A segunda pandemia

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24 Março 2020

"À medida que o custo da Grande Depressão se torna visível e concreto, também em termos de vidas humanas, é possível que os EUA decidam não querer seguir uma estratégia chinesa: também porque das medidas draconianas aplicadas por Xi Jinping, não conhecemos os danos colaterais".

O comentário é de Federico Rampini, jornalista italiano, publicado por La Repubblica, 22-03-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o comentário.

A segunda pandemia está chegando, devemos enfrentar e curar essa também. Chama-se Grande Depressão e terá um número de vítimas paralelo ao do vírus. Nos Estados Unidos, ninguém mais usa o termo recessão porque é muito brando. As previsões para o desastre econômico foram atualizadas. Elas variam do cenário da Oxford Economics mencionado no New York Times, que prevê uma queda de 12% do PIB no segundo trimestre, ao da Goldman Sachs duas vezes mais pessimista: menos 24% do PIB de abril a junho. A própria Goldman Sachs estima que em uma semana, quando os dados de desemprego de março forem divulgados, haverá mais dois milhões de desempregados apenas nos EUA. No final do ano, os estadunidenses desempregados poderiam ultrapassar os 16 milhões. Mas o secretário do Tesouro, Steve Mnuchin, no Congresso, apresentou hipóteses inclusive mais alarmantes: a taxa de desemprego saltaria de 3,5% atual para 20%.

Esses números fazem empalidecer a lembrança da última grande crise experimentada pelas nossas gerações, a de 2008-2009: foi coisa pequena em comparação com o que está prestes a desabar sobre nós. O único precedente comparável é a Depressão de 1929-1933, quando a economia perdeu um terço de sua riqueza e o desemprego subiu para 25%. No entanto, a Depressão da década de 1930, embora tenha causado um sofrimento terrível, teve um desenvolvimento "em câmera lenta" em comparação com a crise atual: a atual nos atinge com um choque imediato, devido às medidas drásticas que bloqueiam muitas atividades econômicas. Mesmo assumindo que 2020 termine bem e que a emergência sanitária termine em doze meses (um cenário do Center of Disease Control, a autoridade sanitária dos EUA, que implica um milhão de mortes), o PIB terá perdido 8,4% e a economia estadunidense terá sofrido um empobrecimento de 1.800 bilhões.

As bolsas já destruíram 30% de seu valor, e isso não é um dano que afeta apenas os ricos com poupanças investidas em ações: uma parte dos fundos de pensão está vinculada a esses índices. Além disso, por trás da queda dos mercados financeiros, há a expectativa de uma cadeia de falências empresariais, inadimplência de títulos, falências em setores que vão do transporte aéreo ao turismo, do petróleo à logística.

As demissões já começaram e os primeiros a sofrer são os mais pobres e precários, aqueles 34 milhões de trabalhadores com contratos temporários ou precários. A crise econômica também matará. Não se morre apenas de Covid-19.

Uma megarrecessão sempre arrasta consigo um aumento de mortes por doenças, suicídios, dependência de drogas, alcoolismo, violência doméstica; bem como uma deterioração geral das condições de saúde. Uma nação já aflita por patologias de massa, como obesidade e diabetes, sofrerá mais se comer pior ainda e se os hospitais se concentrarem em outras doenças. Por esse motivo, a resposta ao dano econômico já está sendo organizada, de maneira mais eficaz e rápida do que no setor sanitário ou em outros países.

A Casa Branca e o Congresso negociam uma maximanobra para mitigar o choque econômico, cujo valor total acabará por ficar entre 1.400 e 2.100 bilhões de dólares. Trata-se de um esforço de gastos públicos que varia de 7% a 10% do PIB: o dobro do que o governo Obama disponibilizou para enfrentar a crise de 2008-2009; e um múltiplo do que os países da zona do euro estão fazendo. A medida mais imediata será o envio para a maioria dos estadunidenses de cheques do tesouro, 2.400 dólares por casal mais 500 dólares por cada filho dependente. Muitas ajudas serão destinadas a pequenas empresas, desde que não demitam. Mas já começou um repensamento crítico sobre as medidas restritivas que paralisam a economia.

Elas vão desde o progressista Washington Post, que pede ao governo "que não estrangule a sociedade para salvá-la", até o conservador Wall Street Journal, que se pergunta se "a cura não é pior que o mal". À medida que o custo da Grande Depressão se torna visível e concreto, também em termos de vidas humanas, é possível que os EUA decidam não querer seguir uma estratégia chinesa: também porque das medidas draconianas aplicadas por Xi Jinping, não conhecemos os danos colaterais.

 

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