O jesuíta que conseguiu não trair seus amigos nos porões da KGB

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25 Setembro 2018

Falando com os religiosos sobre os mártires que constituem a Igreja lituana, o Papa Francisco, na catedral de Kaunas, citou o arcebispo jesuíta Sigitas Tamkevičius, de 1938, e que é atualmente emérito. Em 1983 ele foi preso pelas autoridades soviéticas. Sua história está narrada no livro “O baile depois da tormenta” de José Miguel Cejas.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 23-09-2018. A tradução é de Graziela Wolfart

“Nunca rezei tão intensamente como naqueles momentos – contou. Jesus não me deixou só”. Tamkevičius recorda o momento da prisão: “‘Nos descobriram’, pensei naquele dia de 1983. Ao subir na caminhoneta da KGB, me invadiu um suor frio. Os porões da prisão, com corredores estreitos, telhados altos, mal iluminados, lâmpadas escuras, com manchas de umidade e rachaduras, não convidavam à serenidade”.

Perguntaram-lhe seu nome e a profissão. Respondeu: “Sacerdote. Jesuíta”.

Responderam: “‘Ande! É Sigitas, do Comitê para a Defesa dos Crentes, esse que faz propaganda antissoviética contra o Estado’. Eu sabia que minha participação no Comitê não era o que lhes interessava. Queriam saber quem eram os redatores de ‘A Crônica da Igreja Católica na Lituânia’ e como chegava ao exterior. A ideia de ‘A Crônica’ havia ocorrido a mim e a outros quatro sacerdotes nos anos setenta”.

“Decidimos escrever textos que consolaram os católicos lituanos e que revelaram nossa situação no Ocidente: não podíamos oferecer catequese nem conferências, nem evangelizar de nenhuma outra maneira. Nas poucas missas que nos permitiam [celebrar] havia espiões do governo que tomavam nota das homilias e vigiavam as pessoas que não fossem os idosos de sempre; não se podia nem construir, nem consertar as igrejas”.

“Oito agentes começaram a me interrogar um dia sim, e outro também. Não podia imaginar que esse interrogatório iria durar seis meses! Horas e horas de perguntas, em uma sucessão constante de examinadores ‘bons’ e ‘maus’. Deus me deu força para não trair ninguém nesse período terrível, nem sequer nos momentos de maior debilidade”.

“‘Não entendo como conseguiste’, me dizem às vezes, pensando que superei toda essa situação graças às minhas forças. Mas não foi bem assim. Na prisão consegui comprar alguns pedaços de pão e confirmei que era de trigo. Só me faltava o vinho; em uma carta pedi a minha família uva passa seca. Desde então, somente tinha que encontrar um bom momento, sabendo que meu companheiro de cela, como normalmente acontecia, era um criminoso comum ao qual prometiam reduzir a pena se lhes fossem oferecidas informações comprometedoras sobre mim”.

“Eu ficava de costas para a porta – contou Tamkevičius – com o estojo dos óculos na mesa; um estojo amarelo de plástico no qual tinha um pequeno pedaço de pão e um pequeno recipiente com um pouco de uva passa. Esperava que meu companheiro de cela adormecesse e então, lentamente, começava a espremer a uva passa entre os dedos até obter alguma gota de vinho que, em casos excepcionais, valia inclusive para celebrar a eucaristia”.

“Graças a Deus tenho boa memória – continua o bispo – e me lembrava das orações da missa. Depois da consagração, consumindo o corpo e o sangue de Cristo, uma alegria indescritível se apoderava de mim. Experimentava uma alegria maior do que havia sentido da primeira vez que celebrei missa na catedral de Kaunas. Deus me consolava e confortava. Senti-o ali ao meu lado”.

“Celebrar a missa nessas circunstâncias – explicou Tamkevičius – me dava uma força especial, sem a qual eu não teria resistido. Às vezes queria celebrar deitado na cama, em plena noite”. “Nunca rezei tão intensamente como nesses momentos. Foi um dom de Deus. Não lhe pedia que me libertasse; confiava n’Ele. Os braços de Jesus me sustentavam; nunca me deixou só. Sempre foi minha esperança”.

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