No Japão, Francisco condena os que invocam a paz, mas mantêm armas nucleares

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25 Novembro 2019

Uma imagem vale mais que mil palavras, motivo pelo qual o Papa Francisco decidiu fazer um apelo à proibição de armas nucleares direto das únicas cidades que foram atacadas com bombas atômicas.

A reportagem é de Inés San Martín, publicada por Crux, 24-11-2019. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Às vezes, no entanto, quatrocentas palavras valem mais do que uma imagem, especialmente quando descrevem um “cenário de inferno”.

Domingo à tarde em Hiroshima, Francisco ouviu Yoshiko Kajimoto, que tinha 14 anos quando os EUA lançaram uma bomba atômica sobre a cidade durante a Segunda Guerra Mundial. Ela estava a 2,5 quilômetros do epicentro da explosão.

Kajimoto desmaiou logo depois de ver uma “luz azul” através da janela da fábrica em que trabalhava. O prédio inteiro desabou.

“Havia pessoas caminhando lado a lado como se fossem fantasmas, pessoas com os corpos queimados a ponto de eu não conseguir distinguir entre homens e mulheres, rostos, lábios, mãos queimados”, contou Kajimoto ao papa. “Ninguém nesse mundo consegue imaginar um cenário de inferno como este”.

“Nos dias subsequentes havia uma fumaça branca, por todos os lados: Hiroshima transformou-se em um crematório”, disse. “Por muito tempo, não consegui tirar o cheiro ruim de pessoas cremadas do meu corpo e roupas”.

O pai e a mãe de Kajimoto sobreviveram à explosão, mas o pai morreu um ano e meio depois, por exposição à radiação. Sua mãe morreu vinte anos depois, também pelos efeitos da bomba. Em 1999, Kajimoto precisou retirar grande parte do estômago por causa de um câncer. Hoje, aos 88 anos, sofre também dessa doença.

“A maioria dos meus amigos e amigas morreram de câncer”, contou. “Faço um grande esforço para dar o testemunho de que não devemos usar bombas atômicas terríveis assim, nem permitir que alguém no mundo passe por esse sofrimento”.

Estas palavras foram proferidas pouco antes da prece pela paz do Papa Francisco feita no Memorial da Paz, em Hiroshima, epicentro da explosão. O memorial marca o lugar onde, nas palavras do pontífice, “no meio dum clarão de relâmpago e fogo, nada mais ficou além de sombra e silêncio”.

Em um instante, “tudo foi devorado por um buraco negro de destruição e morte”.

Ouvindo o relato de Kajimoto, fica fácil entender por que Francisco disse que sentiu o “dever” de vir a este lugar como peregrino da paz, detendo-se em oração silenciosa, “recordando as vítimas inocentes de tanta violência”, ao mesmo tempo trazendo no coração as súplicas dos homens e mulheres de hoje que desejam a paz e dedicam a vida em busca de torná-la real, e “o grito dos pobres”, que são as vítimas mais indefesas do ódio e dos conflitos.

Neste lugar, disse o papa, ele quis prestar homenagem a todas as vítimas e inclinar-se perante a força das pessoas que sobreviveram à explosão, mas que suportaram nos seus corpos por anos “os sofrimentos mais agudos e, nas suas mentes, os germes da morte que continuaram a consumir a sua energia vital”.

Francisco falou também que quereria humildemente ser a voz daqueles cuja voz não é escutada, que testemunham as “tensões” crescentes atuais, como as desigualdades e injustiças que “ameaçam a convivência humana”, a incapacidade de cuidar do meio ambiente e o contínuo e espasmódico recurso às armas, “como se estas pudessem garantir um futuro de paz”.

Ecoando uma mensagem sua proferida pouco antes, o pontífice expressou que o uso da energia atômica para fins de guerra é um crime não só contra a dignidade humana, mas também contra o planeta, e que é “imoral”, como é a “posse” de armas nucleares, “como disse dois anos atrás”.

“Seremos julgados por isso”, disse. “As novas gerações erguer-se-ão como juízes da nossa derrota por havermos falado de paz, mas não a termos realizado com as nossas ações entre os povos da terra”.

“Como podemos falar de paz, enquanto construímos novas e tremendas armas de guerra?”, perguntou. “Como podemos falar de paz, enquanto justificamos certas ações ilegítimas com discursos de discriminação e ódio?”

Segundo o papa, para construirmos uma sociedade justa e segura “devemos deixar cair as armas das nossas mãos”.

“Como podemos propor a paz, se usamos continuamente a intimidação bélica nuclear como recurso legítimo para a resolução de conflitos?”, perguntou novamente o papa.

“Que este abismo de sofrimento evoque os limites que jamais se deveriam ultrapassar”.

“Em nome de todas as vítimas dos bombardeamentos, das experimentações atômicas e de todos os conflitos, elevemos juntos um grito: Nunca mais a guerra, nunca mais o fragor das armas, nunca mais tanto sofrimento! Sobrevenha a paz em nossos dias, neste nosso mundo”, completou.

Antes ainda, no domingo, Francisco celebrou uma missa para cerca de 20 mil fiéis em um estádio de baseball, em Nagasaki, onde pessoas aguardavam por várias horas sob forte chuva, que passou pouco antes de a liturgia começar.

Grande parte de sua homilia teve a ver com a leitura do Evangelho a respeito da crucificação de Jesus. O papa, porém, não focalizou a morte do Filho de Deus, e sim nas “vozes” ouvidas em torno dele: a do bom ladrão, que o reconheceu como rei, sendo profético; mas também a voz dos que permaneceram em silêncio ou zombaram de Cristo.

Hoje também a humanidade pode escolher permanecer silente e zombar, ou suportar o testemunho profético de um “um reino de verdade e vida, de santidade e graça, de justiça, amor e paz”, disse.

Nagasaki carrega na sua alma uma ferida difícil de curar, sinal do sofrimento inexplicável de tantos inocentes; vítimas atingidas pelas guerras de ontem, mas que sofrem ainda hoje com esta terceira guerra mundial aos pedaços”, continuou o religioso. “Levantemos, aqui, as nossas vozes numa oração comum por todos aqueles que hoje estão a sofrer na sua carne este pecado que brada ao céu”.

Francisco deve voltar a Tókio no domingo à noite, onde, na segunda-feira, se reunirá com as vítimas do “desastre triplo” – terremoto, tsunami e incidente nuclear de 2011, que matou mais de 15 mil pessoas – e com autoridades locais.

Na terça-feira, ele irá se encontrar a portas fechadas com a comunidade jesuíta local, antes de voltar a Roma. No voo de 14 horas do Japão à Itália, espera-se que o papa responda a perguntas dos jornalistas que com ele viajarão.

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