Evangelii Gaudium e Vaticano II: uma fusão de horizontes

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27 Junho 2016

Evangelii Gaudium é um escrito do papa Francisco, publicado em 24 de Novembro de 2013. Ele é classificado como “exortação apostólica” porque contém uma série de recomendações para um determinado grupo. Nesse caso, estende-se a Igreja inteira, especialmente porque apresenta os resultados das discussões realizadas no Sínodo dos Bispos sobre “A evangelização para a transmissão da fé cristã” (2012) e o programa pontifical de Francisco.

Evangelii Gaudium é um programa aberto, que não se limitou a “sintetizar” os resultados do Sínodo, mas ousou pensar com e desde os resultados uma “nova forma” de ser Igreja hoje. Nela desvelam-se os interesses, as feições e a forma de como o papa concebe o mundo e a experiência eclesial. Não lhe satisfaz uma Igreja fechada em si mesma, mas precisa aventurar-se na busca do outro.

Na história da missão, não é muito raro dar-se conta de que o imperativo “Ide, evangelizai e batizai” acabou criando a patologia do “proselitismo”. Ele é uma fé abraçada, muitas vezes, por coerção e imposição. Não goza da liberdade devida e necessária. Um evangelho enfiado a “ferro e fogo”, não possibilitou uma experiência genuína, mas promoveu um universo paralelo de fé: o sincretismo (típico de regiões colonizadas).

Hoje, aprofunda-se a concepção de “evangelização”. É ação de comunicar o Evangelho, através de sua vivência, sem pretensões de poder, mas no esvaziamento necessário (kenósis) para viver uma prática da fé em cada momento da história. O interesse não é fomentar “conversões forçadas”, mas dispor-se na companhia de uma caminhada religiosa plural, que movida pela atração acaba por qualificar o sentido do próprio “evangelizar”.

Na evangelização, a palavra é muito importante, mas a primazia reside no testemunho, ou seja, na palavra que se faz “carne” e se faz ação. Através disso, a vivência não se torna viável por um argumento de autoridade ou de hegemonia, mas pela autoridade da atração como condição necessária, para que com liberdade, a “comunicação” da Boa-Notícia atinja seu efeito, promovendo vida, dignidade, integração e alegria em meio a tantos desafios.

Não são poucos os desafios para a vivência da fé e sua comunicação. Vive-se em um mundo de relações globais e plurais. Muitas são as questões que inquietam: Desigualdade, Relativismo, Individualismo, Violência, Mudanças Climáticas, entre outras. Apesar de habitarmos uma mesma casa, nela não existe espaço e oportunidade para todos. E muitas vezes, as estruturas sociais, políticas, econômicas acabam esmagando e diminuindo a possibilidade de um existir com dignidade.

Francisco capta e aborda muitas dessas questões em aberto. Não tem a pretensão de dar uma resposta definitiva, mas coloca-as na ordem do dia, especialmente como assunto relevante para a vivência da fé. Ele foi o primeiro papa que não colocou panos quentes, denunciou sem rodeios as estruturas econômicas de exploração e dominação, geradoras de desigualdades, na vida como um todo (humana e climática). Para ele, os descompassos têm nome e sobrenome: capitalismo, sistema econômico reinante.

Discernir os “sinais dos tempos” é uma postura almejada desde o Concílio Vaticano II. Não é poesia açucarada, mas adentrar na prosa para “escutar” um Deus que vive na vida das pessoas de cada tempo. Nele perceber suas exigências e urgências para que possa ser sinal adequado na transformação humana, em todas as suas dimensões. Aqui se encontra um aspecto nessa “fusão de horizontes”.

A intenção do Concílio de falar ao ser humano de cada tempo, de modo especial, daquele seu tempo, precisou de uma ousadia sem precedentes nos séculos recentes que o precederam. O fato de “abrir-se para o mundo”, especificamente o “mundo moderno” que pisoteou sem escrúpulos a experiência de fé e eclesial, faz com que a Igreja busque suas fontes para “dizer” com autoridade na companhia das vozes de outros e daqueles tempos.

As “fontes” não são a Idade Média, muito venerada em alguns contextos eclesiais, com suas contribuições e seus silêncios, mas encontra-se nos primeiros séculos do cristianismo, séculos de discussões abertas. No debate, o mundo daquele tempo era bem-vindo. É verdade que se trata especialmente do mundo greco-romano, que inclusive acabou inundando e influenciando a fé cristã subsequente, na esfera do conhecimento e da vivência.

O “empoderamento” da fé e sua consequente institucionalização são frutos de oportunidade e benesses concedidas pelas autoridades politicas. Isso acabou esterilizando aquilo que existe de mais vital, “uma religião sem poder”, causando mais danos do que possibilidades de vivência na liberdade e no processo contínuo de libertação desde a fé e da prática do Evangelho.

A vivência da fé implica uma cosmovisão, ou seja, uma “forma” de ver e viver o/no mundo. Ela não está isenta de consequências sociais, politicas, econômicas, ecológicas, entre outras. No Evangelho, encontra-se uma dimensão pública que contempla todas essas consequências, na provocação de um “novo estilo” de vida: um estilo de proximidade, abertura e disposição, regado por uma Verdade que liberta e incomoda os poderosos, para proporcionar e gerar vida (integração) para todos.

No Concílio, buscou-se uma releitura da experiência eclesial da fé desde os horizontes abertos do Evangelho e da patrística (Tradição dos primeiros padres), para que pudesse ser oportuno e vital nas questões importantes daquele tempo. A dimensão contextual é importante. Não se intimidou, no evento em si, mas deixou a desejar na “recepção” subsequente. Por isso, exige-se um exercício inteligente de não aniquilamento, mas de discernimento, apontando os excessos para que a experiência da fé torne-se cada vez mais transparente e relevante.

Nessa fusão de horizontes, o “estilo” assume uma nova linguagem e uma nova compreensão, na mudança cotidiana de uma Igreja relevante e aberta, não fechada em seu próprio mundo, mas aberta para a contribuição de todos: escutar atentamente os clamores e os valores de todas as gentes.

Christoph Theobald, teólogo jesuita, no Cadernos Teologia Pública, edição 104, reflete sobre a interação entre Evangelii Gaudium e Concílio Vaticano II. Nela permanece a pergunta por uma contribuição original, ou ainda, de uma “interpretação” atualizada e adequada, daquilo que foi vivido, escrito e esperado como consequência desde o Concílio. Diante de uma recepção inadequada nos pontificados anteriores, busca-se compreender a relação existente entre estilo do documento, opção pelas pessoas e reforma da igreja, com suas consequências públicas e doutrinais.

O texto está estruturado nos seguintes tópicos:

1. O texto e seu estilo: alguns indícios

A estrutura do texto
Um estilo evangelizador específico
A ligação entre Exortação e o corpus textual do Vaticano II

2. Uma decisão inicial: estabelecer uma ligação intrínseca entre missão e reforma

“Aberturas” no corpus textual do Vaticano II
Aspectos comuns entre as exortações de Paulo VI e de Francisco
A insistência específica de Evangelii Gaudium
A reforma como condição de credibilidade do anúncio do Evangelho

3. Implicações doutrinais: regulação do “estilo evangelizador”.

A tarefa de interpretação que nos deixa o Evangelho do Reino de Deus...
... dentro de uma Igreja missionária concebida a partir de sua base crente...
... em um mundo precisando pensar em uma “unidade plural”

Para acessar o texto: clique aqui

  

 

 

Christoph Theobald é Doutor em Teologia pela Universität Bonn, professor de Teologia Fundamental e Dogmática na Faculdade de Teologia do Centre-Sèvres, em Paris. É um dos maiores especialistas no Concílio Vaticano II, autor do livro, recentemente traduzido para o português “A Recepção do Concílio Vaticano II. Vol. I. Acesso à fonte” (São Leopoldo: Editora Unisinos, 2015).

Redator-chefe adjunto da revista Recherches de Science Religieuse. Possui diversos trabalhos em história da exegese e dos dogmas, em teologia sistemática nos diversos tratados (Cristologia, Trindade, Criação, Antropologia, Eclesiologia).

 

 

Veja também:

 

Por Jéferson Ferreira Rodrigues

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