Padres da Amazônia defendem ordenação de homens casados para fortalecer Igreja Católica

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11 Outubro 2019

A ordenação de homens casados é uma das propostas mais ousadas na agenda do Sínodo da Amazônia, convocada pelo papa Francisco para discutir o futuro da Igreja na região amazônica. Mas é a solução que muitos religiosos defendem para enfrentar uma realidade que enfraquece a presença católica: a carência de padres nas periferias dos centros urbanos e, principalmente, nas comunidades do interior.

A reportagem é de Elcio Ramalho, publicada por Radio France Internationale - RFI, 10-10-2019.


Catedral de Manaus. Foto: E. Ramalho

“Nós temos um número reduzido de clero e muitas vezes essas comunidades não têm acesso aos sacramentos, como Eucaristia. Como fazer com que essas comunidades possam ter acesso à graça sacramental, mesmo sabendo que o número do clero não vai aumentar como merece e deveria nas próximas décadas?”, questiona o bispo auxiliar da Arquidiocese de Manaus, Dom Luís Albuquerque, um dos representantes do Amazonas na reunião sinodal do Vaticano.

Sua preocupação é baseada em uma evidência: não vai se reverter a tendência de diminuição de jovens interessados na vida sacerdotal.

“Está diminuindo cada vez mais o interesse pela vida presbiteral. Hoje em dia se torna muito mais evidente que um jovem vai querer se realizar também dentro da dimensão da família, ser casado, e isso pesa na escolha de uma vocação que ainda hoje exige que a pessoa viva o celibato. Isso bate não somente com as culturas locais, indígenas, ribeirinhos, bate com esse ideal humano”, constata o padre Ricardo Castro, diretor do ITEPES, Instituto de Teologia que centraliza a formação da maioria dos seminaristas do Amazonas.

O número decrescente de vocacionados é ainda mais flagrante entre os jovens indígenas. Uma das explicações está relacionada com o próprio preconceito enfrentado pelos que optam pela vida religiosa.

Adriano Cordeiro, de 23 anos, da etnia Baré, diz ainda que os seminaristas indígenas enfrentam vários preconceitos: “O preconceito é um paradigma que existe principalmente na Amazônia, de que o indígena, que é uma categoria cultural, não é capaz de reflexões teológicas e filosóficas, principalmente no âmbito universitário”, explica o jovem. Ele pretende se formar padre e voltar para sua terra natal, São Gabriel da Cachoeira, no alto Rio Negro.

De lá veio o padre Justino Sarmento, da etnia Tuyuca, que há 26 anos se tornou o primeiro ordenado da congregação dos salesianos. Ele aponta a responsabilidade da própria Igreja Católica pela pouca formação de religiosos:

"A Igreja continuou com uma fisionomia colonialista, não valorizando muito os agentes de pastorais. A prova disso é que na Amazônia o clero é pouco, muitas regiões não têm religiosos indígenas, somos muito poucos”, constata padre Justino, um dos 22 padres indígenas da região.

A Arquidiocese de Manaus registrou no ano passado a atividade de 197 sacerdotes e religiosos em um território estimado em mais de 91.631 km2, onde vivem mais de 3 milhões de pessoas. Outras dioceses do Amazonas, como a de Parintins, enfrentam o mesmo problema de um número insuficiente de padres para atender suas comunidades.

“Eu visito uma vez por ano as comunidades, porque são 33 comunidades indígenas, longe uma da outra geograficamente, e 150 comunidades ribeirinhas para apenas 4 padres. Não tem condições de a gente acompanhar. Além disso, há um custo muito alto para nós”, afirma o padre Oziel Cristo de Oliveira, de 39 anos, da Pastoral Indígena da Diocese de Parintins.

“A gente espera que o documento do Sínodo possa ordenar esses homens casados e diáconos para favorecer a nossa missão”, acrescenta. 


Pe. Ozieu. Foto: E. Ramalho

Líderes interessados

Em muitas comunidades afastadas, onde os padres aparecem poucas vezes por ano, são os líderes locais que mantêm viva a fé católica. E muitos deles esperam ser oficializados como representantes da Igreja.

Na comunidade indígena do Parque das Tribos, na periferia oeste de Manaus, Fleury Serrão, da etnia Baré, anima as celebrações da comunidade católica, minoria no local. Aos 51 anos, casado, pai de três filhos, Fleury se diz disposto a seguir uma formação específica para ser ordenado padre, uma função que ele considera importante para conseguir atrair mais fiéis.

“Sim, é uma boa ideia e acho importante. Nossos irmãos protestantes podem, porque não nós católicos? Seria muito bom ter casais”, avalia.

Vanildo Pereira, padre jesuíta que trabalha na assessoria jurídica do Conselho Indigenista Missionário na Amazônia defende a ordenação de homens casados, principalmente para as áreas indígenas.

“Eu guardo muita esperança no Sínodo de que a gente possa possibilitar uma maior abertura, sobretudo àqueles indígenas que, com sua idade, com seu processo de fé amadurecido, com sua experiência comprovada, possam ser ordenados e trabalhar nas suas comunidades de forma permanente”, defende. 


Vanildo Pereira. Foto: E. Ramalho

O bispo Dom Edson Damian, de São Gabriel da Cachoeira, no alto do Rio Negro, uma das comunidades com maior número de católicos do estado, justifica seu apoio: “Nas comunidades onde o padre chega três ou quatro vezes por ano, é o catequista local, e ele que faz as celebrações dominicais da palavra de Deus, que transmite a formação e orientação cristã para as crianças e os jovens para os casais para o matrimônio. Esses catequistas, claro, recebendo uma formação maior e complementar, poderão ser ordenados presbíteros”.

O padre jesuíta espanhol Fernando Lopez, líder da equipe itinerante, que realiza missões em áreas isoladas da Amazônia, tem a esperança que a Igreja lance olhando para para seu passado, já que o primeiro Papa da Igreja, Pedro, teria sido casado. Em sua participação nas reuniões no vaticano, ele vai expor o argumento para defender esta possibilidade.

“O tema do sacerdócio ordenado é tranquilo. Primeiro, porque é tradição da Igreja. O próprio Pedro era casado e tinha sua sogra, que Jesus até atendeu porque estava doente. São temas que devem avançar e o rosto da Igreja vai mudar radicalmente, romper o clericalismo interno da Igreja”, garante .


Pe. Celestino. Foto: E. Ramalho

Mas para romper a tradição será preciso superar alas ultraconservadoras do Vaticano e até entre alguns fiéis, segundo Celestino Ceretta, que atua na Amazônia há 41 anos.

“Acho difícil ordenar homens casados pela reação que está tendo no contexto urbano. Agora, no interior é uma necessidade urgente que não pode atrasar o atendimento ao povo do interior. Não sei que solução vai sair do Sínodo, mas uma solução tem que sair porque esse povo não pode mais ficar abandonado assim”, diz.

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