Em Hiroshima e Nagasaki, o Papa Francisco tenta ser ‘empreendedor normativo’

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25 Novembro 2019

Domingo, no Japão, contou com os destaques da viagem do Papa Francisco – entre os dias 20 e 26 de novembro à Tailândia e ao Japão – em visitas feitas a Hiroshima e Nagasaki, cidades japonesas incineradas por bombas atômicas americanas na Segunda Guerra Mundial. “Um dos anseios mais profundos do coração humano é o desejo de paz e estabilidade”, disse Francisco no domingo sob forte chuva em evento realizado no Epicentro da Bomba Atômica, em Nagasaki.

“A posse de armas nucleares e outras armas de destruição em massa não é a melhor resposta a este desejo; antes, parecem pô-lo continuamente à prova”, disse.

O comentário é de John L. Allen Jr., publicado por Crux, 24-11-2019. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

As manchetes dos jornais ao redor do mundo geralmente trazem algo do tipo: “Papa condena armas nucleares”, o que é verdadeiro, mas pouco informativo. A Igreja Católica nunca aprovou os armamentos nucleares, de forma que manchetes como esta são um tanto inconsistentes.

No século XIII, São Tomás de Aquino estabeleceu aquilo que passaria a ser conhecido como a “guerra justa”, ideia mais tarde elaborada por membros da escola tomista. Um dos seus princípios é a “proporcionalidade”, isto é, que não se pode usar moralmente mais força do que o necessário para deter um agressor. E mais: a violência precisa ser discriminada. Em outras palavras, precisa ser dirigida contra os combatentes, não contra civis.

Tivesse Tomás de Aquino vivido por volta de 1945, não seria difícil imaginar a avaliação que faria sobre a guerra nuclear.

Mais recentemente, os papas das últimas sete décadas têm apoiado o desarmamento nuclear, então não há nenhuma novidade no que Francisco diz.

O que podemos destacar é a sua rejeição clara não só do emprego, ou ameaça de emprego, de armas nucleares, mas a própria existência dessas armas. Com efeito, Francisco distanciou-se do desenvolvimento, no pensamento católico, de uma aceitação condicional da ideia de contenção sob o comando de João Paulo II, forjado durante a Guerra Fria, para uma posição abertamente abolicionista.

O que mudou não foram os princípios envolvidos, mas o diagnóstico da situação mundial.

Os grandes acordos internacionais sobre as armas nucleares, como o Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares, foram adotados na Guerra Fria quando um equilíbrio nuclear percebido entre as principais potências foi interpretado como necessário para a manutenção da paz. A situação atual é mais fluída e perigosa, com tratados firmados não somente entre as potências nucleares tradicionais, mas também com Estados não muito confiáveis e atores não estatais, tais como as redes terroristas.

Nesse contexto, a própria existência de armas com poder destrutivo de armas nucleares é, com razão, desestabilizadora e uma ameaça à paz, daí a mudança de posição tradicional da Igreja: da contenção à eliminação.

Eis uma mudança, aliás, que já vinha ocorrendo bem antes de Francisco chegar; em 2010, quando o Papa Emérito Bento XVI ainda estava na ativa, o Vaticano declarou que “as condições que prevaleciam durante a Guerra Fria, que serviam de base para a tolerância limitada da Igreja à dissuasão nuclear, não se aplicam mais”.

Interessante nas escalas do papa em Hiroshima e Nagasaki não é, portanto, a substância do que ele diz, mas o fato de parecer estar dando uma maior ênfase e visibilidade ao tema.

Um papa se colocar nestes dois lugares e condenar o armamento nuclear não é, obviamente, o mesmo que publicar um comunicado diplomático para a próxima rodada de negociações em torno do Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares.

De fato, hoje marca a aposta de Francisco em se tornar aquilo que os cientistas sociais chamam de “empreendedor normativo” em desarmamento nuclear, possibilidade sugerida em maio de 2018 por Gerard Powers, do Instituto Kroc para Estudos sobre a Paz Internacional, da Universidade de Notre Dame, e ex-assessor da conferência dos bispos americanos para temas nucleares.

Na expressão criada por Cass Sunstein, um “empreendedor normativo” é alguém que visa transformar as convenções sociais, inclusive convenções morais. Se der certo, estes esforços podem levar a uma “cascata normativa”, que desencadeia uma renovação de atitudes seguidas por um novo senso do que é aceitável e do que não é.

A Igreja Católica, evidentemente, tem estado no lado receptor destas “cascatas normativas” nos últimos anos sob a forma dos escândalos de abuso sexual clerical, nos quais um comportamento que antes era ignorado ou tolerando silenciosamente gera, de repente, fúria pública generalizada, produzindo um cenário normativo completamente novo.

Fica a cada um dizer se o catolicismo, sob o comando de Francisco, pode engrenar uma tal cascata na questão do desarmamento nuclear. Dada a atual realpolitik do século XXI, supomos que ela não terá sucesso.

O certo, no entanto, é isto: se fôssemos escolher dois lugares no mundo para tentar começar a um novo movimento de pedras para criar uma avalanche, Hiroshima e Nagasaki, sem dúvida, seriam estes lugares.

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