“O Papa não tomará decisões precipitadas”. Entrevista com o cardeal Christoph Schönborn

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30 Outubro 2019

Membro da comissão de redação do documento final do Sínodo sobre a Amazônia, o arcebispo de Viena falou com exclusividade com La Vie sobre as principais orientações deste documento, que agora está nas mãos do Papa.

A entrevista é de Marie-Lucile Kubacki, publicada por La Vie, 27-10-2019. A tradução é de André Langer.

Enquanto o Sínodo na Amazônia está chegando ao fim em um clima de efervescência, o cardeal Christoph Schönborn reserva uma hora da sua apertada agenda de trabalhos para nos receber. Sereno e sorridente, ele nos recebe em uma salinha da famosa Casa Santa Marta no Vaticano, a residência que acolhe os visitantes da Santa Sé, bem conhecida desde que o papa Francisco decidiu torná-la a casa.

A entrevista acontece em francês, um idioma que ele domina perfeitamente, pois estudou teologia no Saulchoir e no Instituto Católico de Paris. Embora austríaco, o arcebispo de Viena, presidente da Conferência Episcopal do seu país, é uma das figuras centrais das três semanas transcorridas em Roma. De fato, o Papa demonstrou-lhe sua confiança duas vezes: nomeando-o, há algumas semanas, para ser um dos 33 convidados especiais do Sínodo, em sua grande maioria de fora da região – ele foi, portanto, um dos poucos europeus, fora os membros da Cúria –, mas, sobretudo, chamando-o para integrar a comissão de redação do documento final – um grupo de 12 pessoas, quatro das quais foram nomeadas diretamente pelo Papa, encarregadas de verificar a fidelidade do texto às discussões transcorridas.

Se ele é objeto de tanta atenção e encontra-se nesse lugar eminentemente estratégico, é porque esse dominicano, ideologicamente inclassificável – ao mesmo tempo herdeiro de Bento XVI e próximo de Francisco –, altamente respeitado em Roma por sua equilíbrio e sabedoria, goza de uma certa aura no Vaticano e na Igreja. Sua voz é esperada, solicitada e ouvida; em outra ocasião, participou de perto da redação do Catecismo da Igreja Católica. E fazia parte dos “papabili”, cujos nomes foram lembrados com frequência no último conclave.

Após o Sínodo sobre a Família (em 2015), em particular, sua interpretação da exortação Amoris Laetitia conseguiu reconciliar conservadores e liberais. Uma abertura de horizonte que se mostra valiosa, no momento em que o Sínodo sobre a Amazônia abre novas perspectivas para a Igreja. De fato, o texto final, votado pelos participantes no sábado, 26 de outubro, propõe pistas ousadas, embora seja necessário aguardar a exortação apostólica prometida pelo Papa nos próximos meses para tirar as conclusões mais definitivas deste sínodo.

Entre as propostas mais emblemáticas está a possibilidade de ordenar padres homens “que tenham família legalmente constituída e estável” e tiveram um “diaconato permanente fecundo”, mediante uma “formação adequada ao presbiterado”. Mas também a reabertura da comissão de estudos sobre o diaconato das mulheres, proposta já validada por Francisco em seu discurso de encerramento.

Eis a entrevista.

Como você se sente em relação ao que foi vivido e discutido neste Sínodo sobre a Amazônia?

Antes de falar, você precisa ouvir. E eu hesitei muito para falar sobre esse sínodo antes de ter ouvido longamente. De fato, nunca morei na Amazônia; sou um dos poucos europeus presentes neste sínodo com três quartos dos participantes da região amazônica. No começo, o Santo Padre nos disse: “Devemos nos aproximar dos povos da Amazônia na ponta dos pés”. E é essa a atitude que nós europeus, ex-colonizadores da América Latina, temos que adotar, porque falar de povos indígenas é falar de uma história de evangelização que envolve muita grandeza e santidade, mas também uma história dolorosa e sangrenta. Esse peso de uma história de conquista, de sofrimento dos povos indígenas hoje em processo de diminuição e em perigo de extinção deve estar em primeiro lugar, antes mesmo de se falar em soluções e iniciativas práticas a serem tomadas.

E depois há a floresta em que eles vivem. Os povos indígenas estão ameaçados em grande parte porque a Amazônia é uma terra explorada em grande escala, e nunca esquecerei o alarme do grande cientista climático, o professor [Hans Joachim] Schellnhuber, especialista mundialmente conhecido, que proferiu esta terrível sentença: “A destruição da floresta amazônica é a destruição do mundo”... Dom Emmanuel Lafont, bispo francês que trabalha na floresta amazônica, disse que este sínodo queria colocar uma das periferias do mundo no centro da Igreja, e eu compartilho sua análise. A primeira viagem do Papa foi para Lampedusa, na Itália, e a Albânia, na Europa: Francisco vai constantemente às periferias para colocá-las dentro da Igreja.

Muitos padres sinodais expressaram um sentimento de urgência...

Como disse um deles: “Mais tarde é tarde demais”. O Evangelho de sábado, 26 de outubro, dia da votação do documento final, falava da palavra de Jesus: “Se vocês não se arrependerem, vão morrer todos do mesmo modo”. Neste Evangelho, Jesus conta a parábola da figueira que três anos seguidos não dá fruto: o dono da vinha ordena ao vinhateiro para que a corte, mas este lhe suplica que a deixe mais um ano para tentar salvar a árvore. É simbólico que seja o Evangelho do último dia do sínodo: a ameaça é real para a vida do planeta, e não é um exagero. Há um adiamento, mas... é um adiamento.

No texto do documento final, é questão de “pecado ecológico”. Concretamente, do que se trata?

Este é o domínio da justiça e, portanto, do sétimo mandamento: “Não furtar”. O pecado ecológico consiste em roubar o futuro das gerações futuras. E até agora, não consideramos suficientemente o que isso significa em termos de responsabilidade pessoal.

Alguns participantes testemunharam a enorme popularidade das Igrejas Pentecostais que atraem muito mais seguidores do que a Igreja Católica. Você acha que o sínodo abordou suficientemente esse problema?

O assunto não foi muito discutido e isso me surpreendeu um pouco. Se as estatísticas são precisas, mais da metade dos cristãos da região passaram “para” os pentecostais e “pelos” pentecostais: alguns retornam à Igreja Católica, outros abandonam qualquer prática religiosa, decepcionados com a multiplicidade de Igrejas Pentecostais, mas é visivelmente um fenômeno de massas. Durante o sínodo, foi dito especialmente que era necessário passar de uma pastoral da visita para uma pastoral da presença, porque os pentecostais estão presentes. Isso também ouvi nas conversas pessoais que tive com um ou outro durante os intervalos. Obviamente, há uma carência do lado da pastoral católica: o padre raramente chega a essas áreas remotas enquanto os pentecostais estão lá.


E então, que lições os católicos podem tirar disso?

Primeiro, uma tomada de consciência de que todo batizado é missionário, testemunha e que pode e deve proclamar o Evangelho. Fiquei impressionado com algumas observações que se tornaram recorrentes: os pentecostais anunciam o Cristo diretamente e nós, católicos, temos, algumas vezes, a tendência a ser muito tímidos no anúncio. Esse aspecto das coisas precisaria de esclarecimentos. Alguns, ainda, se perguntaram: “Nós nos empenhamos muito na defesa dos indígenas e nas questões sociais, mas continuamos, ao mesmo tempo, a anunciar suficientemente o kerygma: Jesus morto e ressuscitado por nós?”.

Mas, concretamente, como desenvolver este anúncio: desenvolvendo ministérios da Palavra?

Sim, esse tema está muito presente. Há recursos que podem ser otimizados e são principalmente as mulheres que trabalham nas comunidades e nas aldeias. Alguns disseram que as mulheres já batizam crianças, porque o padre não pode se fazer presente na comunidade mais de uma ou duas vezes por ano, ajudam no casamento, mesmo que depois seja necessária a bênção do padre. Na Áustria, cada vez mais mulheres têm um ministério de exéquias para celebrar os enterros. Existem muitas possibilidades a serem desenvolvidas.

A este respeito, alguns têm defendido um diaconato feminino. O que você pensa?

O diaconato existiu na Igreja primitiva; existe inclusive um rito de ordenação das diaconisas. Mas, teologicamente, a questão de saber se esse diaconato realmente fazia parte do sacramento da Ordem no primeiro milênio não está clara. Hoje, a pergunta é dupla: o que significam os ensinamentos da Igreja Católica sobre a unidade dos três graus da Ordem – diaconato, presbiterado, episcopado? Mas também, os três graus da Ordem devem ser reservados para os homens? De fato, a doutrina da Igreja estipula apenas que sacerdotes e bispos devem ser homens.

Sobre o diaconato, ela não se pronunciou em definitivo. Ao introduzir o diaconato permanente, o Concílio Vaticano II estabeleceu que os diáconos eram ordenados não para o sacerdócio, mas para o serviço. Se estiver claro que o diaconato não é sacerdotal e que a doutrina da Igreja diz que o sacerdócio é reservado aos homens, é legítimo perguntar se é possível ordenar mulheres diaconisas. Enquanto a Igreja não se pronunciar, é legítimo continuar a pesquisa e as iniciativas sobre o assunto até que decida. E penso que o Papa não o fará sem haver um grande consenso na Igreja.

Como entender a orientação do documento final sobre os “viri probati” (homens casados reconhecidos por suas qualidades que poderiam ser padres quando a necessidade for sentida localmente) e o diaconato permanente, e o que vai acontecer a partir de agora?

Quando uma parte da Igreja apresenta um pedido ao Papa, o pastor da Igreja, isso requer discernimento. E o Papa não tomará decisões precipitadas sobre um assunto justamente controverso como o dos viri probati – controverso por questões de tradição, conveniência e aspectos mais práticos. Em vez disso, o sínodo se orientou antes na direção de um encorajamento do diaconato permanente que, na América Latina e na Amazônia, não é muito desenvolvido, embora seja uma abertura que o Concílio Vaticano II possibilitou.

Na Igreja, já existem homens casados provados em suas famílias, sua vida profissional e sua fé, e que receberam ordenação para o diaconato. Temos 50 anos de experiência no campo: por que, na América Latina, fizemos tão pouco uso? Sem mencionar que, se você ordena homens casados ao sacerdócio, eles devem primeiro passar pelo diaconato, como recordei em meu discurso no sínodo.

Desenvolver o diaconato permitiria, portanto, ter um laboratório para ver se um ou outro poderia realmente ser chamado à Ordem. Este tempo de reflexão é importante também por razões práticas: estes viri probati padres devem, como os viri probati diáconos, se autossustentar, sendo seu serviço voluntário. De fato, em Igrejas tão pobres como na Amazônia, a Igreja não poderia proporcionar um salário adaptado à vida de um pai de família.

Em termos vocacionais, isso muda a perspectiva...

Isso implica uma coisa muito importante: muitas vezes imaginamos a vocação sacerdotal sob um aspecto muito pessoal. Essa dimensão pessoal existe, mas não devemos esquecer o chamado da Igreja e da comunidade. Com os diáconos permanentes, os viri probati diáconos, a Igreja disporia de um laboratório, enquanto a comunidade poderia perguntar ao bispo: “Nós precisamos de um presbítero. Tal diácono ficaria bem, gostaríamos que nos fosse dado como sacerdote”. Seria uma abordagem diferente do que a de uma vocação em primeiro lugar pessoal – “Eu, chamado para ser sacerdote de Jesus Cristo” –, mas bastante comparável à prática existente na Igreja primitiva, onde alguns eram chamados pela comunidade. Agostinho, por exemplo, não tinha a menor intenção de ser padre, mas o povo de Hipona o viu na Igreja, as pessoas o pegaram e o levaram à presença do bispo que lhe impôs as mãos. E agora era padre!

No momento, essas orientações são propostas por um sínodo regional. Na sua opinião, devemos desenvolver o pensamento no nível universal para evitar o risco de fragmentação?

De fato, isso já é feito na Igreja universal. Mas acho que, para esse tipo de apelo, precisamos nos ater à avaliação das situações regionais e locais, porque os viri probati não são o modelo católico, universal, do padre romano católico. Certamente, entre os católicos orientais, existem padres casados, mas para a Igreja Latina, a forma do sacerdócio celibatário continua sendo a norma básica, e deve continuar assim.

É verdade que há exceções: na minha diocese, ordenei um pastor luterano que se tornou católico, casado e pai de família. O papa Bento XVI havia dado permissão para ele se tornar padre. Assim, as autorizações poderiam ser concedidas aos bispos de uma determinada região, mas isso deve continuar sendo uma escolha excepcional, e não uma regra geral.

Você acha que a Igreja está passando por um momento decisivo em sua história?

Sim. A Igreja está no mundo e o mundo está passando por uma transformação. Estamos no final de um ciclo econômico, demográfico, cultural e tecnológico. A humanidade está passando por uma inflexão e isso afeta profundamente a Igreja, porque está presente neste mundo: “Deus amou tanto o mundo que enviou seu Filho...”. E o amor de Deus pelo mundo exige que a Igreja esteja aí por este mundo, neste momento decisivo. Ainda não vemos o que o Senhor nos mostrará. Há muita preocupação na Igreja e no mundo, insegurança e perigos muito sérios para o mundo e para a Igreja.

Um dia antes do final do sínodo, o Papa mostrou a todos o livro de um dos participantes sobre a existência do diabo. O papa Francisco fala surpreendentemente muito do príncipe deste mundo. Mas ele também recorda o seguinte: nunca devemos esquecer que Cristo já venceu a morte e o diabo. Essa vitória é adquirida ao preço da Cruz, que permanecerá até a glória final. Abraçar a Cruz é realmente o caminho da salvação.

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