“Nunca, nunca encobrir a realidade. Dizer sempre: ‘É assim’”. Papa Francisco recebe a redação da revista jesuíta Aggiornamenti Sociali

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07 Dezembro 2019

O Papa Francisco recebeu na manhã dessa sexta-feira, 6, a redação da revista italiana Aggiornamenti Sociali [Atualizações Sociais], por ocasião do seu 70º aniversário. Criada pelos jesuítas italianos, a publicação conta com a colaboração de leigos para refletir sobre as questões sociais, políticas e eclesiais mais debatidas na atualidade, a partir do pensamento social da Igreja, com um olhar que une fé e justiça.

A Sala de Imprensa da Santa Sé, 06-12-2019, publicou os dois discursos do papa: as suas palavras de improviso e o texto preparado e entregue durante o encontro. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis os discursos.

Discurso do Santo Padre de improviso

Tem um discurso preparado de oito páginas... Depois da terceira, serão poucos os que vão ouvir! Eu o entrego e gostaria de falar um pouco de improviso sobre algumas das coisas que sinto.

Obrigado pela visita e obrigado, padre Bartolomeo [Sorge, SJ], por ter vindo. Com o padre Bartolomeo, fizemos a 32ª Congregação Geral [dos jesuítas] em 1974, lembra-se? Aquelas lutas internas, aqueles problemas... Foi um pioneiro nisso, e eu o agradeço. E [agradeço] também a vocês, por trazerem as raízes, a memória do desenvolvimento do trabalho social, que é importante. Não percam a coragem, porque, pouco tempo atrás, li algo de uma clareza que fez tremer não digo a política italiana, mas seguramente pelo menos a Igreja italiana! Obrigado, obrigado a todos vocês.

Uma coisa que o padre [GiacomoCosta [diretor da revista] disse: escutar. Nunca se pode dar uma orientação, uma estrada, uma sugestão sem a escuta. A escuta é justamente a atitude fundamental de cada pessoa que quer fazer algo pelos outros. Escutar as situações, escutar os problemas abertamente, sem preconceitos. “Você disse aquela coisa...” Não, sem preconceitos. Porque existe um modo de escutar que é: “Sim, sim, entendi, sim, sim...”, e o reduzo, um reducionismo às minhas categorias. E isso não está certo. Escutar é se deixar atingir pela realidade. E, às vezes, as próprias categorias caem ou se reorganizam. A escuta deve ser o primeiro passo, mas é preciso fazer isso com a mente e o coração abertos, sem preconceitos. O mundo dos preconceitos, das “escolas de pensamento”, das posições tomadas faz tão mal...

Hoje, por exemplo, na Europa, estamos vivendo o preconceito dos populismos, os países se fecham, e voltam as ideologias. Mas não apenas novas ideologias – existem algumas –, mas voltam as velhas, as velhas ideologias que fizeram a Segunda Guerra Mundial. Por quê? Porque não se escuta a realidade como ela é. Há uma projeção daquilo que eu quero que se faça, que eu quero que se pense, que exista... É um complexo que nos faz substituir a Deus criador: nós pegamos a situação pela mão e operamos: a realidade é aquilo que eu quero que seja. Colocamos filtros. Mas a realidade é outra coisa. A realidade é soberana. Goste-se ou não, mas é soberana. E eu devo dialogar com a realidade.

Segundo passo. Escutar e dialogar, não impor estradas de desenvolvimento ou soluções aos problemas. Se eu devo escutar, devo aceitar a realidade como ela é, para ver qual deve ser a minha resposta. E aqui vamos ao núcleo do problema. Qual é a resposta de um cristão? Fazer um diálogo com essa realidade a partir dos valores do Evangelho, das coisas que Jesus nos ensinou, sem as impor dogmaticamente, mas com o diálogo e o discernimento.

Um jesuíta na Tailândia, que trabalha com os refugiados, me fez essa pergunta quando eu estive lá: “Qual é hoje a estrada para o nosso trabalho com os refugiados?”. E a resposta é: não há uma estrada, há pequenos sendeiros ("senderitos") que cada um de nós deve tentar seguir olhando a realidade, recorrendo à oração e fazendo discernimento. Realidade, oração e discernimento. E assim vamos em frente na vida, mesmo com os problemas sociais, culturais... Mas se vocês partirem de preconceitos ou de posições pré-concebidas, de pré-decisões dogmáticas, nunca, nunca chegarão a dar uma mensagem. A mensagem deve vir do Senhor, através de nós. Somos cristãos, e o Senhor nos fala com a realidade, na oração e com o discernimento.

É isso que gostaria de lhes dizer para a sua revista. Nunca, nunca encobrir a realidade. Dizer sempre: “É assim”. Nunca a cobrir com aquela resignação do “veremos..., talvez depois vai mudar...”. Nunca a cobrir: a realidade assim como ela é. Depois, tentar entendê-la na sua autonomia interpretativa, porque a realidade também tem um modo de interpretar a si mesma. É preciso entendê-la. E, depois, o diálogo com o Evangelho, com a mensagem cristã; a oração, o discernimento e, assim, fazer pequenos sendeiros ('senderitos) para seguir em frente. Hoje, não há “autoestradas” para evangelização, elas não existem. Somente sendeiros humildes, humildes, que nos levarão em frente.

Eu gostaria de encorajá-los sobre isso, e talvez alguém dirá: “Mas, padre, os problemas são tantos, e temos medo de escorregar, errar e cair”. Mas graças a Deus! Se você cair, agradeça a Deus, porque terá a possibilidade de se levantar, seguir em frente e voltar a caminhar... Mas quem não se move por medo de cair, escorregar ou errar nunca, nunca será fecundo na vida. Sigam em frente, corajosamente. E, se a crítica for boa, lhes fará crescer, lhes fará ver onde estavam os equívocos. E, se a crítica vier de um coração mau, lhes fará “dançar” um pouco com a fúria que acontece nesses casos... Mas mantenham sempre a liberdade interior, e só tem liberdade interior quem reza, quem se coloca diante de Deus, quem pega o Evangelho, essa é a liberdade interior. Isso não é pietismo, não, é autenticidade. Com as mãos ao trabalho e com o coração para sentir o que acontece nas pessoas. Escutar. A tua palavra [dirigindo-se ao padre Costa, na introdução] gerou tudo isso dentro de mim. Ofereço-o espontaneamente e, depois, “academicamente” o discurso que eu devia dizer, de oito páginas!

Rezem por mim. Eu rezarei por vocês. E sigam em frente, sempre em frente!

Papa Francisco recebeu, no dia 6 de dezembro, a redação da revista italiana Aggiornamenti Sociali por ocasião do seu 70º aniversário. (Foto: Vatican News)

Discurso do Santo Padre preparado e entregue

Caros irmãos e irmãs,

Dou-lhes as boas-vindas e agradeço ao diretor, padre Giacomo Costa, pela sua introdução. Saúdo também ao padre Bartolomeo Sorge, que por tantos anos foi e ainda é ponto de referência da revista e, mais em geral, do compromisso com o bem comum.

Ajudar os leitores a “orientar-se no mundo em mudança”: esse é o lema que vocês escolheram. Vocês realizam um serviço precioso, especialmente em um tempo de mudanças aceleradas, que deixam muitos perdidos e confusos. Agradeço-lhes por levá-lo em frente com fidelidade e constância há nada menos do que 70 anos. É preciso energia e comprometimento, e certamente custa esforço. Mas também dá satisfação pelo trabalho realizado. Esse agradecimento se estende a todos aqueles que não estão aqui, mas prestaram a sua obra durante essas décadas, jesuítas, leigas e leigos.

1. Discernir na sociedade

Orientar-se significa entender onde nos encontramos, quais são os pontos de referência e, depois, decidir em que direção se mover: é esforço desperdiçado orientar-se para depois permanecer parados. Assim, tem um significado muito próximo ao discernimento: de fato, também no caminho da sociedade, precisamos aprender a reconhecer a voz do Espírito, interpretar os seus sinais e escolher por seguir esta voz e não as outras (cf. exortação apostólica Evangelii gaudium, n. 51).

Isso nos interpela em nível pessoal, mas também como comunidade civil e eclesial, porque o Espírito está misteriosamente em ação nas dinâmicas da sociedade. Aqui o discernimento não é nada simples. Não basta treinar a sensibilidade espiritual, que continua sendo indispensável; são necessárias competências e análises específicas, aquelas às quais vocês dão espaço nas suas páginas, graças à contribuição de muitos especialistas. Vocês se ocupam de questões complexas e controversas: do impacto da inteligência artificial na sociedade e no trabalho até as fronteiras da bioética; das migrações aos problemas da desigualdade e da inequidade; de uma visão da economia atenta à sustentabilidade e ao cuidado do ambiente à construção do bem comum na concretude do cenário político atual. Nesses âmbitos, a Aggiornamenti Sociali tem a tarefa não só de fornecer informações confiáveis, mas também de acompanhar os leitores a aprenderem a formular julgamentos e a agirem com maior responsabilidade e não apenas porque ouviram dizer, talvez na onda das fake news.

Em relação à análise científica dos fenômenos sociais, continuem cultivando o correto equilíbrio: a sua importância deve ser reiterada, mas sem cair na tentação de um olhar asséptico sobre a realidade, que é impossível. A visão da realidade sempre depende do olhar de quem a observa e da posição em que se coloca. Assim, faz parte das tarefas de uma revista como a de vocês ajudar a acolher os resultados da pesquisa científica com o olhar do discípulo, assumindo a compaixão que Jesus, o Mestre, sente e mostra pelas pessoas que sofrem, pelos pobres que gritam a Ele e, junto com eles, pela “nossa terra oprimida e devastada” (cf. carta encíclica Laudato si’, n. 2).

Para os cristãos, o discernimento dos fenômenos sociais não pode prescindir da opção preferencial pelos pobres. Antes que correr em sua ajuda, essa opção nos pede para estarmos do lado deles, também quando olhamos para as dinâmicas da sociedade. E, sobre ela, sobre os seus valores e as suas contradições, os pobres têm muito a nos ensinar! (cf. exortação apostólica Evangelii gaudium, nn. 197-201). Entre os pontos fortes da Aggiornamenti Sociali, está também o de dar espaço à perspectiva daqueles que são “descartados”. Continuem estando com eles, escutem-nos, acompanhem-nos para que seja a voz deles que fale. Também quem pesquisa e reflete sobre as questões sociais é chamado a ter um coração de pastor que tem cheiro de ovelhas.

2. Uma estrada a se percorrer juntos

O discernimento dos fenômenos sociais não pode ser feito sozinho. Ninguém – nem mesmo o papa ou a Igreja – consegue abraçar todas as perspectivas relevantes: é preciso um debate sério e honesto, que envolva todas as partes em causa.

São Paulo VI já ensinava que a análise da situação social e a identificação dos compromissos a serem assumidos para transformá-la são uma tarefa que cabe às comunidades no seu conjunto e nas suas articulações, sob a orientação do Espírito (cf. carta apostólica Octogesima adveniens, n. 4). Hoje, podemos acrescentar que elas exigem um método sinodal: trata-se de construir uma relação, feita de palavras e de gestos, assumir um objetivo comum e tentar alcançá-lo. É uma dinâmica em que cada um fala com liberdade, mas também escuta e está disponível para aprender e para mudar. Dialogar é construir uma estrada para caminhar juntos e, quando necessário, pontes para ir ao encontro e estender a mão. As divergências e os conflitos não devem ser negados ou dissimulados, como muitas vezes somos tentados a fazer, até mesmo na Igreja. Devem ser assumidos, não para ficar bloqueado no interior deles – o conflito nunca pode ser a última palavra –, mas para abrir novos processos (cf. exortação apostólica Evangelii gaudium, nn. 226-227).

Esse modo sinodal de proceder também interpela uma revista, que pode aproveitar as próprias páginas para fazer dialogar posições e pontos de vista; mas deve se guardar da tentação da abstração, de se limitar ao nível das ideias, esquecendo a concretude do fazer e do caminhar juntos. Evita esse risco quando publica palavras enraizadas em experiências e práticas sociais, alimentadas por essa concretude. A pesquisa intelectual séria também é um caminho feita juntos, especialmente quando se abordam questões de fronteira, fazendo interagir perspectivas e disciplinas diferentes, e promovendo relações de respeito e amizade entre as pessoas envolvidas, que descobrem como o encontro enriquece a todos. Isso vale ainda mais nas iniciativas que exigem a criação de redes, a participação em eventos, a ativação de grupos de pesquisa. Sei que vocês estão envolvidos em muitas experiências desse tipo, algumas também aqui no Vaticano, e eu os encorajo a prosseguirem.

Três âmbitos me parecem particularmente significativos. O primeiro é a integração daquelas porções da sociedade que, por várias razões, são postas às margens e nas quais se encontram mais facilmente as vítimas da cultura do descarte. Elas são portadoras de uma contribuição original indispensável para a construção de uma sociedade mais justa: elas entreveem coisas que os outros não conseguem ver.

Um segundo âmbito diz respeito ao encontro entre as gerações, do qual reconhecemos a urgência no Sínodo dos jovens. A aceleração da mudança social corre o risco de arrancar os jovens do seu passado, projetando-os para um futuro sem raízes e tornando-os mais fáceis de manipular, enquanto expõe os mais idosos à tentação do juvenilismo. Contra esses riscos, precisamos fortalecer novamente pactos de confiança e solidariedade entre as gerações.

Por fim, o terceiro âmbito é a promoção de ocasiões de encontros e de ação comum entre cristãos e fiéis de outras religiões, mas também com todas as pessoas de boa vontade. Fazer isso exige que nos defrontemos com medos atávicos e com tensões muito arraigadas: alguns dizem respeito às relações inter-religiosas, outros se referem aos contrastes entre “seculares” e “católicos” que percorrem a história italiana, outros – e não devemos esquecê-los ou, melhor, requerem uma atenção particular – são internos ao corpo eclesial. Mas, se não conseguirmos unir toda a família humana, será impossível prosseguir na busca de um desenvolvimento sustentável e integral (cf. carta encíclica Laudato si’, n. 13).

3. A alegria do compromisso social

Para encerrar, exorto-lhes a não se desencorajarem: o compromisso com a justiça e com o cuidado da casa comum está associado a uma promessa de alegria e de plenitude. Muitos podem testemunhar isso, e certamente vocês também podem experimentar isso no seu trabalho: colocar-se do lado dos pobres é um encontro com sofrimentos e injustiças, mas também com uma felicidade genuína e contagiante. O compromisso com a justiça nos faz entrar na dinâmica das Bem-aventuranças: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados” (Mt 5,6). Continuem cultivando essa fome e contagiando outras pessoas: juntos, experimentaremos o dom de sermos saciados.

Agradeço-lhes novamente pelo seu trabalho. Peço a Deus, nosso Pai, que os acompanhe e abençoe, que os encha com o seu amor e com a força da esperança. E, por favor, não se esqueçam de rezar por mim. Obrigado.

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