Um Sínodo profético. Entrevista com Francesco Antonio Grana

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31 Outubro 2019

Concluiu-se no Vaticano o importante Sínodo sobre a Amazônia. Fizemos um pequeno balanço do evento com Francesco Antonio Grana, vaticanista do jornal Il Fatto Quotidiano.

A reportagem é de Pierluigi Mele, publicada em Confini, 29-10-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O Sínodo sobre a Amazônia acaba de se concluir. Um Sínodo, por diversos motivos, que foi definido como histórico. Façamos um pequeno balanço. Qual é o fruto mais maduro que ele deixa para a Igreja universal?

O Sínodo sobre a Amazônia foi o quarto Sínodo do Papa Francisco em quase sete anos de pontificado. Seguramente, um primeiro fruto dessa assembleia especial é de ter trazido para o coração da Igreja Católica os povos da Amazônia com as suas tradições, as suas culturas, os seus problemas, junto com o recurso ambiental precioso e insubstituível que essa região representa para a salvaguarda de todo o planeta inteiro e da vida sobre a terra. Isso não só porque vivemos em um mundo global, mas precisamente porque a floresta amazônica é realmente o pulmão do mundo. Colocar essa realidade no centro, sem preconceitos, mas escutando a voz dos diretos protagonistas é um grande mérito de Francisco e do Sínodo.

Cada vez mais, com o Papa Francisco, o Sínodo se torna estratégico para o caminho da Igreja. Isso apesar das resistências do partido curial, não é?

O papa disse isso no primeiro discurso que ele fez na Sala do Sínodo, falando justamente de “desprezo”. “Ontem me deu muita pena escutar aqui dentro um comentário debochado sobre esse senhor piedoso que levou as oferendas com penas na cabeça. Digam-me: qual é a diferença entre usar penas na cabeça e o ‘tricórnio’ usado por algumas autoridades dos nossos dicastérios?”. É uma afirmação forte, que responde àqueles que, nessas três semanas, torceram o nariz em relação ao Sínodo sobre a Amazônia. Mas também para aqueles que, especialmente dentro da Cúria Romana, não gostam desse instrumento colegial desejado por São Paulo VI depois do Concílio Ecumênico Vaticano II. Não é por acaso que Montini não quis que o Sínodo fosse deliberativo, mas apenas consultivo. A última palavra, ontem como hoje, cabe ao papa. Os Padres sinodais oferecem ao pontífice um documento final, mas depois é o bispo de Roma que deve decidir e comunicar as suas escolhas através de uma exortação apostólica. Seguramente, a colegialidade é um processo estratégico neste pontificado, mas começou com o Vaticano II.

A assembleia produziu um belíssimo documento final. Há uma parte “geopolítica”, definamo-la assim, que coloca a Igreja na defesa da Amazônia como “consubstancial” à evangelização. É isso?

Reconhecer a Amazônia, com os seus povos e a sua criação, como recurso precioso para o mundo e para a Igreja Católica significa defender essa realidade. No documento final, condena-se claramente uma “evangelização de estilo colonialista”. Daí deriva um autêntico respeito que, acima de tudo, os homens da Igreja, mas obviamente não apenas eles, devem ter na abordagem com os povos dessa região.

Vamos abrir um pequeno parêntese. Representantes dos povos amazônicos participaram do Sínodo. Eles levaram a sua cultura e a sua fé para o centro da catolicidade. No entanto, alguns gritaram o escândalo: eu me refiro às estátuas das divindades amazônicas que foram hospedadas em uma igreja na Via della Conciliazione, em Roma. Alguns afirmaram que se tratou de uma concessão ao “paganismo”. A ponto de organizarem um terço de reparação. Isso não é ridículo?

Acho que, como sempre, as palavras do papa também sobre esse aspecto foram a melhor resposta para quem rasgou as vestes por causa das estátuas amazônicas. O que Bergoglio disse? Ele pediu perdão como bispo de Roma para aqueles que se sentiram ofendidos pelo gesto inqualificável cometido por algumas pessoas de jogar no Rio Tibre cinco estatuetas. A inculturação do Evangelho, tão cara a São Paulo VI, e o respeito pelas tradições religiosas, de que Francisco fala na Evangelii gaudium, ensinam-nos o respeito pelas culturas outras, e, não por acaso, eu não uso o termo “diferentes”.

Voltemos ao Sínodo. Entre as tarefas do Sínodo, estava a de encontrar novos caminhos para uma Igreja com rosto amazônico. E a atenção estava toda apontada para a ordenação dos “viri probati” e para o ministério para as mulheres. Sabemos que o sacerdócio de diáconos casados foi aceito. Sobre o ministério, o diaconato para as mulheres foi remetido para a enésima comissão. No entanto, as mulheres fizeram ouvir as suas vozes... Não é humilhante adiar de novo?

Sobre as mulheres, a Igreja certamente está muito atrás. Não sei se 200 anos, como dizia o cardeal Carlo Maria Martini, mas seguramente muitas expectativas que haviam se manifestado durante o Sínodo ficaram profundamente decepcionadas. Podemos nos perguntar se não chegou a hora do reconhecimento de uma ministerialidade feminina. No entanto, nos Evangelhos, as mulheres são as principais protagonistas, assim como os apóstolos. São elas que recebem o primeiro anúncio da ressurreição. Mas a Igreja ainda é fortemente machista. Talvez se tenha o medo de abrir uma porta, temendo que, em alguns anos, se possa chegar ao sacerdócio e ao episcopado para as mulheres, como aconteceu na Igreja anglicana. Francamente, eu não teria esse temor: as mulheres, ontem como hoje, são uma parte fundamental da Igreja, da Nossa Senhora à Santa Teresa de Calcutá, passando por Chiara Lubich. Os exemplos são inúmeros. Mas não é pensável que o seu serviço predominante no Vaticano seja o de servir a cardeais e bispos. São João Paulo II falou de “gênio feminino”. Chegou a hora de a Igreja hierárquica fazê-lo frutificar eficazmente.

Última pergunta: qual será a próxima etapa sinodal do Papa Francisco?

A partir da assembleia, foram propostos três temas, incluindo o da sinodalidade. O papa disse que ainda não decidiu. Há também aqueles que pediram um Sínodo sobre o celibato sacerdotal, mas eu acho que é muito prematuro, considerando também os resultados a respeito da abertura aos padres casados na Amazônia. Anteriormente, Francisco quis dois Sínodos sobre a família e um sobre os jovens. Certamente, o próximo terá um tema igualmente de grande atualidade para o mundo inteiro, não apenas para a estrita geografia católica, e também estará profundamente conectado com o caminho do pontificado missionário de Bergoglio.

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