Desvelando o caso Huawei: EUA, China e a necessidade de um não-alinhamento digital

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02 Agosto 2019

À medida que avança a era digital, a recente inclusão de Huawei na lista negra dos Estados Unidos pode resultar num acontecimento de importância histórica.

É assustador imaginar como seria um mundo digitalmente dividido. Isso, além das nítidas dependências digitais que os países sofrerão com seus respectivos mestres digitais (EUA ou China). Uma vez que a inteligência digital que opera os setores de um país é de propriedade e controlada por agentes externos, os países se encontrarão em uma situação de impotência, muito pior do que com as dependências da era industrial.

Nessas circunstâncias, quais são as opções para todos os países que não são superpotências digitais, incluídos os países europeus? A direção apropriada seria uma combinação de uma abordagem geopolítica para o não-alinhamento digital.

O artigo é de Parminder Jeet Singh, diretor-executivo de IT forChange, dirige o trabalho da organização nas áreas de governança da Internet, governança eletrônica e desenvolvimento na era digital. É membro-fundador de três coalizões globais no âmbito da governança da internet: Just Net Coalition, BestBits e Internet Rights and Principles Coalition, publicado por BotPopuli, 05-06-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo.

À medida que avança a era digital, a recente inclusão de Huawei na lista negra dos Estados Unidos pode resultar num acontecimento de importância histórica.

Durante a última década, aproximadamente, algumas poucas empresas de internet com sede nos Estados Unidos foram mais além da captura de nossos sistemas de informação e comunicação para começar a dominar setores físicos como o comércio de varejo e transporte, e avançar para outros como a saúde e educação. Assim como a mecanização não deixou nenhum processo ou setor sem impactos durante a revolução industrial, com a economia digital, a inteligência digital baseada em dados está reconfigurando radicalmente todas ou a maior das áreas e setores da atividade econômica.

Respaldada por uma internet global, a economia digital, com seus fluxos de dados em grande medida sem fronteiras, nasceu como um único espaço digital. Embora a inteligência artificial baseada em dados seja seu principal impulsor, essa se embasa em muitas camadas digitais, desde redes físicas, chips informáticos e dispositivos de usuário, até software e aplicativos. As empresas estadunidenses dominaram quase todas essas camadas, porque os EUA foram configurando-se como o único centro ao qual se organiza a economia digital mundial. Porém, então chega a China para arruinar a festa dos EUA!

A China surgiu como uma força global no âmbito digital. O que começou como pânico político pelo potencial perturbador de Internet, se converteu cada vez mais em políticas industriais reflexivas destinadas a promover a indústria digital nacional da China. Uma combinação de fatores variados – o grande corta-fogo da China, mais de um bilhão de pessoas unificadas por um só idioma que não é o inglês, a recém-formada classe média rica e empreendedora da China que emerge de uma revolução manufatureira muito exitosa, o apoio próximo do governo, etc. – resultou no surgimento aparentemente repentino de enormes empresas digitais chinesas em quase todos os setores. Depois ter servido com êxito ao amplo mercado chinês, estas estão já no caminho para conquistas globais. A sagacidade fabril da China já estava a permitindo capturar o mercado de dispositivos e equipamentos de telecomunicações. Agora, as empresas chinesas de plataformas digitais baseadas em dados, estão incursionando nos mercados asiáticos e ainda mais, para disputar a dominação digital estadunidense.

Com a Amazon competindo com Alibaba, e Uber com Didi, se desenvolveu um cenário interessante. Os monopólios digitais dos EUA se enfrentavam numa certa competição, que em geral era boa para o mercado mundial. As empresas digitais estadunidenses e chinesas competiam tão ferozmente com seus compatriotas como faziam com outras. Tanto o mercado estadunidense como o chinês, assim como as cadeias de fornecimento, foram importantes para as empresas de ambos países. Isso também levou à formação de alianças e redes digitais entre os países, por exemplo, Baide se associou com Ford para seu aplicativo de transporte.

Uma geodivisão digital emergente

O digital não é apenas um setor ordinário. É mais um paradigma que afeta toda a economia e a sociedade. A competição pelo seu controle é sensivelmente demasiada política e estratégica para que qualquer tipo de camaradagem digital entre as duas superpotências globais perdure. A liderança mundial em termos econômicos tem sido bastante antagônica em si, mas na economia digital também estão envolvidos os interesses militares estratégicos, de segurança e até de longo prazo. A liderança mundial em termos econômicos tem sido bastante antagônica em si, mas na economia digital também estão envolvidos os interesses militares estratégicos, de segurança e até de longo prazo.

Entre bastidores, os governos das duas superpotências digitais estão jogando uma espécie de xadrez geopolítico. Companhias como o Google e Microsoft são conhecidas por dar uma mão aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos. Justificando seu trabalho com o exército estadunidense, o chefe da Amazon, Jeff Bezos, disse recentemente que os Estados Unidos é um grande país e que necessita ser defendido. Do mesmo modo, o diretor executivo da Google, Sundar Pichai, assegurou que o Google está comprometido com o exército dos EUA e não com a China. O capitalismo de estado chinês e suas aspirações globais não são um segredo.

Em 2017, quando a Inteligência Artificial do Google venceu o campeão mundial de Go – um jogo chinês significativamente mais complexo que o xadrez, a consciência pública da china se viu profundamente impactada. Alguns meses mais tarde se publicou a estratégia chinesa de inteligência artificial, na qual se declaravam as intenções do país de conseguir a supremacia em inteligência artificial para 2030. Isso pode ter parecido ser uma proclamação bastante extraordinária. No entanto, rapidamente até a imprensa ocidental estava repleta dos feitos da IA da China e sua corrida pela inteligência artificial com os Estados Unidos.

Como informa a revista Wired, não somente há mais trabalhos de pesquisa sobre IA procedentes da China que dos Estados Unidos, como também inclusive se prevê que a qualidade dos primeiros alcançará a dos segundos em 2020. Essa é uma conquista excelente para um país que há 15 anos tinha pouco software de classe mundial ou competitividade digital. As piadas sobre a qualidade dos produtos fabricados na China estão se tornando antiquadas. Os equipamentos de telecomunicações de Huawei hoje em dia não somente são mais baratos, mas essa também é a empresa que tem mais patentes que qualquer outra e é geralmente considerada a líder mundial em 5G. Se a China dominar a indústria de redes de telecomunicações, um documento filtrado do Conselho de Segurança Nacional dos EUA diz: “ganhará política, econômica e militarmente”.

A inclusão da Huawei em uma lista negra por parte dos EUA golpeou os dois pontos fracos da companhia, geralmente compartilhados pelas cadeias de valor digitais da China. Google retirará seu sistema operativo móvel Android e seus serviços aliados, enquanto que a empresa ARM, com sede no Reino Unido, cujos chips ativam a maioria dos celulares, estão interrompendo a entrega de seus chips a Huawei.

Esse último se opôs corajosamente. A Huawei já está desenvolvendo seu próprio software de operação móvel. Ela também afirma que tem estoque de chips suficiente para durar muito tempo. Há alguns anos, a China percebeu sua vulnerabilidade no setor de chips de sua cadeia de valor digital e investiu bilhões de dólares públicos e privados para desenvolver capacidades nacionais. Não demorará muito para que a China preencha essas lacunas no seu controle abrangente das cadeias digitais de valor. O incidente da Huawei simplesmente acelerará o processo e fornecerá à China uma justificativa pública útil para investir no desenvolvimento de capacidades nacionais de classe mundial e nos Estados Unidos, em todos os aspectos digitais.

Os serviços computacionais na nuvem da Alibaba já estão se aproximando aos da líder mundial Amazon, enquanto os motores de Inteligência Artificial da Baidu competem com os melhores do Google, Amazon, Microsoft e Facebook. Muitos dizem que a ebulição e o ritmo da inovação digital na China superam crescentemente o do mundo ocidental.

Em resistência ao poder digital emergente da China, o caso da Huawei é somente o último de uma longa série de medidas similares adotadas pelos Estados Unidos. Por exemplo, no ano passado, impediu que Alibaba comprasse o MoneyGram, dos EUA, e embargou os fornecimentos estadunidenses para a empresa chinesa de telefonia móvel ZTE. Porém esse novo incidente pode representar um ponto de inflexão importante nas relações digitais globais.

Integração vertical no espaço digital

O mundo do software e da internet foi construído em diferentes empresas que fabricavam chips, hardware, redes, software e aplicativos. Hoje, Google, Amazon e Facebook estão produzindo seus próprios chips, o que é um fato significativo. Não apenas rivais geopolíticos, mas também grandes corporações digitais temem depender de outra empresa em relação aos elos críticos da cadeia de valor digital. Isso revela o que está em jogo no mundo digital e quão implacável a competição pela supremacia digital pode ser.

Ultimamente, um grande protesto surgiu no Ocidente, inclusive nos Estados Unidos, para coibir o poder das megacorporações digitais, o que também é possível por meio de sua fragmentação. A ameaça chinesa tem sido funcional para as empresas-alvo, que afirmam que qualquer medida desse tipo pode frustrar a dominação digital global dos Estados Unidos. Esta é uma chamada aberta dessas corporações para os EUA adotarem uma abordagem geopolítica para a economia digital, ao invés de uma baseada no interesse público nacional. O vínculo entre o Estado e as empresas chinesas, por outro lado, é muito conhecido por sua análise ser necessária. É provável que as ofertas digitais globais sejam organizadas e divididas em torno dos dois polos digitais globais dos Estados Unidos e China, enquanto estão cada vez mais integrados. É uma lógica estrutural emergente, mas fundamental, da digitalização global.

Todos os outros países, além das duas superpotências digitais, enfrentam um dilema de proporções transcendentais. Como a inteligência digital impulsionada pelos dados e plataformas correspondentes torna-se a chave para a reorganização e controle de quase todos os setores, e a espinha dorsal destes é composta de artefatos digitais – a partir de chips, equipamentos de rede e dispositivos pessoal para software e aplicativos, é possível que esses países tenham que tomar a decisão de se alinhar digitalmente com os Estados Unidos ou com a China. Uma cesta mista pode funcionar inicialmente por algum tempo. Mas cada vez mais, à medida que os padrões técnicos se dividem pela lacuna geopolítica, as opções digitais tendem a se aproximar de uma ou outra superpotência digital, tornando-se a principal opção.

À medida que tudo é digitalizado, os aplicativos de segurança digital se tornam a chave para a segurança geral de uma nação, que é a preocupação prioritária de todos os países. Grande parte da segurança digital está integrada a chips, dispositivos, redes, software, aplicativos, inteligência artificial e as principais plataformas setoriais de um país. E, dado que as opções de pensamento e segurança são geopolíticas estratégicas, a escolha de toda a cadeia de valor digital também será bem-sucedida. Do ponto de vista da sociedade digital, as esferas econômica, social, cultural, política e de segurança têm bases de infraestrutura comuns, o que torna a escolha do geoalinhamento digital de alguma forma integral e unitária.

Mesmo que um degelo temporário seja alcançado com relação à Huawei e outras áreas atuais de disputa digital entre os EUA e a China, uma lógica e um conjunto mais amplo de forças estão operando em direção a um abismo digital que é improvável que se reverta.

É assustador imaginar como seria um mundo digitalmente dividido. Isso, além das nítidas dependências digitais que os países sofrerão com seus respectivos mestres digitais (EUA ou China). Uma vez que a inteligência digital que opera os setores de um país é de propriedade e controlada por agentes externos, os países se encontrarão em uma situação de impotência, muito pior do que com as dependências da era industrial.

Não-alinhamento digital e uma ecologia digital aberta

Nessas circunstâncias, quais são as opções para todos os países que não são superpotências digitais, incluídos os países europeus? É uma questão distinta que esses últimos sigam sendo aprisionados a algum tipo de noção nostálgica/romântica de que há algumas vantagens ocultas e que de alguma maneira, algum dia, os catapultarão à primeira fila digital.

A direção apropriada seria uma combinação de uma abordagem geopolítica para o não-alinhamento digital e uma prática para a promoção e estabelecimento diligente de cadeias de valor e ecologia digitais abertas. Inspirado pelo movimento dos não-alinhados do período da Guerra Fria, o não-alinhamento digital significaria determinados investimentos econômicos e políticos para manter a economia digital e a própria sociedade não muito ligadas a qualquer um dos produtos e serviços digitais de qualquer das superpotências digitais.

Assim como no movimento original dos não-alinhados, um aspecto muito importante disso seria usar a força coletiva para, em primeiro lugar, resistir às formidáveis tentações e poder digitais a que esses países estarão sujeitos e, em segundo lugar, dar forma a opções digitais mais mistas e abertas sobre o campo. Este último implicará e exigirá a promoção de uma forte participação da indústria nacional, bem como a manutenção de possibilidades suficientes de regulação digital.

O estabelecimento de uma ecologia digital mais aberta é o modelo técnico, político-legal e comercial complementar ao não-alinhamento geopolítico digital. Há uma necessidade urgente de promover padrões técnicos públicos e abertos em todos os níveis das cadeias digitais de valor. Isso deve reverter a tendência atual em direção a padrões proprietários, que correm o risco de dividir - pelo menos até certo ponto - a lacuna entre os Estados Unidos e a China. Esses padrões abertos também ajudam a mitigar as integrações verticais, que precisam ser neutralizadas por medidas regulatórias explícitas e fortes. Os padrões para tais regulamentações que promovem a abertura digital devem ser construídos globalmente, de modo que seja conveniente para todos os países implementá-los. É necessário apoio político e legal para proteger e tornar a indústria digital nacional viável, inclusive por meio de leis e meios para a propriedade e troca de dados em nível local.

Por fim, modelos de negócios mais abertos e menos extrativos são necessários para empresas digitais transnacionais e globais. Estes capacitariam e desenvolveriam capacidades digitais reais de empresas e economias nacionais, em vez de explorá-las. Esses modelos internacionais abertos podem ser promovidos, para começar, por países com melhores habilidades digitais hoje, como alguns países europeus, bem como por países em desenvolvimento maiores, como a Índia.

A Huawei e a China estão se preparando para esse tipo de chantagem digital dos EUA e podem até usá-la a seu favor. Mas no futuro, outros países, com grande parte de sua sociedade digitalizada e com profundas dependências de uma ou outra superpotência digital, se veriam completamente indefesos diante de uma ameaça ou chantagem similar. É muito provável, então, que tenham que ceder a qualquer exigência feita a eles.

Ainda pode haver tempo para se antecipar e se preparar para – ou evitar substancialmente – um futuro tão sombrio que está se aproximando rapidamente.

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