(Nenhuma) resistência contra a direita

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24 Julho 2019

20 de julho de 1944: 75 anos atrás fracassava um golpe de estado contra Hitler, que também na história da Alemanha do período do pós-guerra foi por muito tempo ignorado. O que fizeram as igrejas? E o que fazem hoje?

A reportagem é de Britta Baas, publicada em Publik-Forum, 20-07-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

O juízo de Johannes Tuchel é claro e evidente: "Não houve resistência organizada das Igrejas cristãs na Alemanha nos anos entre 1933 e 1945". O cientista político do Gedenkstätte Deutscher Widerstand (Memorial da Resistência Alemã) em Berlim fala - com plena razão - de "resistência de cristãos isolados contra a ditadura hitlerista". Cristãos que foram deixados decididamente sozinhos por suas hierarquias. Por qual razão?

Do lado católico, havia um grande dissenso com a ideologia nazista. No entanto, depois que Hitler já em 1933 tinha se manifestado a favor da salvaguarda das Igrejas no Estado, e dos direitos e liberdade de religião, concordou-se com um "compromisso": com a estipulação de uma concordata, esperava-se obter muito para as católicas e os católicos no país, e poder sobreviver na autopreservação além dos tempos sombrios. Conclusão errada. O regime, de várias formas, não cumpriu o acordo. No entanto, o episcopado alemão até 1945 não conseguiu sequer uma vez chegar a um acordo para um protesto público firme, comum e exemplar em apoio aos católicos. Sempre foram pessoas isoladas que fizeram isso. Os escrúpulos a se opor claramente ao poder do Estado eram grandes em tempos de sujeição ao estado autoritário e de um forte senso de compromisso interno com a fidelidade e o respeito pelo Estado.

No lado evangélico, as coisas eram um pouco diferentes. Logo grandes partes do aparato eclesiástico expressaram seu consentimento para o novo regime. Um consenso vivido na aliança entre trono e altar, como no período imperial; as possibilidades pareciam se repetir. Um antissemitismo eclesial pesado ligado a fortes influências de uma teologia popular mantiveram grande parte dos funcionários eclesiásticos longe do dissenso. Portanto, não causa surpresa que nenhuma resistência tenha se oposto ao pogrom contra os judeus. Apenas a rede da Igreja confessional, ainda orientada no início com alguma reserva à autoconservação, assumiu ao longo do tempo uma atitude cristã-resistente. Ao atentado contra Hitler de 20 de julho de 1944 das Igrejas não se seguiu nenhum apoio público aos seus autores, que tinham agido por motivos morais, nenhum reconhecimento a homens que deram suas vidas pela salvação da Alemanha.

Mais uma vez, a considerar que o tiranicídio seria um seu dever, foram cristãos e cristãs isolados, que haviam se preparado como conspiradores com militares, comunistas e socialistas. Mesmo no debate do pós-guerra, ficou claro quanto fosse difícil para os representantes da Igreja considerar essa jornada como um sinal luminoso de tomada de posição ética.

E hoje? O 20 de julho de 1944 é também uma data importante para a Nova Direita na Alemanha. É especificamente lembrada a resistência de Stauffenberg - como resistência de um militar conservador que tenta "se apresentar" como suposto precursor de uma esperada "revolução conservadora". Revolução conservadora: a tal conceito, nascido já na década 1920, se reportam intencionalmente círculos intelectuais das novas direitas, incluindo partes da AfD. Isso mostra como até hoje os cristãos e as Igrejas devem se questionar quanto à dignidade da pessoa humana, da justiça e da ação ética. Conseguem fazê-lo e quanto? Em todo caso, muito melhor do que na época do nacional-socialismo.

As duas grandes Igrejas da Alemanha assumiram sua responsabilidade social; lidam intensamente com o novo populismo de direita e seus perigos. Teologicamente, todo vínculo com uma ideologia popular é superado: a sujeição ao Estado autoritário não desempenha mais nenhum papel. No entanto, ainda se pode sentir a nostalgia de continuar sendo, como Igrejas, as principais garantias da reafirmação civil-religiosa da conduta ética do Estado. A isto estão ligados privilégios que justamente as Igrejas não querem necessariamente conceder aos representantes de outras religiões. Os cristãos determinam a ética do estado? Mas quanto esse papel ainda é justificado, mesmo que desejado?

Recentemente foram publicadas as estatísticas atuais das Igrejas. O número de deserções nas duas grandes igrejas na Alemanha é extremamente alto. Isso é mostrado pelas comunicações das Igrejas regionais evangélicas individuais, bem como pelos comunicados de imprensa da Conferência dos Bispos Católicos de ontem.

Em nível nacional, em 2018, deixaram a Igreja Católica um número tão elevado de pessoas que os representantes da Igreja quase perderam o fôlego: 216.078 pessoas deram as costas à instituição. Para os católicos, isso significa um aumento de 29% em relação a 2017. Em 2018, 220.000 cristãos e cristãs deixaram a Igreja Evangélica. Um ano antes, 200 mil tinham ido embora.

Em tais circunstâncias, como podem as Igrejas ainda pensar em estabelecer uma orientação ética para a sociedade? O contínuo declínio dos fiéis não causa automaticamente um eco cada vez mais desencorajado e fraco do apelo ético? Mas isso é precisamente o que não deve acontecer. Porque uma coisa condiciona a outra: quem observa atentamente as razões pelas quais as pessoas deixam as Igrejas, percebe que essas razões devem ser procuradas em decepções pessoais, na falta de percepção da influência das Igrejas na sociedade, na raiva pela falta de transparência das instituições e seu desmoronamento.

As igrejas devem, portanto, trabalhar essas deficiências: de maneira sincera, eficaz e duradoura. Sua voz deve ser e permanecer audível na sociedade. Precisam ser urgentemente ouvidas como corretivos em tempos de novas desordens lideradas pela direita. Há também luminosos exemplos claros dessa função corretiva que também é percebida.

Por exemplo, lembro com alegria e profundo respeito o Kirchentag evangélico de 2017 em Berlim. O bispo Dröge discutia em um encontro muito lotado sobre o novo populismo de direita e sobre o antigo extremismo de direita. Discutia com o então porta-voz político-religioso da AfD. Sua maneira de se portar era humanamente íntegra, sua atitude clara e transparente, seus argumentos eram lúcidos e teologicamente brilhantes. No final, sabia-se mais do que no começo. E, no final, a autora deste texto, que havia acompanhado o encontro com grande ceticismo, estava convencida: é preciso buscar uma discussão com a Nova Direita. Seus argumentos devem ser contrastados, com uma discussão pública, sem temer qualquer embate. Só assim a própria posição pode ser esclarecida. A própria coragem cristã. E a fidelidade à dignidade da pessoa humana. Ser fiel a isso será também no futuro a única maneira de convencer o povo das Igrejas cristãs. Desconforto e atitude de aceitação passiva nunca são uma opção positiva.

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