10 ‘Gostei' e 9 ‘Não gostei’: uma avaliação do Sínodo sobre a Amazônia

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28 Outubro 2019

O tema "viri probati" e "diaconisas" absorveu energia demais, em detrimento de muitas outras questões sobre a ecologia humana e sobre uma evangelização integral. As intervenções do Papa Francisco foram positivas, pedindo uma "superabundância" na missão e na fé. Faltou atenção ao mundo juvenil. O balanço de um mês do Sínodo sobre a Amazônia por um padre sinodal.

Poucas horas após a conclusão do Sínodo sobre a Amazônia, apresentamos aqui algumas as avaliações do Pe. Martin Lasarte, um dos padres sinodais nomeados pelo Papa Francisco. Pe. Lasarte, é um salesiano uruguaio, já foi missionário em Angola, membro da equipe mundial de animação missionária da Congregação Salesiana. Em particular, ele é responsável pela animação missionária na África e na América.

O artigo é publicado por Asia News, 25-10-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O Sínodo é um precioso instrumento de comunhão eclesial e de escuta. Essa ferramenta de consulta oferecerá ao Santo Padre algumas reflexões e propostas. Para mim, pessoalmente, foi uma experiência muito rica, na qual aprendi muito com muitos irmãos e irmãs. Faço rapidamente uma avaliação "de primeira impressão", sem ainda ter recebido o documento final do Sínodo que será votado amanhã.

Sendo eu uma pessoa positiva, coloquei 10 "eu gosto" no Sínodo, isto é, coisas que considerei positivas; e 9 "eu não gosto" para apontar os limites.

Os 10 "Eu gosto"

1. Foi uma grande oportunidade para refletir pastoralmente sobre a Amazônia, sobre os grandes desafios de caráter universal.

2. Foi dada muita visibilidade à região, aos seus problemas ecológicos, sociais e eclesiais.

3. O Sínodo contribuiu para criar uma consciência regional da Amazônia, pois existem ali muitas realidades eclesiais, separadas, não ligadas entre si.

4. Positivo foi o esforço de escutar de maneira capilar e de iniciar um processo com as comunidades amazônicas. Sem dúvida, o mais importante do o Sínodo é o processo que gerará na região.

5. Pessoalmente, pude aprender muito com diferentes Igrejas locais: aprofundar os problemas, como o narcotráfico, que é realmente preocupante por seu poder econômico, político e cultural. Também foi bom conhecer "boas práticas" ou experiências pastorais de diferentes igrejas locais, bem como belos testemunhos de dedicação e serviço ...

6. Houve uma tomada de posição clara da Igreja em favor da ecologia integral (não fundamentalista) e para as populações indígenas amazônicas.

7. Durante o Sínodo, foi dada maior importância ao tema das cidades, dos jovens e das migrações, algo que tinha aparecido no Instrumentum Laboris, mas não com a amplitude necessária. A visão também foi estendida às populações rurais e fluviais, bem como às comunidades afro (quilombolas).

8. A dimensão cristocêntrica na Igreja e na evangelização tornou-se mais evidente.

9. Na assembleia geral e nos círculos menores, foram levantados muitos tópicos de grande interesse e relevância (não sei até que ponto serão incluídos no documento final):

- Foram apresentadas reflexões aprofundadas, em especial por especialistas, sobre as problemáticas ecológicas.

- A importância de uma educação de qualidade para todos e, em particular, para as populações indígenas.

- Houve uma reflexão sobre os vários processos migratórios.

- Sobre cultura, interculturalidade, inculturação e Evangelho.

- Foram evidenciadas situações desumanas de tráfico de pessoas, tráfico de drogas, exploração...

- A importância da ministerialidade de toda a Igreja.

- A importância do catecumenato e da iniciação cristã.

- Uma evangelização integral.

- A formação do clero e dos leigos para a missão.

- A piedade popular.

- Sobre a natureza missionária da Igreja.

- Ficou claro que vários "pastores indígenas ou outros pastores" não podem continuar de maneira autossuficiente sem uma conexão com as Igrejas locais.

- Foi dada mais importância à pastoral urbana e - dentro dela - à pastoral indígena.

10. Gostei muito das três intervenções espontâneas do Papa: sim à cultura (piedade popular, inculturação), não ao “aborigenismo”; sim à formação do clero de maneira mais pastoral, menos rígida e aos leigos. Mas não à clericalização dos leigos. Atenção com as congregações religiosas que recuam em busca de garantias e à falta de paixão dos mais jovens pela missão. Prestar atenção ao clero latino-americano que migra para o Primeiro Mundo em vez de optar pela Amazônia. Falou da necessidade de uma superabundância no Sínodo, que não pretende disciplinar o conflito, nem resolver as coisas colocando remendos. Precisamos de uma superabundância missionária.

Os 9 "Eu não gosto"

1. Energias excessivas dedicadas a problemas intraeclesiais, em particular aquele dos "viri probati" e das "diaconisas". Teria sido uma oportunidade incomparável para oferecer uma contribuição qualificada e mais profunda ao cuidado da casa comum através de uma ecologia integral baseada na ética cristã. No entanto o tema da ecologia humana permaneceu apenas no capítulo V (dos 6 capítulos do documento). O tema dos "viri probati" e do diaconato feminino, em que não havia pleno consenso consumiu muitas forças, subtraindo qualidade a todos os outros aspectos consensuais.

2. Autorreferencialidade regional. O conceito de sinodalidade é uma questão que se revelou muito adaptável de acordo com as conveniências: sinodalidade com aqueles que pensam como eu; autonomia e pluralismo com aqueles que pensam diferentemente, como no caso das Igrejas irmãs da Ásia, Europa e África. Penso que o tema da sinodalidade da Igreja universal deveria estar mais presente no que diz respeito aos ministérios ordenados, porque é um tema sensível e existencial em toda a Igreja universal.

3. Faltou um senso mais profundo de autocrítica eclesial. Certamente, houve o costumeiro "mea culpa" sobre a colonização e os limites da Igreja, sua visão antropológica eurocêntrica, a limitada consciência social do passado. Mas estou me referindo à escassa incidência pastoral destes últimos 50 anos nas diferentes realidades eclesiais amazônicas. Quais são as causas de sua pobreza pastoral e de sua infertilidade? Na minha opinião, o tema da secularização, do antropologismo cultural, a ideologização social do ministério pastoral, a falta de um testemunho credível, coerente e resplandecente de santidade dos ministros (fenômeno de tantos abandono da vida religiosa e sacerdotal, ou de vida ambígua) não foram suficientemente abordados.

4. Novos remendos para um vestido velho. Na minha opinião, os problemas mais profundos da evangelização não foram focalizados: as causas da infertilidade vocacional; a pouca assistência pastoral em geral; a falta de um melhor cuidado pastoral da família; um catecumenato que fundamente a fé e a vida; a absoluta ausência de pastoral juvenil (a expressão não aparece no documento): consequentemente, o cuidado pastoral das vocações é nulo e existe uma falta de vitalidade das pequenas comunidades cristãs. Os movimentos eclesiais, as novas comunidades não são mencionadas. Por quê? Eles realmente não existem na Amazônia? Parece-me que houve uma falta daquele dinamismo que levou a Igreja a considerar o tema da "nova evangelização": novos métodos, novo fervor. Quais são as novas vias propostas pelo Sínodo? Apenas novas estruturas e as ordenações de viri probati ... Parece-me que essa novidade seja enormemente pobre: ​​são novos remendos para um vestido velho. Na minha opinião, a nova roupagem com que devemos nos vestir com novo fervor é um problema de "fé": vestir Cristo.

5. Fala-se do "rito amazônico" para a liturgia. Corre-se o risco de cair em um experimento teórico de laboratório pastoral. As culturas amazônicas são variadas, a grande riqueza e variedade da cultura pan-amazônica não pode ser homologada (dentre as 390 línguas presentes, pensamos apenas nas grandes famílias: tupi-guarani; arawak, tukano, pano, je', jíbara, yanomami, etc). Não há dúvida de que a inculturação do Evangelho na liturgia e na vida das comunidades cristãs amazônica seja indispensável, mas isso deve ser feito na vida real e pouco a pouco, com uma razoável adaptação e decantação ​​do que é verdadeiramente autêntico da cultura e consegue realmente transmitir o mistério cristão com símbolos e expressões originais, evitando uma "folclorização" superficial e genérica.

6. Clericalização laica. Teria sido possível resolver o problema de eventuais ordenações ao sacerdócio de homens casados ​​com os meios comuns já possíveis e praticáveis ​​na Igreja: a dispensa do celibato (CCC 1047): a possibilidade de dispensa dada pela Santa Sé, com justificativas apropriadas, como sabiamente proposto pelo card. Gracias da Índia, sendo muito mais simples que uma generalização dos viri probati. Experiências de outras latitudes foram apresentadas com os mesmos problemas e com a solução de ricos ministérios leigos, mas a proposta não foi apreciada. Infelizmente, o "tema" do Sínodo foi a ordenação de homens casados, enquanto os outros temas permaneceram na sombra. Midiaticamente e popularmente, este Sínodo será exatamente isso: o Sínodo dos viri probati.

7. Visão secular dos ministérios, em particular aquela das mulheres como "diaconisas ordenadas". Quando esse tema é abordado em qualquer lugar, aparecem motivações muito civis, mas não totalmente evangélicas: "Este é o momento de ordenar as mulheres", "Temos o direito", "As mulheres devem ter o poder" .... Esses são discursos válidos em qualquer parlamento, mas eu não os vejo tanto em um sínodo de bispos onde se quer discernir à luz do Evangelho, da Tradição, do Magistério eclesial e dos desafios atuais, e não tanto sob a forte pressão da cultura dominante. Parece-me que estivesse bastante presente um senso parlamentar e não tanto o espírito sinodal que busca o discernimento ("Somos representantes dos povos amazônicos e devemos levar adiante as propostas apresentadas por eles").

8. Perigo da "onganização" da Igreja (transformada em ONG). É muito bonito que a Igreja esteja bem organizada a serviço da caridade, mas que não seja "onganizada", isto é, governada pelos critérios pragmáticos, laicos e organizacionais de uma ONG. A vida e a ação da Igreja ficam reduzidas a várias atividades de advocacy e de serviço social. Essa redução me parece muito presente na sensibilidade de vários participantes do Sínodo. Insisto: somente com uma evangelização integral, onde o kerygma, o discipulado, a diaconia, a koinonia e a liturgia se fundam em um projeto pastoral harmonioso e equilibrado, podemos ter uma pastoral frutífera.

9. A atmosfera do Sínodo foi bastante serena, fraterna e respeitosa, embora, no final, alguns apresentaram os fatos de modo bastante dialético: de um lado, o clube fariseu que estaria vinculado à doutrina, assustado pelo novo, então fechado ao Espírito Santo; do outro lado, aqueles que escutam o povo (sensus fidei), sem medo, abertos ao novo e, portanto, dóceis ao Espírito Santo... Cabe admirar um Espírito Santo que veio tão bem preparado e organizado...

 

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