Os mártires que morreram pelo meio ambiente

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • Desmonte do SUS: decreto anuncia privatização da atenção básica em retrocesso histórico

    LER MAIS
  • CNBB convida brasileiros a plantarem uma árvore no Dia de Finados em memória dos que se foram

    LER MAIS
  • O Papa, os Gays e o Ídolo da Doutrina Imutável

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


02 Agosto 2019

"Eles vivenciam um papel profético que nos desafia e nos pede para nos unirmos com ações concretas e, em um nível espiritual, com uma união de corações e mentes na oração, para viver uma solidariedade profética em nossa casa comum, no nosso Planeta", escreve Andrea Vicini, jesuíta, professor de teologia moral na Pontifícia Universidade de San Luigi, em Nápoles, e no Boston College, em artigo publicado por Il Fatto Quotidiano, 01-08-2019. O artigo é publicado na última edição da revista La Civiltà cattolica. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Discípulos - De Ken Saro-Wiwa, a José Cláudio Ribeiro da Silva e a Chut Wutty, da Nigéria ao Brasil e a Honduras. Exemplos preciosos de uma solidariedade profética em nossa casa comum, em nosso Planeta. Muitos indivíduos e comunidades inteiras querem proteger o meio ambiente de qualquer tipo de exploração sem limites e da destruição injustificada. Seu empenho não é apreciado por todos, e muitas vezes enfrentam resistências fortes e violentas.

Na África, um exemplo trágico é o de Ken Saro-Wiwa (1941-95), escritor nigeriano, produtor de TV, ativista ambiental e membro do povo Ogoni no delta do Níger. Naquela área, a partir da década de 1950, a extração de petróleo pela empresa Shell causou danos ambientais gravíssimos.

Porta-voz e presidente do Movimento pela sobrevivência do povo ogoni (Mosop), Saro-Wiwa liderou uma campanha não-violenta contra a degradação ambiental da terra e das águas. Crítico do governo nigeriano, foi processado por um tribunal militar e enforcado em 1995. A indignação internacional pela sua execução fez com que a Nigéria fosse suspensa da Comunidade das Nações por mais de três anos.

No Brasil, outro exemplo é o de Dorothy Stang (1931-2005), freira e ativista ambiental norte-americana, pertencente à Congregação das Irmãs de Notre Dame de Namur. Em Anapu, no estado do Pará, onde vivia e trabalhava, ajudou a fundar o projeto de desenvolvimento sustentável chamado Esperança. Por causa de sua dedicação em servir os pobres e proteger o meio ambiente, depois de receber numerosas ameaças de morte de empresas de desmatamento e proprietários de terras, em 2005 foi assassinada por matadores contratados por aqueles cujos interesses financeiros eram ameaçados por seu engajamento ambientalista.

Em 2011, no mesmo estado do Pará, José Cláudio Ribeiro da Silva e sua esposa, Maria do Espírito Santo da Silva, foram mortos em uma emboscada na cidade de Nova Ipixuna. Da Silva foi um dos líderes de sua comunidade e criticava intensamente o crescente aumento do desmatamento da Amazônia.

Em 2015, no estado do Maranhão, o ambientalista Raimundo Santos Rodrigues foi morto por seu engajamento em proteger a floresta amazônica oriental de empresas do desmatamento, de latifundiários que se apropriaram da áreas desmatadas para promover cultivos agrícolas industriais e intensivos, e pelos donos da mineradoras que extraíam recursos do subsolo e poluíam.

A associação Global Witness relata que pelo menos 448 ambientalistas foram mortos no Brasil entre 2002 e 2013. Em outros países, a resistência à exploração desenfreada do planeta é marcada pelo sangue derramado pelos mártires ambientais.

Nas Filipinas, em 2012, o líder indígena Jimmy Liguyon foi morto diante de sua família porque se recusou a vender sua terra para as mineradoras. No mesmo ano, no Camboja, Heng Chantha, de 14 anos, foi morta pela polícia porque se opôs à expulsão de cidadãos e à destruição da aldeia para iniciar uma plantação de seringueiras.

No Camboja, Chut Wutty (1972-2012) fundou e dirigiu o Natural Resource Protection Group, uma organização cujo propósito era proteger os recursos naturais da nação. Ele criticava abertamente o desmatamento operado por empresas que obtiveram concessões de terras em florestas protegidas graças à corrupção militar e governamental. Em 26 de abril de 2012, foi morto a tiros enquanto acompanhava dois jornalistas do jornal The Cambodia Daily, perto de uma floresta protegida, sobre a qual repetidamente tentou divulgar a extração ilegal permitida por funcionários militares.

Em outubro de 2014, a Collaborative Partnership on Forests, um consórcio internacional de 14 organizações, secretarias e instituições envolvidas na proteção florestal internacional conferiu um reconhecimento póstumo a Chut Wutty em honra à sua dedicação pela proteção da floresta local. O prêmio, inaugurado em 2012, é um reconhecimento dado àqueles que fornecem contribuições excepcionais para preservar, recuperar e gerenciar de maneira sustentável as florestas. No documentário I Am Chut Wutty, lançado alguns meses antes de sua morte e disponível desde 2015, Chut explica as razões de seu ativismo em apoio à população local. Após seu assassinato, sua atividade continuou. Toda a comunidade se tornou "Chut Wutty". Aqueles que pensaram que fosse suficiente eliminar uma pessoa para interromper o trabalho estavam errados: Chut continua a viver em cada membro de sua comunidade: "a eliminação de Chut multiplicou Chut".

Em 2015, a hondurenha Berta Cáceres (1973-2016), em uma nação marcada por crescentes disparidades socioeconômicas e violações de direitos humanos, ganhou o prestigioso prêmio Goldman para os defensores do meio ambiente por causa de sua preocupação em proteger uma importante fonte de água doce, o rio Gualcarque, ameaçado pelo projeto de construção da barragem de Agua Zarca. Berta reuniu a população indígena lenca e pressionou para bloquear a construção da barragem. O projeto ameaçava drenar o rio, com sérias consequências para as terras agrícolas ao redor. O rio é um recurso importante para a vida da população - da agricultura à natação, à pesca - e pelo seu valor cultural e espiritual. Devido à iniciativa de Berta, o projeto foi transferido para o lado oposto do rio. A barragem não seria construída em terras agrícolas, mas isso não impediria danos à agricultura.

Em outubro de 2015, a construção da barragem começou, apesar dos protestos de Berta e da população indígena. Em 2 de março de 2016, dois dias antes de completar 45 anos, Berta foi morta a tiros. Após seu assassinato, a população indígena continuou sua obra, em seu nome. No início de 2016, após outros episódios de violência contra a população, o financiamento do projeto foi suspenso e cessou definitivamente em 2017.

Infelizmente, para muitos, ser discípulos não os poupa de se tornarem mártires do meio ambiente. Eles vivenciam um papel profético que nos desafia e nos pede para nos unirmos com ações concretas e, em um nível espiritual, com uma união de corações e mentes na oração, para viver uma solidariedade profética em nossa casa comum, no nosso Planeta.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Os mártires que morreram pelo meio ambiente - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV