onde se possa ver Deus através do próximo, do meio ambiente, do destino comum nesta maltratada bola chamada terra.

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