"Escola de liberdade". A espiritualidade na pós-modernidade. Entrevista especial com Luís González-Quevedo

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27 Setembro 2008

Padre Luís González-Quevedo participou, na última semana, do evento Espiritualidade cristã na pós-modernidade: desafios e perspectivas. A IHU On-Line aproveitou sua vinda para entrevistá-lo e refletir sobre a questão tratada na palestra a partir do pluralismo religioso.

Segundo ele, “todo diálogo supõe um certo grau de conhecimento e aceitação da própria identidade e da realidade objetiva da outra parte”. Por isso, é preciso que se tenha, acima de tudo, um respeito mútuo para que o diálogo cristão e inter-religioso aconteça. “Embora tenhamos melhorado, ainda existem muitos preconceitos de ambas as partes. E não podemos esconder o fato de que existem temas (como o aborto) em que não há possibilidade de acordo entre a cultura moderna e a espiritualidade cristã”, afirmou. Pe. Quevedo aceitou nos conceder a entrevista e a respondeu por e-mail.

Luís González-Quevedo é padre jesuíta. Formou-se em Direito, na Universidade Complutense, em Madri, na Espanha, e em Teologia, na Faculdade Cristo Rei, em São Leopoldo. Fez ainda dois anos de especialização em espiritualidade na Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Lecionou Teologia na Universidade Católica de Goiás, em Goiânia, e foi Mestre de Noviços em Campinas. Atualmente, é membro do Centro de Espiritualidade Inaciana de Itaici - CEI e redator de Itaici. Revista de espiritualidade inaciana.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Nas últimas décadas, a espiritualidade tem se convertido em um tema central não só no âmbito da Teologia, mas nas formas comercializadas dos grupos de auto-ajuda e em diversos movimentos da "New Age". O senhor poderia nos explicar quais são motivos desta crescente busca de espiritualidade?

Luis González-Quevedo – Há dois motivos fundamentais. O primeiro é de caráter geral, constitutivo da natureza humana: todo homem, toda mulher é um ser espiritual que necessita de espiritualidade para viver com sentido, como precisa de ar para respirar e de comida para alimentar-se. Do homem das cavernas às “estrelas” de Hollywood, o sentimento religioso ou supersticioso é uma constante. Em cada época, porém, a religiosidade humana tem expressões diversas. E aqui entra o segundo motivo: a nossa época parece carecer especialmente de espiritualidade, por reação à frieza e ao utilitarismo da sociedade moderna. Nos anos 1970, o cardeal Pironio [1], em Roma, dava um curso de espiritualidade para ecônomos (as) gerais de Congregações religiosas, porque achava que eles (elas) precisavam mais da espiritualidade. Seria interessante promover Exercícios Espirituais ou cursos de Teologia e espiritualidade para políticos, banqueiros, empresários etc.

IHU On-Line – E quais são as características de uma espiritualidade cristã neste tempo de pluralismo religioso?

Luis González-Quevedo – Na palestra que proferi no evento “Espiritualidade cristã na pós-modernidade: desafios e perspectivas”, indiquei quatro às quais acrescentarei uma quinta característica, surgida no diálogo que se seguiu à palestra. A primeira característica da espiritualidade é “a experiência de uma presença”. A pessoa espiritual, especialmente quando reza, tem o sentimento inequívoco de não estar só, mas em relação com Algo ou Alguém que a transcende. “Quem tem fé – diz Bento XVI – nunca está sozinho”. Quanto mais isolados nos sintamos nas nossas grandes cidades, maior será a nossa carência ou necessidade de espiritualidade.

A segunda característica é “o sentimento de confiança”. A fé é uma confiança amorosa. Não só a presença de Deus – que é amor – merece nossa confiança irrestrita. Em toda experiência de verdadeiro amor humano há um sentimento de confiança. Quem ama de verdade confia. Mesmo quem já foi enganado, traído, abandonado, tornará a confiar tantas vezes quantas voltar a amar. Uma terceira característica é a “firme esperança”. Com Gabriel Marcel [2], definimos a esperança como um passar do “tempo fechado” para o “tempo aberto”, da fugacidade do ‘ter’, para a plenitude do ‘ser’. A esperança é como uma “memória do futuro”; tem caráter profético. Não se pode dizer que veja o que está por vir, mas o afirma como se o visse (“como se visse o invisível”, Hb 11,27). E, enquanto o anuncia, de certa forma, o prepara.

A quarta característica da espiritualidade é a alegria. Citamos a experiência mística de Blaise Pascal [3], na noite do dia 23 de novembro de 1654: “Alegria, alegria, alegria, lágrimas de alegria”. E a descrição inaciana da consolação espiritual: “... todo aumento de fé, esperança e caridade, bem como toda a alegria interna, que chama e atrai para as coisas celestes e para a salvação da própria pessoa, aquietando-a e pacificando-a em seu Criador e Senhor” (Exercícios espirituais, 316). Por último, um dos participantes do evento nos indicou uma outra característica essencial da espiritualidade: a liberdade interior. É claro que se poderiam apontar outras muitas: a gratuidade, a humildade, a caridade (agape cf. 1Cor 13) e até o bom humor. As pessoas espirituais costumam ser bem-humoradas.

IHU On-Line – De que experiência espiritual o ser humano moderno ou pós-moderno sente necessidade? Que percepção do espírito responderá à afirmação da liberdade que acompanha o seu devir?

Luis González-Quevedo – Neste contexto, qual é a contribuição da espiritualidade inaciana para nossos dias? Creio que o ser humano de todas as épocas e culturas (pré-moderna, moderna e pós-moderna) sente necessidade das características apontadas na resposta anterior. Mas logicamente sentirá mais necessidade numa época, como a nossa, em que muitos se sentem sós, sem confiança, sem esperança, sem alegria, sem liberdade interior. Paradoxalmente, a liberdade interior é fruto maduro da disciplina, da saída de si, da entrega incondicional ao outro, no amor. Não se trata da liberdade do/a adolescente, que mente aos pais, para encontrar-se com a/o namorada/o. Trata-se de uma liberdade adulta, própria do pai ou mãe de família que assume livre e fielmente sua missão, no cuidado dos outros.

Assim, a espiritualidade inaciana tem uma contribuição a dar, sim. Porque se trata de uma espiritualidade aberta e exigente, que leva a descobrir e assumir a própria vocação. Costumamos dizer que os Exercícios espirituais – fonte principal da espiritualidade inaciana – são uma “Escola de liberdade”. É uma escola de liberdade, na medida em que favorece o encontro profundo daquele que faz os Exercícios consigo mesmo e com Deus.

IHU On-Line – Santo Inácio propõe, em seu livro Exercícios espirituais, a importância de "procurar e encontrar a vontade divina" na própria vida. Como isso é possível? Qual é a compreensão de liberdade que a espiritualidade inaciana promove?

Luis González-Quevedo – Em um pequeno livro, Projeto de vida: amar e ser amado, apresentei duas concepções da “vontade de Deus”: uma “clássica”, em que a vontade divina precede à nossa vontade, e outra mais “moderna”, na qual o que Deus quer é que decidamos livremente por nós mesmos. As duas têm suas vantagens e seus riscos. Santo Inácio nos apresenta o “projeto de Deus”, revelado em Jesus Cristo, e conduz o exercitante a tomar consciência da sua própria vocação e missão, a partir do discernimento das diversas “moções” ou movimentos internos que ele experimenta.

Quanta à liberdade, lembro de um livro clássico do jesuíta Henri De Lubac [4], intitulado O drama do humanismo ateu. Nele, denunciava o mal-entendido segundo o qual a obediência a Deus exige o sacrifício da liberdade humana, e, portanto, para ser inteiramente livre, seria necessário negar a existência de Deus. Pelo contrário, a liberdade inaciana, como a liberdade de Jesus, nasce e se desenvolve na perfeita obediência ao Pai. Deus nos criou livres, não para que nos submetamos a ele como escravos, mas para que respondamos com amor de filhos ao Seu amor.

IHU On-Line – Na espiritualidade inaciana, onde se encontram fontes que inspirem para uma mística com cuidado ecológico?

Luis González-Quevedo – Os Exercícios espirituais começam com uma consideração do fim para o qual somos criados (Princípio e Fundamento), que hoje propomos com um enfoque ecológico. Ao longo dos Exercícios, contemplamos os diversos mistérios da vida de Jesus, onde ele aparece como alguém perfeitamente integrado, sensível à beleza da natureza etc. Finalmente, o último exercício (Contemplação para alcançar amor) propõe explicitamente a contemplação da natureza como manifestação da presença, da habitação (a shekiná), a ação e a manifestação de Deus no nosso mundo.

IHU On-Line – O que o senhor pensa que seria necessário para um maior diálogo entre a cultura e a espiritualidade cristã?

Luis González-Quevedo – Todo diálogo supõe um certo grau de conhecimento e aceitação da própria identidade e da realidade objetiva da outra parte. Outro requisito imprescindível do diálogo é o respeito mútuo. Nessas condições, o diálogo deve conduzir a um maior conhecimento e a uma maior estima do outro, na sincera aceitação das diferenças. O “pressuposto” inicial dos Exercícios espirituais de Santo Inácio recomenda “estar mais pronto a salvar a afirmação do próximo do que a condená-la” (EE 22). Nos três últimos séculos, essa recomendação inaciana não parece ter sido seguida pelos filósofos nem pelos teólogos. Com efeito, a cultura moderna nasceu, em boa parte, “fora da Igreja” e “contra a Igreja”.

É conhecida a recomendação de um antigo aluno dos jesuítas (Voltaire): “Écrasez l’infame!” (Onde a infame era a Igreja). Por sua parte, a Igreja anterior ao Vaticano II adotava uma atitude de condenação do mundo. O Catecismo que eu estudei para a Primeira Eucaristia condenava tudo: o liberalismo, o socialismo, o comunismo e até a democracia. Embora tenhamos melhorado, ainda existem muitos preconceitos de ambas as partes. E não podemos esconder o fato de que existem temas (como o aborto) em que não há possibilidade de acordo entre a cultura moderna e a espiritualidade cristã.

Notas:

[1] Cardeal Pironio, cardeal argentino, faleceu em Roma em 5 de fevereiro de 1998. Foi bispo de Mar del Plata, secretário e presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e presidente do Conselho Pontifício para os Leigos. No conclave de 1978, no qual Karol Wojtyla foi eleito Papa, Pironio foi considerado um dos “papáveis”.

[2] Gabriel Marcel nasceu em 1889. Foi autor e crítico teatral além de filósofo. Ele próprio designa seu pensamento como neo-socrático ou socrático-cristão. Aceitou ser chamado de existencialista cristão.

[3] Blaise Pascal foi um filósofo, físico e matemático francês que, como filósofo e místico, criou uma das afirmações mais pronunciadas pela humanidade nos séculos posteriores, "o coração tem razões que a própria razão desconhece", que é a síntese de sua doutrina filosófica: o raciocínio lógico e a emoção. Filho de um professor de matemática, Etienne Pascal, foi educado sob forte influência religiosa e tornou-se extremamente ascetista, escrevendo várias obras religiosas. Seu talento precoce para as ciências físicas levou a família para Paris, onde ele se dedicou ao estudo da matemática. Como teólogo e escritor, destacou-se como um dos mestres do racionalismo e irracionalismo modernos e sua obra influenciou os ingleses Charles e John Wesley, fundadores da Igreja Metodista.

[4] Henri De Lubac nasceu em 1896 e ingressou na Companhia de Jesus aos 17 anos. Estudou Filosofia na Inglaterra e na França. Em 1950 foi suspenso de lecionar pelo Vaticano pelos seus superiores religiosos, ainda que não tenha sido dito o motivo pelo castigo que durou dez anos.  Teve uma importante participação, como teólogo, no Concílio Vaticano II.  Morreu, como cardeal, em 1991.


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