Na Amazônia, Saúde de Atalaia do Norte investiga suspeita de coronavírus em indígenas Marubo

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24 Março 2020

Para fazer o exame de confirmação da doença Covid-19 as amostras dos paciente precisarão ser enviadas a Manaus, pois não há laboratório no município.

A reportagem é de Elaíze Farias, publicada por Amazônia Real e reproduzida por Amazônia.org, 23-03-2020.

A Secretaria Municipal de Saúde de Atalaia do Norte, no Amazonas, informou à agência Amazônia Real que o órgão está investigando a suspeita da doença respiratória Covid-19, novo coronavírus, em três indígenas da etnia Marubo, sendo um adulto e duas crianças. Segundo a secretária de saúde Jucelia Graça, o indígena adulto é guia turístico e trabalhou com um grupo de turistas norte-americanos recentemente. Ele foi atendido nesta sexta-feira (20) no Hospital Robson Moss com sintomas de febre, tosse e dores no corpo. Como na cidade não tem laboratório que faça o exame para confirmar a doença ou não, os pacientes estão no isolamento domiciliar.

Segundo a secretária de Saúde, na maloca (casa comunitária) onde vivem o indígena e mais 14 pessoas, duas filhas dele – uma menina de 9 e outra de 12 – também apresentam sintomas de gripe. “Ele e as outras pessoas não moram em terra indígena, estão na cidade. Mas eles estão orientados a permanecerem em isolamento. As filhas estão com sintomas leves”, disse Jucelia Graça.

A secretária disse que, durante o atendimento, o indígena Marubo contou que vem apresentando esses sintomas há uma semana, após trabalhar como guia turístico para um grupo de cinco norte-americanos que visitavam o município. “Os norte-americanos disseram à equipe de saúde que não apresentam sintomas da doença”, contou a secretária.

Segundo Jucelia, os turistas estavam com um grupo também de norte-americanos que mora em Benjamim Constant, município vizinho de Atalaia do Norte. “Mas a enfermeira já conversou com eles e vamos monitorá-los também”, completou.

Sobre o estado de saúde do indígena Marubo, Jucelia disse que ele não precisou de internação. “Ele não tem quadro para ser internado ainda, mas a gente vai acompanhar diariamente para ver como evolui. Conforme orientação do Ministério da Saúde ele tem quadro de isolamento social”, disse.

Ela explicou que no hospital Robson Moss, de Atalaia do Norte, não há condições para fazer o exame de confirmação do coronavírus. No caso, as amostras dos pacientes indígenas terão que ser enviadas para Manaus.

O município de Atalaia do Norte é distante 1.138 quilômetros de Manaus e fica na tríplice fronteira do Brasil com a Colômbia e o Peru. O acesso da cidade até a capital amazonense só é possível por via área, em uma viagem que dura quase três horas, ou por via fluvial por embarcação pelo rio Solimões, que duram vários dias.

“O problema é que estamos isolados. Não tem avião para levar amostras. O voo da Azul que estava agendado para hoje (20) foi cancelado. Talvez tenha domingo (22). Não sabemos. Enquanto isso, orientamos que eles fiquem na maloca e evitem ao máximo os contatos entre si. No local há divisões e eles moram em diferentes casinhas. Dá pra ficarem separados”, afirmou.

Jucelia Graça disse que já comunicou o caso para a Fundação de Vigilância em Saúde (FVS), da Secretaria Estadual de Saúde do Amazonas. A Secretaria Estadual de Comunicação foi procurada pela Amazônia Real, mas ainda não retornou com informações a respeito do caso.

À reportagem, o coordenador substituto do Distrito Sanitário Indígena (Dsei) do Vale do Javari, Aldezino Rodrigues, disse que ficou sabendo da suspeita do coronavírus na família do indígena, mas não foi notificado. O Dsei é subordinado a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde.

O coordenador informou que aguarda receber o boletim oficial da Prefeitura de Atalaia do Norte sobre a situação do indígena Marubo e sua família. “Oficialmente não temos nada [informação]. A gente está aguardando. O que sabemos é que o paciente está sendo acompanhado”, disse Rodrigues.

Se o exame confirmar que os sintomas nos pacientes Marubo são de coronavírus, estes casos serão os primeiros da doença em indígenas da Amazônia brasileira e o segundo caso no Brasil. Desde segunda-feira (16) uma indígena do povo Pataxó está isolada dentro de casa, na aldeia Coroa Vermelha, em Santa Cruz Cabrália, no sul da Bahia, aguardando o resultado do exame para Covid-19, segundo a Vigilância em Saúde, informou o site Repórter Brasil.

Neste sábado (21), o secretário de Saúde Indígena do Ministério da Saúde, Robson Santos Silva procurou a reportagem para dizer que está aguardando o resultado do exame no indígena Marubo com suspeita de coronavírus. Silva disse que, como o indígena não é aldeado, isto é, mora na cidade, o atendimento dele é pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

“Neste caso é feito o exame, estamos esperando o resultado. O rapaz que está doente, ele não mora na aldeia. A Sesai cuida de indígena aldeado. Então, infelizmente, a gente, embora reconheça o colega (indígena), esse aí está na base do SUS”, disse Silva, destacando: “Qualquer informação de confirmação (de coronavírus), ele ficará de quarentena”.

A Prefeitura de Santa Cruz Cabrália informou, em nota oficial à imprensa local, que deu negativo a suspeita para Covid-19 no exame da indígena da Pataxó. Leia a nota no final deste texto.

Por conta própria

No Parque Nacional do Xingu povos estão em quarentena voluntária (Foto:Eric Marky Terena | Mídia Índia | Cobertura Colaborativa)

No dia 11 de março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que está em curso no mundo uma pandemia do novo coronavírus. Até essa data não havia registro da doença respiratória na população indígena do Brasil.

Cientes sobre a precariedade das ações da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, principalmente em regiões remotas e de difícil acesso da Amazônia, onde vivem povos isolados, as organizações mais importantes do Movimento Indígena Nacional tomaram medidas, por conta própria, para impedir o avanço do coronavírus nas aldeias.

Depois que a agência Amazônia Real publicou reportagens sobre a situação dos indígenas, o Ministério Público Federal instaurou na segunda-feira (16) um procedimento para apurar as medidas que estão sendo implementadas pelas instituições de saúde, entre elas a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), subordinada ao Ministério da Saúde.

Só na terça-feira (17) foi que a Sesai informou à imprensa que elaborou o Plano de Contingência Nacional para Infecção Humana pelo novo Coronavírus (Covid-19) em Povos Indígenas. Uma versão eletrônica preliminar havia sido enviada na sexta-feira (13) aos 34 Distritos Especiais Indígenas (Dseis) e às Secretarias de Saúde dos Estados e Municípios.

Nesta sexta-feira (20), as lideranças da Terra Indígena Vale do Javari, território de origem do Marubo em isolamento, decidiram pela quarentena voluntária nas aldeias por tempo indeterminado para prevenir a disseminação da doença respiratória Covid-19. A medida inclui, inclusive, estudantes, professores e funcionários de órgãos públicos que se deslocam constantemente das aldeias para a sede do município amazonense de Atalaia do Norte.

Na Terra Indígena Vale do Javari, a segunda maior do país, vivem pouco mais de 5 mil pessoas, pertencentes às etnias Marubo, Mayoruna (também conhecidos como Matsés), Matís, Kanamari, Kulina Pano, e Tsohom Djapá (de recente contato) e Korubo – entre estes, há pelo menos dois grupos já contatados. O território tem 16 grupos de indígenas isolados registrados na Fundação Nacional do Índio (Funai); 11 são confirmados.

O povo Marubo se notabilizou pelo seu pioneirismo no movimento indígena e na luta dos povos do Vale do Javari, desde a década de 80, até o início do processo de demarcação que resultou na homologação do território, em 2001. Muitas de suas lideranças se destacaram desde aquele período e tornaram-se referências no movimento. Os Marubo falam uma língua do tronco Pano e suas aldeias estão localizadas, principalmente, nas áreas dos rios Curuçá e Ituí.

Paciente é guia turístico

Maloca da Terra Indígena Vale do Javari (Foto: Bruno Kelly | Amazônia Real)

Segundo a secretária municipal da Saúde de Atalaia do Norte, Jucelia Graça, o indígena Marubo com suspeita de coronavírus contou, durante o atendimento médico, que sentiu os sintomas de resfriado na tarde desta sexta-feira (20). Ele estava em uma palestra promovida pela prefeitura com profissionais de saúde para orientar os moradores da cidade sobre a doença Covid-19.

Conforme a secretária, o rapaz disse à enfermeira que ministrava a palestra, que há algumas semanas vinha acompanhando um grupo de norte-americanos que visitavam a região e queriam conhecer os pontos turísticos de Atalaia do Norte e da cidade vizinha Benjamin Constant, ambos no Alto Rio Solimões. Esses turistas seriam amigos de outros norte-americanos que possuem residência em Benjamin Constant.

Segundo a secretária, o município iniciou o levantamento de todos os lugares e contatos de pessoas com quem o indígena manteve nas últimas semanas para que eles também fiquem no isolamento domiciliar. Ela postou em sua página do Facebook a informação sobre suspeita de coronavírus no município.

Com a suspeita da doença coronavírus no município de Atalaia do Norte, região de alta vulnerabilidade social, a prefeitura decidiu “brecar” o acesso pela via terrestre, segundo a secretária. Jucelia disse que lamenta que o fechamento da fronteira tenha ocorrido somente nesta quinta-feira (19), após decisão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

“A gente está fazendo barreira humana para proibir a entrada. Só que essa situação era meio que esperada. Não tem política de fronteira aqui. As fronteiras são abertas. Há dois meses a gente já vinha pedindo socorro. Não tem controle de imigração. Estrangeiro chega a hora que quer. Esperamos que a Polícia Federal chegue para fechar as fronteiras”, disse Jucelia Graça.

Foto: Reprodução Facebook

A insegurança entre os povos

Presidente da Univaja, Paulo Marubo (Foto: Alberto César Araújo | Amazônia Real)

A divulgação da suspeita do novo coronavírus na cidade de Atalaia do Norte alertou as populações indígenas, mesmo aquelas que já tinham anunciado uma quarentena voluntária nas aldeias.

“Nós, do movimento indígena, estamos preocupados com a situação. O estado não está preparado nos atender se surgir coronavírus na nossa cidade. Os pais tomaram a decisão de levar seus filhos. Não sei quando vão retornar. Alguns dizem que só vão autorizar [o retorno dos filhos] no próximo ano”, disse Paulo Marubo, presidente da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja).

A suspeita de coronavírus nas indígenas Marubo foi também o assunto nas redes sociais na noite desta sexta-feira (20), deixando lideranças do Vale do Javari apreensivos. À Amazônia Real, o líder Korá Kanamari contou que já havia alertado para este risco, por causa da localização de Atalaia do Norte e pela fragilidade de monitoramento da fronteira.

“Eu havia dito isso. Se as atividades não parassem, Atalaia estava correndo perigo. Estou muito preocupado com a situação. Não é brincadeira. Antes nós estávamos vendo pela televisão. Agora realidade aqui. Vamos tomar cuidado”, disse ele.

O presidente da Univaja disse que o Dsei está acompanhando o caso do Marubo, mas que ainda se trata de suspeita. “Mas eles estão bem, na casa deles. Vão ficar de quarentena. São apenas suspeitas. Ainda não está confirmado”, disse ele.

Saiba como são os sintomas do coronavírus

Cartilha dos povos da Terra Indígena do Xingu sobre a prevenção ao coronavírus

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a contaminação pelo Covid-19 se espalha de maneira semelhante à gripe, pelo ar após a tosse, coriza e a liberação de gotículas de quem está infectado.

Os sintomas são: febre, tosse, coriza e dificuldade para respirar. Procurar uma unidade de saúde é a primeira atitude a tomar neste caso.

O quadro da pessoa infectada com o coronavírus pode se agravar para uma pneumonia, o que exige a internação do paciente.

Pessoas com mais de 50 anos de idade estão mais vulneráveis, principalmente os idosos.

Quem está com o sistema imunológico debilitado e possui doenças crônicas, como as cardiovasculares, diabetes ou infecções pulmonares também pode adoecer gravemente.

Medidas como fazer uma quarentena voluntária em casa tem sido a melhor forma de combater a disseminação da doença no mundo. Leia a cartilha dos povos do Xingu.

Casos da Covid no Brasil

Segundo informações do Ministério da Saúde, o número de mortes em decorrência da Covid-19 no país subiu de seis para 11 nesta sexta-feira (20). Deste total, nove foram notificados em São Paulo e duas no Rio de Janeiro.

O número total de casos confirmados da doença subiu de 621 para 904. São Paulo acumula 396 casos, seguido por Rio de Janeiro (109), Distrito Federal (87), Ceará (55), Rio Grande do Sul (37) e Minas Gerais (35).

Além desses estados, há confirmados de coronavírus na Bahia (33), Paraná (32), Pernambuco (30), Santa Catarina (21), Goiás (15), Espírito Santo (13), Mato Grosso do Sul (9), Acre (7), Sergipe (6), Alagoas (5), Piauí (3) e Amazonas (3), Pará (2) e Mato Grosso (1), Rio Grande do Norte (1), Paraíba (1), Amapá (1), Tocantins (1), Rondônia (1). Roraima e Maranhão apresentam casos suspeitos. O Ministério da Saúde não está mais divulgando o número de casos suspeitos de Covid-19 no Brasil.

Este texto foi atualizado em 21/03/2020 para informação da Sesai e da Prefeitura de Santa Cruz de Cabrália, que publicou a nota abaixo:

A Prefeitura de Santa Cruz Cabrália, na Bahia, informou que deu negativa a notificação de suspeita para covid-19, o novo coronavírus, em uma indígena da etnia Pataxó da aldeia Coroa Vermelha, no sul do estado. A prefeitura informou à imprensa local neste sábado (21), que o exame foi realizado e descartado pelo Laboratório de Saúde Pública – LACEN/Bahia na sexta-feira (20).

“O paciente se encontra estável, com melhoras dos sintomas e sob os cuidados da equipe de saúde”, disse a prefeitura sobre a saúde da indígena, destacando ainda que “a vigilância epidemiológica e Unidades de Saúde Básica e Hospitalar, estão alertas aos casos de pessoas com sintomatologia respiratória”.

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