Amazônia: ''Quem critica o Sínodo provavelmente é contra o papa e a própria Igreja''

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09 Outubro 2019

Maurício López comenta a cúpula no Vaticano: “Se não somos capazes de mudar formas e doutrinas – não os dogmas – isso significa que não sabemos responder às exigências das pessoas”.

A reportagem é de Salvatore Cernuzio, publicada por Vatican Insider, 08-10-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Uma tripla conversão pastoral, ecológica, sinodal para a Igreja.” Não são expectativas pequenas as de Maurício López para o Sínodo sobre a Amazônia, iniciado no domingo, 5 de outubro, no Vaticano. Afinal, ele – leigo mexicano formado pelos jesuítas, interlocutor-chave entre os líderes indígenas e a hierarquia católica, tanto na região pan-amazônica quanto na Cúria Romana – conhece bem o grande trabalho de “consulta e discernimento” que está por trás da grande cúpula que reúne em Roma bispos dos cinco continentes, tendo-o desempenhado em primeira pessoa como secretário executivo da Repam.

Trata-se da Rede Eclesial Pan-Amazônica, organização nascida em 2014, que reúne bispos, religiosos e leigos dos nove países da “Cuencaamazônica, que, por vontade do papa, colaborou estreitamente com a Secretaria do Sínodo para a organização do evento eclesial de outubro.

A Repam, atualmente presidida pelo cardeal brasileiro Claudio Hummes, é “o resultado de um caminho eclesial que durou décadas a partir do espírito do Concílio Vaticano II, em que é proposta uma Igreja que se abre aos desafios das Igrejas locais e incorpora as diversas expressões do ser Igreja. Tal caminho foi selado pelo Documento de Aparecida, onde, no ponto 475, afirma-se que é preciso criar na bacia amazônica uma pastoral de um grupo diferenciado para responder à realidade desse lugar. Nem a Repam, mas nem mesmo o próprio Sínodo podem ser compreendidos sem Aparecida”, explica López ao Vatican Insider e a outras publicações que se encontraram com ele no escritório central de Quito, no Equador.

“A Repam é o primeiro órgão não vaticano que participou formalmente do processo de escuta do Sínodo”, sublinha o secretário executivo, fornecendo também alguns números. “Falamos diretamente com 22 mil pessoas e depois com outras 65 mil através das assembleias nas diversas paróquias. Realizamos 300 eventos de consulta, 60 grandes assembleias e mais de 50 fóruns temáticos sobre questões pan-amazônicas.”

“O papa nos disse que nunca viu um processo pré-sinodal tão aberto e alegre. Por que isso? Porque os bispos que fazem parte dele são todos missionários, vivem as realidades, as compreendem, não foram a Roma apenas para falar de teorias.”

Porém, há quem ainda considere esse Sínodo um pretexto que, destacado do contexto amazônico, servirá para endossar decisões “políticas” ou contrárias ao magistério da Igreja. “Precisamos nos perguntar se os que são contra o processo sinodal não são contra a própria Igreja e o papa”, afirma Mauricio López. “Devemos avaliar os motivos pelos quais se opõem a todo o processo de mudança e às reformas que, ao contrário, poderiam ser necessárias. A visão de muitos que criticam o Sínodo mudaria muito se fossem viver em uma comunidade distante por um ano. Todas as questões doutrinais ou ideológicas acabariam.”

Para o secretário da Repam, “se não somos capazes de mudar a forma e a doutrina – não os dogmas – isso significa que não sabemos ir ao encontro das pessoas e responder às suas exigências e aos seus direitos, como, por exemplo, de receber os sacramentos. Lembro-me de um casal de indígenas que foram visitar o bispo na sua diocese e lhe pediram a bênção para entrar na Igreja Católica: ‘Muitos da nossa comunidade se converteram ao evangelismo’, diziam. O bispo, responsável por encontrar caminhos para torná-los plenamente membros da Igreja, não tinha ideia da resposta. Desse modo, perdemos tantas pessoas... O que devemos fazer? Devemos lhes agradecer pela sua presença e lhes dar a nossa bênção para que deixem a Igreja?”.

Quanto à questão dos viri probati, homens idosos, casados e de fé comprovada que, em uma comunidade perdida, podem receber a ordenação a fim de poderem distribuir os sacramentos, López explica sem muitas meias palavras: “É uma proposta que provém diretamente do povo de Deus que se encontra no território, isto é, de comunidades que não precisam tanto da ministerialidade, mas sim de crescer na fé”.

No entanto, a questão continua sendo polêmica e provocou um acalorado debate. Para o número dois da Repam, “o que está em jogo é uma luta de narrativas. Da nossa parte, não queremos responder a uma narrativa, mas sim apresentar as características específicas da vida na Amazônia, um território que é um bioma, e não uma simples região da América do Sul. O sistema de vida, os povos indígenas, a flora, a fauna e a missão da Igreja são temas que ultrapassam as fronteiras, sem pôr em discussão a soberania dos países. Aquilo que nós realizamos nesses meses não foi uma simulação de diálogo, mas sim um tricô que fizemos juntos”.

Porque Repam é isto: uma rede, de fato. “Não é uma instituição, a institucionalidade é dada por aqueles que a compõe, ou seja, pelos membros da Celam ou da Cáritas. Somos uma rede que permite que as fragilidades se unam, de modo a serem menos frágeis nessa realidade cada vez mais ameaçada e em risco.” Por que em risco? “Em parte por causa do extrativismo sem controle, mas também porque a Igreja tem cada vez menos recursos humanos e materiais para continuar a missão.”

Nesse sentido, Maurício López diz que tem grandes expectativas em relação ao trabalho dos Padres no Vaticano; no entanto, o que mais o preocupa é a fase do “pós-Sínodo”: é lá que se entenderá o quanto os propósitos do papa e da Igreja foram ouvidos e poderão ser postos em prática.

De qualquer forma, já é uma grande conquista que, aos olhos do mundo, haja por cerca de três semanas o drama que a Amazônia explorada e depredada dos seus recursos vive todos os dias.

“Com este Sínodo, o Papa Francisco realiza aquilo que ele afirmou no início do pontificado: colocar a periferia no centro. E a Amazônia, desde sempre, foi concebida como uma periferia, como um espaço a ser colonizado e explorado pelos governos e pelas próprias pessoas que moram nas nações nas quais ela se estende. Agora, a Amazônia irrompe como território eclesial, como lugar teológico onde se expressa a presença viva de Cristo. Um espaço ‘descartável’, sem valor, pode iluminar e purificar o centro. Não há nada mais evangélico do que isso.”

O desejo do secretário geral da Repam é que “o Sínodo leve a três conversões fundamentais: uma conversão pastoral, ou seja, uma Igreja ‘em saída’, que evangelize a partir do social, que esteja em contato com a realidade, não impondo, mas contagiando. Uma conversão ecológica, porque é muito triste que alguns representantes de alto nível da Igreja não reconheçam que os temas da Laudato si’ também são Doutrina Social da Igreja. Uma conversão para a sinodalidade, porque esse Sínodo é um chamado para todo o planeta. E, como disse o papa no seu discurso aos bispos brasileiros no Rio de Janeiro, se fracassarmos aqui na Amazônia, fracassaremos como Igreja”.

 

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