Os teólogos no magma da pós-modernidade

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20 Agosto 2019

“O pós-moderno é a "espiritualidade" dos homens e mulheres ocidentais. Suas linguagens, seus símbolos, suas mensagens, seus paradigmas, destaca o Papa Francisco, oferecem, de fato, novas orientações de vida. É precisamente a ideia de orientação que melhor expressa o sentido da categoria da espiritualidade: indica, de fato, uma referência ao lugar de origem, ao próprio “oriente”, ao “de onde”, ao “sol” que ilumina, aquece e mantém acesa a chama da vida”.

O artigo é de Armando Matteo, teólogo italiano, publicada por Avvenire, 18-08-2019.

Eis o artigo.

Não existem palavras mais eficazes para fixar o que a palavra "pós-moderno" evoca do que as encontradas no número 73 da Evangelii gaudium: “Novas culturas continuam a formar-se nestas enormes geografias humanas onde o cristão já não costuma ser promotor ou gerador de sentido, mas recebe delas outras linguagens, símbolos, mensagens e paradigmas que oferecem novas orientações de vida, muitas vezes em contraste com o Evangelho de Jesus. Uma cultura inédita palpita e está em elaboração na cidade.”

O termo "pós-moderno" indica, portanto, o novo espírito que habita a cultura ocidental desde os anos 1990. Iniciado no final do século XIX com a grande ruptura do paradigma platônico, realizado por Darwin, Marx, Freud e Nietzsche, corroborado pela profunda metamorfose das letras, ciências e artes, ocorrida no início do século XX, forjado no abismo da Segunda Guerra Mundial, em que se inicia o aparato da tecnologia, que aposentara Aristóteles e a sua física, anunciada de maneira festiva e perturbadora no Movimento de 1968, o novo espírito do pós-moderno encontra, depois, um inesperado aliado naquela revolução digital que investiu tudo e todos. Dizer pós-moderno significa dizer o modo de estar no mundo que caracteriza os homens e as mulheres ocidentais de hoje: um modo de estar no mundo que faz com que entre estes últimos e seus avós se tenha criado um fosso muito amplo.

O pós-moderno é, então, a "espiritualidade" dos homens e mulheres ocidentais. Suas linguagens, seus símbolos, suas mensagens, seus paradigmas, destaca o Papa Francisco, oferecem, de fato, novas orientações de vida. É precisamente a ideia de orientação que melhor expressa o sentido da categoria da espiritualidade: indica, de fato, uma referência ao lugar de origem, ao próprio “oriente”, ao “de onde”, ao “sol” que ilumina, aquece e mantém acesa a chama da vida.

Por essa razão, o teólogo, chamado a compor juntos pós-moderno e espiritualidade, sente a necessidade de identificar tais orientações dos pós-moderno, tal "espiritualidade do pós-moderno", na medida em que sua tarefa é criar pontes entre a novidade do evento de Jesus e os homens e mulheres de hoje, pesando tudo o que, nestes últimos, poderia facilitar ou, ao contrário, impedir a desejabilidade da fé. Vamos tentar, então, indicar alguns elementos de tal "espiritualidade".

O primeiro diz respeito ao fato de que o tempo pós-moderno se apresenta ao homem contemporâneo como um espaço de imensas potencialidades de pensamento e de vida. No presente, o único pensamento compartilhável é que não existe nada realmente compartilhável. E é assim que cada um é chamado a julgar por si todas as coisas. Além disso, a automação de tantos serviços e o advento triunfante de tantos aparatos tecnológicos no cenário doméstico e do trabalho dão forma a uma autonomização inédita do sujeito sem precedentes. É possível fazer qualquer coisa sozinho e fazê-lo bem.

O pós-moderno carrega consigo a promessa de que nenhum obstáculo seja verdadeiramente insuperável; não reconhece nenhum princípio de autoridade, nenhuma forma de hierarquia, nenhum valor não negociável. Nenhuma lei é para sempre, nenhum limite é para sempre, nenhuma possibilidade é irrealizável para sempre, nenhum espaço é inatingível para sempre. Isso possui um fascínio incrível para o sujeito contemporâneo: sua vida se transforma em um bem potencialmente ilimitado a ser consumido, em um "algo" a ser desenvolvido, a ser incrementado, a ser potencializado ao infinito. A vida é liberdade, a liberdade é vida.

Um terceiro elemento do espírito pós-moderno diz respeito ao caráter altamente móvel de todas as economias reais e de todas as economias psíquicas. Aqui tudo é sempre possível. O pós-moderno é sempre jovem. Passagens de carreira, descobertas súbitas, novos conhecidos, novas moradias, mudanças no setor de trabalho, ativação de novos interesses e muito mais. A existência do sujeito atual é assim deslocada, quando não disseminada, em diferentes níveis e planos. Com muito charme, mas obviamente também com muitos riscos.

Uma quarta orientação do pós-moderno é a relativa ao valor do dinheiro. Tudo é dinheiro e o dinheiro é tudo. Não há conversa hoje que não tenha a ver com dinheiro. Não importa mais saber ao que, materialmente, está se dando forma e vida, o importante é que renda em termos de receitas. E não importa mais a quase ninguém se esse modo de proceder causa processos econômicos desastrosos ou cria bolsões de enorme pobreza e de injustiças sociais.

A última lei da espiritualidade pós-moderna é esta: somente o ser humano jovem é digno do teu amor.

Tal orientação de vida nasce substancialmente da longevidade que o pós-moderno traz consigo em dote. Que, nunca podemos esquecer, é um verdadeiro milagre! Nós, homens, até trinta anos atrás, morríamos em média por volta dos 55 anos! Uma nova visão da vida nos foi oferecida: menos pesada, menos carregada de mortalidade, menos carregada de sentimento de culpa, mais leve. E como esquecer do grande feliz desenvolvimento das mulheres hoje: o estudo, a carreira, uma vida doméstica simplificada com os eletrodomésticos, a eliminação de tantos preconceitos de gênero ... que novo sopro, exaltante! Ninguém sente mais a pressa ou a obrigação social de crescer, amadurecer, fixar para sempre a sua existência.

Essa rápida revisão já nos deixa intuir que essas instâncias do espírito pós-moderno não estão isentas de ambivalências e de possíveis ambiguidades, que não raramente invocam correções e diferentes horizontes. No entanto, resta confirmada a observação do Papa Francisco sobre o contraste que se cria entre a nova cultura que hoje plasma o mundo e o Evangelho de Jesus. E é a partir desse contraste que se desdobra o trabalho próprio da teologia, na medida do que pretende a sério fechar as contas com o pós-moderno e com sua "espiritualidade".

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