Sínodo parece estar se encaminhando rumo à ordenação de homens casados na Amazônia. Artigo de Thomas Reese

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21 Outubro 2019

O Sínodo dos Bispos reunido em Roma parece estar se encaminhando rumo à recomendação da ordenação de homens casados na região amazônica.

O comentário é de Thomas J. Reese, jesuíta estadunidense, ex-editor-chefe da revista America, dos jesuítas dos Estados Unidos, de 1998 a 2005, e autor de “O Vaticano por dentro” (Ed. Edusc, 1998), em artigo publicado por Religion News Service, 17-10-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Embora ninguém possa prever o que os bispos farão, um bispo brasileiro estimou recentemente que dois terços dos bispos no Sínodo apoiarão a ordenação dos "viri probati"– uma expressão eclesial que significa “homens casados de virtude comprovada”.

Outro participante disse ao Religion News Service que apenas alguns dos 185 bispos se pronunciaram contra essa ideia durante a primeira semana do Sínodo.

O Sínodo de três semanas, que começou no dia 6 de outubro, é composto principalmente por bispos da região amazônica, mas inclui leigos e religiosos, homens e mulheres, como participantes sem direito a voto. Entre os participantes leigos, estão indígenas da região.

A primeira semana do Sínodo envolveu três dias de discursos de quatro minutos dos participantes, seguidos por dois dias de discussões em pequenos grupos. A segunda semana tem dois dias de discursos, seguidos por outros dois dias de discussões em pequenos grupos. Há rumores de que o Sínodo tirará folga na sexta-feira, enquanto uma comissão tenta esboçar recomendações que reflitam o consenso do Sínodo. Na próxima semana, a última, será o momento da decisão, quando os bispos votarão nas recomendações que querem fazer ao papa.

Alguns bispos se queixaram do foco exclusivo da mídia ocidental na questão dos padres casados, apontando para outras questões críticas que foram discutidas, como a destruição da Floresta Amazônica e o seu impacto na biodiversidade, na poluição ambiental e nas mudanças climáticas, tudo em benefício dos ricos, disseram os bispos.

A violação total dos direitos humanos dos povos indígenas também foi lamentada. Milhares de pessoas foram massacradas e muitas mais foram deslocadas de territórios ocupados pelos seus ancestrais há séculos.

Mas a ordenação de homens casados tem sido um tema recorrente no Sínodo.

Os participantes das reuniões não abordam a questão a partir de uma perspectiva ideológica. Não se falou do “direito” dos padres de se casar ou que o celibato é uma má ideia. Ninguém está defendendo o casamento de homens já ordenados; ao contrário, propõe-se a permissão da ordenação de homens já casados.

A abordagem dos favoráveis tem sido pragmática. Se a Eucaristia e os sacramentos são essenciais para uma comunidade católica, dizem eles, então as comunidades precisam de padres. Se não há padres celibatários suficientes, a Igreja precisa ordenar homens casados.

Um bispo da Amazônia explicou que tinha tão poucos padres que seria como se a Itália tivesse apenas 25 padres para servir a todos os seus católicos. Outros bispos falaram de localidades que celebram a Eucaristia no máximo apenas duas ou três vezes por ano. Os que apoiam a ordenação de homens casados dizem que o padre não deveria ser apenas um visitante, mas sim uma presença permanente na comunidade.

Mas não são apenas as localidades isoladas que carecem de padres. O bispo Carlo Verzeletti, bispo da Diocese de Castanhal, perto de Belém, no norte do Brasil, observou que ele tem uma diocese com 150 igrejas pentecostais, enquanto os católicos têm apenas 50 igrejas, devido à escassez de clérigos. Muitas vezes, as pessoas frequentam uma igreja pentecostal porque é o único local de culto em sua localidade ou vizinhança.

Mas permitir os padres casados é apenas uma parte da solução. Muitos bispos falaram da importância de um bom treinamento e formação para lideranças leigos e clericais.

Uma abordagem seria encontrar lideranças leigas locais, formá-las e depois ordená-las para as suas comunidades. Outra seria recrutar e formar um quadro de homens casados que seriam enviados a comunidades que precisam de padres. As duas abordagens provavelmente seriam necessárias.

Uma boa formação é essencial para todos os padres, mas especialmente para aqueles que são enviados para comunidades atualmente lideradas por mulheres, onde há o risco de que o novo padre afaste as lideranças femininas. Tal clericalismo é tanto uma tentação para os padres casados quanto para os padres celibatários.

A Ir. Gloria Liliana Franco Echeverri, presidente da Conferência Latino-Americana e Caribenha de Religiosos e Religiosas, falou da importância da formação sacerdotal que capacita os homens a trabalharem em equipe.

A formação traz seu próprio conjunto de perguntas. Bispos de dioceses pobres se perguntam como pagariam por isso e sugeriram reunir recursos educacionais e financeiros em um fundo comum. Eles também expressaram preocupação sobre como as famílias dos homens casados ordenados seriam sustentadas financeiramente.

Embora a maioria dos bispos, inclusive o papa, pareçam considerar a ordenação de homens casados como uma exceção para a região amazônica, muitos de fora do Sínodo acreditam que será difícil contê-la uma vez que ela seja estabelecida ali.

Existem, no entanto, exemplos de padres casados na Igreja Católica. As Igrejas de rito oriental permitem os padres casados há séculos. Nos Estados Unidos, pastores luteranos e episcopais casados, que receberam as ordens católicas, foram autorizados a continuar seus ministérios. Essas práticas não levaram a uma maior expansão do clero casado.

Por outro lado, a Amazônia dificilmente é o único lugar no mundo em que a Igreja Católica precisa de mais padres. Se o papa permitir os padres casados na Amazônia, como ele dirá não aos bispos de outra região ou nação que o solicitarem?

E, se o sacerdócio casado se tornar uma opção, quantos jovens o escolherão em relação ao celibato? Muitos seminaristas veem o celibato não como um valor intrínseco, mas simplesmente como parte do preço de se tornar padre. Dada a escolha, eles escolherão o casamento.

Se o Sínodo recomendar a ordenação de homens, esse não será o fim do debate. O papa provavelmente consultará outros bispos ao redor do mundo antes de tomar uma decisão. E, mesmo que ele diga sim, escolher, formar e apoiar esses homens será um desafio para a Igreja amazônica.

Esse é um novo território para a Igreja Católica, e seria sensato olhar para as Igrejas protestantes e ortodoxas que têm lidado com essas questões há muito tempo.

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