Sínodo da Amazônia deve levar a uma ''conversão ecológica'', defende cardeal cardeal Hollerich

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25 Outubro 2019

O documento final do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica “deve ser muito forte” sobre as questões ecológicas, disse o cardeal Jean-Claude Hollerich, arcebispo do Luxemburgo, à revista America no dia 18 de outubro.

A reportagem é de Gerard O’Connell, publicada por America, 23-10-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Eu espero isso porque as pessoas esperam isso. Além disso, fora da Igreja Católica, existem expectativas nesse sentido. Se o nosso planeta for destruído, podemos gritar o quanto quisermos sobre os padres casados ou as mulheres padres, mas não haverá mais a necessidade de padres. Portanto, esse é o problema mais importante e é o problema com a maior urgência.”

Ele chegou a essa conclusão depois de ouvir cerca de 200 intervenções de quatro minutos por parte de cardeais, bispos, padres, religiosos e religiosas, assim como de mulheres e homens representando os povos indígenas da região pan-amazônica, durante as duas primeiras semanas do Sínodo especial dos bispos, que começou no dia 6 de outubro e termina no dia 27 de outubro.

O jesuíta poliglota, a quem Francisco criou cardeal na véspera do Sínodo, disse que ficou impressionado com “a violência que os povos indígenas têm de sofrer. É uma violência contra a floresta tropical e, ao mesmo tempo, uma violência contra os grupos étnicos, uma violência contra as pessoas”. Ele disse estar profundamente impressionado com o fato de que “existem muitos mártires da justiça nesses países, mas eles não perdem a esperança. São lutadores, e eu admiro muito isso”.

Ele disse que também espera que o documento final do Sínodo inclua “algo sobre a ordenação de homens casados e sobre novos ministérios para as mulheres”.

O cardeal Hollerich foi um dos bispos europeus nomeados pelo Papa Francisco para participar do Sínodo. Ele é presidente da Comissão das Conferências Episcopais da Comunidade Europeia, que é a organização de 28 Estados membros da União Europeia que se engaja com o Parlamento da União Europeia e a Comissão da União Europeia em questões de justiça, paz e muitos dos temas em pauta no Sínodo.

Ciente de que muitas empresas europeias atuam na região amazônica, ao lado de seus colegas norte-americanos e chineses, ele está preocupado em tentar assegurar que elas operem de maneira amigável em relação aos habitantes locais e ao ambiente. Ele acredita que a Igreja pode se esforçar mais para isso, “através do diálogo com os políticos, para ver como podemos introduzir mais a ética na economia e no mundo dos negócios”. Ele também disse que, “se as empresas buscam apenas o lucro a qualquer custo”, então o ambiente e as pessoas estão em perigo. Ele acha que “é preciso criar estruturas” não apenas em nível local, mas também em nível internacional, incluindo as Nações Unidas, “porque não podemos continuar tendo um capitalismo selvagem”, como é o caso hoje, em que “Estados-nação não conseguem mais controlar as grandes empresas ou o fluxo do dinheiro”.

Ao mesmo tempo, ele enfatizou a necessidade de uma “conversão ecológica” por parte de todos, a começar pelos bispos, como o Papa Francisco pediu na Laudato si’. “Nós, bispos, precisamos mudar o nosso estilo de vida, e se nós, pessoas mais velhas, conseguimos fazer isso, então os mais jovens também conseguirão”, afirmou. “Mas, se eu não posso mudar o meu próprio estilo de vida, como posso dizer aos jovens que o façam?” 

Ele já iniciou essa conversão pessoal ao não usar mais garrafas de plástico, ao optar por café proveniente de comércio justo em vez da Nespresso e ao mudar o seu carro a diesel por um veículo híbrido.

Esse é o segundo Sínodo desse cardeal de 61 anos. Ele estava trabalhando no Japão há mais de 20 anos quando o Papa Bento XVI o surpreendeu ao nomeá-lo como arcebispo de Luxemburgo em 2011, e, depois, Francisco o chamou primeiro para participar do Sínodo sobre os jovens e, agora, do Sínodo pan-amazônico.

Ele ficou particularmente impressionado com o modo como as pessoas “falam livremente” neste Sínodo e disse: “Eu acho que é uma bênção que elas expressem tudo sem medo. E elas veem o papa não como uma figura intimidadora de autoridade, mas como um amigo, um irmão. Então, elas ficam felizes em falar, e isso faz muito bem”.

Ele contrastou a atmosfera do Sínodo com a da Igreja na Europa, onde “as pessoas ainda se preocupam muito com aquilo que dizem, com o modo como isso é interpretado, com quem elas estão falando, e, assim, é preciso prestar atenção às palavras. Mas, no Sínodo da Amazônia, há uma liberdade absoluta graças a esse processo de sinodalidade. Eu acho isso maravilhoso”.

Ele está impressionado especialmente com o fato de que “a maioria dos bispos e todos os fiéis no Sínodo têm o mesmo tipo de linguagem”. Ele também contrastou isso com os encontros da Igreja na Europa, onde, em sua maior parte, “os bispos teriam uma linguagem muito teológica e de alto nível, e as pessoas da base diriam coisas diferentes”.

Além disso, afirmou, “é bom ver que os bispos no Sínodo estão perto das pessoas e sentem o pulso das pessoas, e as preocupações que as pessoas expressam também são as preocupações do seu bispo”.

Ele reconheceu, no entanto, aquilo que foi amplamente divulgado: que existe “um pequeno grupo” no Sínodo, incluindo muitos – embora não todos – da Cúria Romana, que “olham as coisas de uma maneira diferente”, que têm “uma visão diferente e uma mentalidade diferente”.

Ele acha que isso pode se dever ao clericalismo e ao medo das coisas novas, uma relutância em “escutar o que o papa nos chamou a fazer, a escutar com empatia o que as pessoas dizem a fim de entender a realidade e ver como o Espírito Santo está agindo no mundo”.

No Sínodo, surgiram “diferenças de mentalidade e de visão”, especialmente no que diz respeito à ordenação sacerdotal de homens mais velhos e casados das comunidades religiosas indígenas, frequentemente chamados de viri probati, a fim de prover a Eucaristia às comunidades que agora podem recebê-lo apenas em raras ocasiões. Assim como o cardeal Pedro Barreto Jimeno, o cardeal Hollerich acha que “uma maioria” dos participantes do Sínodo é a favor dessa ordenação.

Ele lembrou que o cardeal Oswald Gracias, da Índia, membro do seu grupo em inglês/francês que “procede com grande pragmatismo”, disse à assembleia plenária que uma solução pode ser encontrada com base no direito canônico existente, segundo o qual o papa poderia conceder permissão às Conferências Episcopais locais para a ordenação de homens casados, se elas assim o solicitem.

O arcebispo de Luxemburgo disse apoiar a proposta “conciliadora” do cardeal indiano, ao mesmo tempo em que reconhece que, “obviamente, se você abrir muitas exceções, então as regras mudarão”.

Outra questão que trouxe à tona “uma visão diferente, uma mentalidade diferente” no Sínodo refere-se à questão do papel das mulheres na Igreja e que novos ministérios podem ser atribuídos a elas na região pan-amazônica. O cardeal Hollerich revelou uma grande abertura sobre essa questão.

Ele começou observando que “mais mulheres do que nunca” estão participando deste Sínodo. Ele acredita que as mulheres devem poder votar no Sínodo e disse: “Eu não entendo por que as mulheres não podem votar, especialmente se são religiosas, já que os irmãos religiosos podem fazê-lo”. Ele espera que elas possam votar no próximo Sínodo e declarou: “Eu sou completamente a favor disso”.

O cardeal Hollerich declarou ainda: “Se as mulheres não se sentirem acolhidas na Igreja, no pleno sentido da palavra ‘acolher’, então elas deixarão a Igreja”.

Muitos participantes do Sínodo destacaram o amplo trabalho que as mulheres estão realizando na Igreja amazônica: trabalho catequético, batismos, animação das Liturgias da Palavra, pregação, distribuição da Comunhão, presidência de casamentos e até mesmo a escuta de confissões de pessoas moribundas (embora elas não possam dar a absolvição).

Alguns bispos descreveram tudo isso como uma diakonia – o serviço de um diácono. Muitos pedem alguma forma de reconhecimento institucional para o trabalho delas, de modo a lhes dar autoridade na comunidade eclesial. O cardeal Hollerich comentou: “As mulheres já estão fazendo muitas dessas coisas, e eu não sei por que alguns estão dizendo ‘não, não’” para reconhecer isso.

Na opinião dele, alguns estão apenas “pensando em termos teológicos” e se opõem ao diaconato para as mulheres. “Se o diaconato for aberto às mulheres, então você poderá ter mulheres cardeais, já que os cardeais não precisam ser bispos ordenados”, mas “isso é assunto do futuro”, disse.

O cardeal Hollerich disse que o Papa Francisco vê a Igreja como um poliedro e, ao assumir as posições da periferia, “ele está abrindo novos caminhos, mas ele quer que nós os descubramos. Ele poderia tomar as decisões sozinho, mas quer a sinodalidade porque é a essência da Igreja e quer que tomemos consciência de como o Espírito está trabalhando nela”. De fato, observou, “eu acho que o Espírito Santo está trabalhando para que as mulheres tenham mais voz na Igreja”.

Em Luxemburgo, disse, “eu tenho algumas mulheres no topo da minha diocese que são delegadas episcopais para o trabalho social-pastoral, para as novas espiritualidades, para a vida religiosa e assim por diante. São mulheres de alto nível. Elas têm uma espiritualidade mais profunda do que a maioria dos padres”.

Antes de se tornar bispo em 2011, o cardeal Hollerich viveu mais de 20 anos no Japão como membro da província japonesa dos jesuítas. Ele estudou lá por um tempo e tornou-se professor de estudos alemães, franceses e europeus (1994-2011) e vice-reitor de Assuntos Gerais e Estudantis da Universidade Sophia, administrada pelos jesuítas, em Tóquio.

Por causa de sua experiência japonesa, ele considera o processo de sinodalidade muito apropriado. Ele disse à revista America: “Eu acho que o processo de sinodalidade para se chegar a um consenso é muito japonês, porque, no Japão, o maior valor é a harmonia. Até mesmo o signo chinês de harmonia é ‘yamato’, que é o antigo nome do Japão. E aqui [no Sínodo] deseja-se estabelecer uma nova harmonia através do processo. Então, eu acho que isso é muito japonês, e as pessoas no Japão e na Ásia entenderiam isso”.

Além disso, “o povo asiático é muito mais pragmático, ao passo que os bispos europeus são muito teóricos”. Ele disse que havia participado da Federação das Conferências Episcopais da Ásia, no Sri Lanka, e encontrou lá “um pragmatismo refrescante nas suas formas de falar”.

Ele reconhece que alguns se opõem à Igreja sinodal, mas atribui isso ao “medo da mudança, um medo que eu tenho que mudar em mim mesmo”. Ele admite, “obviamente, que isso fica mais difícil quanto mais velho você é”. Além disso, afirmou, “assusta as pessoas pensar que as coisas que achávamos que eram essenciais para a fé católica podem ser vistas de maneira diferente”. Nesse contexto, ele revelou que havia recebido uma mensagem de pessoas do Centro Fátima dizendo que “elas haviam chegado a Roma para rezar o terço contra o sínodo herético”.

O cardeal Hollerich disse que está impressionado com o Papa Francisco, porque, “apesar de todas as inimizades que enfrenta, ele está sempre sorrindo. E isso mostra que ele é realmente um homem de Deus, um homem de oração. Ele está enraizado em Deus e, portanto, está tranquilo, está em paz, mesmo quando a situação em termos humanos pode ser descrita como bastante desesperadora”.

Ele disse: “Para a Europa, o Papa Francisco é um vento cheio de frescor, e nós precisamos disso. Eu acho que o papa de fora da Europa faz muito bem à Europa, de modo que realmente temos muita sorte”.

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