“Uma nova Guerra Fria começa entre os EUA e a China, que levará à desglobalização”, afirma Nouriel Roubini

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21 Agosto 2019

O que acontece entre os EUA e a China? De acordo com Nouriel Roubini, o economista estadunidense que previu a crise do mercado imobiliário norte-americano de 2007, parece que "a guerra comercial-tecnológica entre os EUA e a China se intensificará". Para Roubini, "este é o começo da desglobalização e da balcanização da economia global e do desacoplamento (decoupling) entre Estados Unidos e China. Portanto, não surpreende que os mercados tenham voltado a querer reduzir os riscos. Mesmo a flexibilização do Fed não pode sustentar os mercados atingidos por um duplo choque negativo da oferta: guerra comercial e tecnológica ao mesmo tempo!". Um excesso de pessimismo por parte do economista que se formou com distinção da Universidade Bocconi, em Milão, antes de se especializar na Universidade de Harvard e se tornar um dos economistas mais ouvidos do planeta? Não, justamente porque sua visão pessimista ou simplesmente realista não está isolada no mundo econômico estadunidense.

O artigo é publicado por Business Insider Itália, 15-08-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O presidente Donald Trump decidiu adiar alguns impostos sobre os produtos chineses para 15 de dezembro, mas a tensão continua alta enquanto a Alemanha (onde o PIB do segundo trimestre está se reduzindo 0,1% em relação ao trimestre anterior) e a China sofrem as primeiras desacelerações econômicas desta guerra de impostos iniciada por Washington. As bolsas globais reagem com quedas profundas e nos bonds dos EUA aparece a "curva invertida" dos rendimentos entre aqueles de dois anos e de dez anos, um sinal inequívoco de recessão à vista dentro de 18-24 meses.

De acordo com o CEO da Axios Jim VandeHei, todos os sinais indicam o nascimento de uma "Guerra Fria" como a que ocorreu entre a URSS e os EUA, que durará décadas, mas desta vez com a China. Uma mudança turbulenta de alianças, da política e das economias globais está à nossa frente? Pequim, que eliminou à força os protestos da Praça da Paz Celestial em 1989, se coloca como algo alternativo de um sistema com partido único autoritário e de economia de mercado contra as “obsoletas” democracias liberais ocidentais (para usar a definição do presidente russo Vladimir Putin em uma recente entrevista concedida ao Financial Times), por sua vez atacadas por populismos e soberanismos dentro delas.

Nessa chave a guerra comercial entre Washington e Pequim não seria nada mais do que uma pequena escaramuça de uma batalha muito maior e mais ampla acontecendo pelo domínio global. E, pela primeira vez, pode-se ver a possibilidade do decoupling (desacoplamento dos destinos e das economias) entre China e EUA, criando dois sistemas globais distintos e rivais e estruturas de poder antagônicas entre si como aquelas entre Rússia Soviética e o capitalismo ocidental na época da primeira Guerra Fria.

O quadro geral

Bill Emmott, ex-diretor do Economist, ao contrário, escreve em seu livro de 2008 “Rivals: How the Power Struggle between China, India and Japan will Shape our Next Decade" que o destino e o bem-estar da Ásia e, portanto, do mundo serão produto de rivalidade ou acordos entre três potências asiáticas : Japão, China e Índia, de um quadro mais dinâmico e mais concentrado na área do Pacífico. Uma visão que hoje talvez encontre poucos defensores.

Mas vamos voltar à rivalidade entre China e EUA. Além do comércio, as duas superpotências competem por propriedade intelectual e tecnologia, influência política nos países em desenvolvimento por meio de assistência econômica (China’s Belt and Road Initiative), acordos diplomáticos, instituições multinacionais (Asia Infrastructure Investment Bank) e venda de armas.

Além disso, Pequim desfruta de um sistema muito vantajoso na OMC (Organização Mundial do Comércio), que hoje não faz mais sentido manter, dado que sua economia não está mais em via de desenvolvimento. O presidente estadunidense Donald Trump pediu para modificar, em 26 de julho de 2019, o sistema de benefícios desfrutado pela China dentro da Organização Mundial do Comércio, mas até agora sem muito sucesso porque as elites ocidentais têm sido frequentemente coniventes e insensíveis aos riscos sociais de tais disparidades.

Uma das manifestações mais claras dessa nova rivalidade entre Pequim e Washington é encontrada na corrida pela supremacia tecnológica: a Internet está se "dividindo em duas", como o dizia recentemente o Wall Street Journal, e as empresas gigantes dos Estados Unidos e da China estão lutando para obter vantagens, ocultas e evidentes, em todo o mundo. Para parar esta corrida monopolista global em algumas tecnologias está a ação solitária do Comissário Europeu da Concorrência, liderado hoje pela liberal dinamarquesa Margrethe Vestager até o final de outubro.

Bill Bishop, um norte-americano que viveu em Pequim de 2005 a 2015 e autor do blog "Sinocism", disse ao Axios que o presidente Xi Jinping e sua equipe concluíram que a China é muito dependente dos Estados Unidos em termos de tecnologia e agricultura. Por isso, aceleraram seus esforços para se tornarem autossuficientes, diversificando também sua dependência dos Estados Unidos. Neste sentido, deve ser enquadrado o interesse chinês pela África e seus imensos territórios agrícolas e relações com alguns países da América Latina.

A China acusa os EUA

Agora, a China está acusando Washington por suas tensões econômicas e internas: o New York Times informa de Pequim que a "hostilidade em relação aos EUA" por parte de autoridades chinesas e organizações de imprensa estatais "intensificou-se ... junto com dois dos grandes problemas da China: uma economia em desaceleração complicada pelas tensões comerciais e turbulências em Hong Kong que parecem não encontrar uma solução".

"Mesmo Pequim não parece pôr um fim às suas controvérsias com Washington em relação à gigante das telecomunicações chinesa Huawei, que foi incluída na lista negra pela administração Trump como uma ameaça à segurança", acrescentou o Times.

O que vai acontecer em breve? Em 1989, o cientista político norte-americano Francis Fukayama, em seu famoso e afortunado livro The end of the History and the Last Man, "O Fim da História e o Último Homem", teorizava sobre a vitória da democracia liberal sobre ideologias rivais como as monarquias hereditárias, fascismo e comunismo usando o termo história no sentido hegeliano e marxista, isto é, de evolução histórica do pensamento em direção a sistemas políticos mais evoluídos das sociedades. Nunca uma previsão foi tão clamorosamente desmentida pelos eventos posteriores.

A Queda do Muro de Berlim há 30 anos

Em novembro, terão se passado 30 anos desde que o Muro de Berlim caiu em 9 de novembro de 1989. Após a queda da União Soviética, na maior parte do tempo os Estados Unidos não tiveram um verdadeiro rival pela supremacia global e não conseguiram fazer bom uso disso. Agora, Os EUA que parece fascinada pela rejeição do multilateralismo, enfrenta um possível declínio do "século americano" de acordo com a famosa definição do editor da Time, Henry Luce, e está lutando em um desafio que poderia até perder. Washington tem uma densa rede de alianças sem comparações com sessenta países no mundo, enquanto Pequim só pode contar com a Coreia do Norte. No entanto, Washington parece preferir a ação diplomática isolada da America First, do primeiro a América, mas na solitária.

Os Estados Unidos acreditaram que a democracia liberal e sua supremacia haviam vencido para sempre. Não foi assim, como vimos anteriormente com Francis Fukuyama: hoje estamos enfrentando uma luta pela hegemonia global que poderia durar algumas décadas justamente com a liderança chinesa que não hesita em mudar sua constituição e a proibição dos dois mandatos quinquenais ao poder para dar ao Presidente Xi Jinping mais tempo para enfrentar os desafios sem ter que se preocupar com a renovação do mandato que se torna sem limites. Um novo Mao no poder em Pequim? Não, justamente porque o Grande Timoneiro dominava uma China camponesa e atrasada, enquanto Xi Jinping decide o destino da segunda economia mundial e da primeira potência comercial com objetivos hegemônicos globais. Sem mencionar que Washington parece mais preocupado em dividir os aliados da OTAN da União Europeia ao ameaçar impostos e apoiar o Brexit sem acordos, em vez de consolidar um eixo transatlântico que poderia atuar como um freio aos objetivos chineses de supremacia mundial.

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