Novos cardeais refletem visão do papa de uma Igreja do diálogo

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03 Setembro 2019

O Papa Francisco quase não conseguiu anunciar seus 13 novos cardeais nesse domingo. Durante 25 minutos antes do Ângelus dominical, ele ficou preso em um elevador antes que os bombeiros da Santa Sé chegassem para resgatá-lo.

A reportagem é de Christopher Lamb, publicada por The Tablet, 02-08-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Antes da sua eleição em 2013, Francisco falou sobre Jesus que bate na porta dentro da Igreja pedindo para sair, e, nesse pontificado, o primeiro papa latino-americano tem trabalhado incansavelmente para levar a mensagem do Evangelho para fora dos corredores de mármore do Vaticano e para o mundo, entre os marginalizados e os que sofrem.

Suas escolhas cardinalícias do domingo refletem a sua prioridade para o diálogo com as outras religiões, particularmente o Islã, uma preocupação com os migrantes e uma Igreja hospital de campanha que olhe para fora dos velhos centros de poder eclesial e para as margens.

Ele deu continuidade à sua política “os últimos serão os primeiros” para elevar clérigos que não esperariam se tornar “Príncipes da Igreja”, incluindo um padre que trabalha no departamento de migrantes da Santa Sé e ao escolher um novo cardeal da República Democrática do Congo, dilacerada pela guerra. Três das escolhas são, assim como Francisco, jesuítas (Nota de IHU On-Line: os jesuítas são: Michael Czerny, Jean-Claude Hollerich, arcebispo de Luxemburgo e presidente da Comissão das Conferências Episcopais da União Europeia e Sigitas Tamkevičius, Arcivescovo emerito di Kaunas, Lituânia), e 10 delas são de homens com menos de 80 anos e que são elegíveis para votar em um futuro conclave.

O papa argentino de 82 anos vai entregar o barrete vermelho a lideranças do passado e do presente do órgão para o diálogo inter-religioso do Vaticano, incluindo o arcebispo britânico Michael Fitzgerald e duas lideranças da Igreja que atuam em países de maioria muçulmana: Marrocos e Indonésia.

Sua nomeação de Fitzgerald é uma homenagem adequada a um Padre Branco missionário, cujo ministério o levou à Tunísia, ao Egito, ao Sudão, à Uganda e a Jerusalém, e o viu trabalhar no conselho do órgão para o diálogo inter-religioso de 1987 a 2006. Embora Fitzgerald, 82 anos, seja velho demais para votar em um conclave, muitos verão esse barrete vermelho como uma defesa da sua abordagem ao Islã e a outras religiões.

Em Roma, o cardeal designado foi considerado como um exilado no papado de Bento XVI, quando foi transferido do seu alto cargo no Vaticano para o Egito como embaixador papal. Como estudioso de assuntos árabes e falante fluente em árabe, Fitzgerald sempre defendeu o diálogo paciente e a construção de pontes com as outras fés. Mas a sua mudança para o Egito coincidiu com um endurecimento da posição vaticana em relação ao Islã, e ele chegou ao Cairo após ao infame discurso de Bento XVI em Regensburg em 2006. Seu tempo no Egito também coincidiu com os turbulentos eventos da Primavera Árabe.

Após sua nomeação, Fitzgerald, que trabalha hoje em uma paróquia no centro da cidade de Liverpool, disse que gostaria de agradecer a “todos os católicos e outros cristãos e pessoas de todas as diferentes religiões que me ajudaram a servir no campo das relações inter-religiosas. Gostaria de lhes pedir que rezem por mim, para que eu possa continuar prestando esse serviço com generosidade e alegria”.

Durante o pontificado de Francisco, o diálogo inter-religioso é uma prioridade séria, e o papa assinou um documento histórico sobre a fraternidade humana com o grão-imã da Mesquita de Al-Azhar durante uma visita aos Emirados Árabes Unidos. Sua decisão de tornar cardeais Fitzgerald e o bispo Miguel Ayuso Guixot, presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso e outro especialista em Islã, coloca a Igreja em um caminho de escuta paciente, construção de relacionamento e cooperação conjunta com lideranças muçulmanas.

Junto com esses dois, o papa também nomeou cardeal o arcebispo de Rabat, Cristóbal López Romero, dando um barrete vermelho a uma pequena Igreja local que prioriza o serviço a seus vizinhos muçulmanos. Francisco visitou o Marrocos no início deste ano, onde se encontrou com o último monge trapista sobrevivente do mosteiro de Tibhirine, na Argélia, Jean-Pierre Schumacher.

Os monges de Tibhirine se recusaram a deixar a Argélia durante a guerra civil dos anos 1990 em solidariedade com a comunidade muçulmana local, e sete deles foram sequestrados e depois assassinados. Ao tornar cardeal o arcebispo de Rabat, ele está demonstrando solidariedade com uma pequena Igreja de apenas 23.000 pessoas, mas renomada pelas suas escolas, orfanatos e hospitais que servem à toda a comunidade.

Junto com o diálogo, o papa fez uma escolha surpresa ao nomear o Pe. Michael Czerny, um jesuíta de 73 anos de idade, subsecretário da seção de migrantes do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral. Nascido na Tchecoslováquia, ele cresceu no Canadá e, enquanto trabalhava no Quênia, instituiu a African Jesuit Aids Network. Ele trabalha em estreita colaboração com Francisco.

O papa também escolheu outro jesuíta, o arcebispo do Luxemburgo, Jean-Claude Hollerich, que se manifestou abertamente contra a ascensão do nacionalismo populista na Europa. Em um artigo publicado antes das eleições europeias deste ano, ele descreveu o ex-estrategista do presidente Trump, Steve Bannon, como um dos “padres” do populismo.

No passado, o papa “deseuropeizou” o Colégio dos Cardeais, mas, desta vez, seis são europeus, dois da América Latina, e um é asiático. O único italiano entre eles é o arcebispo de Bolonha, Matteo Zuppi, ordenado pelo grupo humanitário católico da Comunidade de Santo Egídio. Ele mostrou sensibilidade pastoral em relação às pessoas gays e escreveu o prefácio da versão italiana do livro do padre jesuíta James Martin intitulado “Building a Bridge” [Construindo uma ponte], que reivindica um maior respeito pelos católicos LGBT.

No que diz respeito aos cardeais, o papa rasgou o livro de regras não escrito de que os arcebispos que lideram certas dioceses são automaticamente criados cardeais e, em vez disso, tem procurado lideranças da Igreja confiáveis e humildes que trabalham longe dos holofotes.

O consistório, que ocorrerá no dia 5 de outubro, será o sexto do seu pontificado. Alguns cardeais estão prestes a completar 80 anos e, no dia 15 de outubro, o papa terá escolhido 66 dos 128 cardeais que têm direito a voto no conclave, o que representa 53% do total.

Escolher cardeais é a coisa mais próxima para um papa do planejamento da sua sucessão, e, com suas escolhas, Francisco está tentando garantir que a Igreja continue na trajetória que ele estabeleceu para ela.

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