A consciência de Bonhoeffer: o protestantismo nominal acabou. Artigo de Fulvio Ferrario

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10 Abril 2015

Uma das constantes na obra de Bonhoeffer é a consciência de que um cristianismo, e em particular um protestantismo, feito de costumes e de aquisições culturais, mesmo que sacrossantas, não tem futuro e nem mesmo presente. A época de um protestante nominal, que pode se dar ao luxo de viver ou ao menos de levar a melhor contando com a própria grande herança, acabou para sempre.

A opinião é do teólogo italiano Fulvio Ferrario, professor de teologia sistemática da Faculdade Valdense de Teologia de Roma. O artigo foi publicado no sítio Notizie Evangeliche, 08-04-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Setenta anos atrás, no dia 9 de abril de 1945, Dietrich Bonhoeffer era assassinado no campo de concentração de Flossenburg. Ele se tornou, enquanto isso, não apenas um símbolo, mas até um mito. As razões são inúmeras.

Acima de tudo , o entrelaçamento entre o seu pensamento e a sua biografia, selados pelo martírio, fizeram deles, para as Igrejas, a ocasião ou mesmo (para usar uma palavra não bela, mas pertinente) o instrumento para recuperar credibilidade depois dos compromissos e dos silêncios que caracterizaram a era dos fascismos.

A prosa incisiva de Bonhoeffer acompanha uma coragem pessoal incomum, fruto da férrea disciplina espiritual, em parte herdada do contexto familiar, em parte cultivada mediante uma severa espiritualidade, feita de leitura bíblica e orações cotidianas, ascese "laica", mas muito pronunciada, controle sobre os próprios sentimentos.

É até fácil demais encontrar nos seus escritos ou nos episódios da sua vida a citação fulgurante para concluir um sermão, a intuição sugestiva que põe em movimento o pensamento, a palavra que comove. Bonhoeffer é o cristão que muitos gostariam de ser, o homem da Igreja que não tem medo de sujar as mãos com a política, o pacifista que não se torna escravo nem mesmo dos próprios ideais e prepara um atentado a bomba contra Hitler.

Não gostaria de criticar superficialmente a mitificação de Bonhoeffer; é mais do que duvidoso que eu tenha, pessoalmente, as cartas na manga para fazer isso. Os mitos também têm a sua função, na Igreja e na sociedade. Não está errado, porém, Alberto Gallas, o maior estudioso italiano do teólogo, católico, que morreu prematuramente, quando coloca, como epígrafe da sua importante monografia, uma passagem de Rilke: "... como foram recuperar-te na tua glória! Ainda ontem eram contra ti, até o fim, e agora te frequentam como alguém igual a eles. E carregam consigo as tuas palavras nas gaiolas da sua presunção e as mostram nas praças e as excitam um pouco, pondo-se a salvo delas".

Com efeito, é fácil hoje celebrar Bonhoeffer, que viu a centralidade da "questão judaica", quando nem mesmo Karl Barth, como ele mesmo reconheceu, o tinha feito; ou que escreveu palavras sobre a ideia de responsabilidade, que são fundamentais também para quem não conhece o seu nome; que foi ao encontro da morte, afirmando: "É o fim. Para mim, é o início da vida".

Menos fácil é ler a crítica bonhoefferiana contra um protestantismo exangue, que utiliza as palavras de Lutero sobre a salvação por graça, a fim de se isentar da obediência cotidiana aos mandamentos; que fala demais de "liberdade evangélica", sem saber que ela nasce da disciplina; que celebra a centralidade da Bíblia sem uma prática cotidiana de leitura e de meditação.

Uma das constantes na obra bonhoefferiana, embora rica de reviravoltas e inovações, é a consciência de que um cristianismo, e em particular um protestantismo, feito de costumes e de aquisições culturais, mesmo que sacrossantas, não tem futuro e nem mesmo presente.

Bonhoeffer tinha entendido muito bem, ainda nos anos 1930, aquilo que para alguns não está claro nem mesmo agora, isto é, que a época de um protestante nominal, que pode se dar ao luxo de viver ou ao menos de levar a melhor contando com a própria grande herança (que agora, justamente, inclui o próprio Bonhoeffer!), acabou para sempre.

Já a partir do ponto de vista sociológico, uma minoria só pode viver investindo no próprio testemunho uma alta taxa de motivação. Do ponto de vista espiritual, além disso, a situação minoritária constitui uma oportunidade: a escassa relevância (ou, no que diz respeito a nós, evangélicos italianos: a absoluta irrelevância) sociológica da Igreja enfatiza que somente a palavra da qual ela é indignamente portadora é relevante.

Portanto, seja bem-vindo também o mito de Bonhoeffer, se ele contribui para nos recordar daquilo que importa. O nosso testemunho, hoje, não requer o sangue: "só" o tempo para ir ao culto, para ler a Bíblia e para rezar todos os dias; "só" os trocados para uma contribuição que não queira ser vergonhosa (como dizia, um pouco rudemente, mas não sem eficácia, um amigo meu: "Jesus Cristo não pode valer menos do que um cappuccino por dia"); "só" a concentração espiritual para tentar, fracassando, mas recomeçando todos os dias, ser algo como aspirantes a cristãos.

Aqueles que tentam fazer isso podem, talvez, se dar ao luxo de se emocionar com as grandes palavras de Bonhoeffer, que não fazem mais nada do que ecoar as da Bíblia. Grandes demais e elevadas demais para nós, talvez (cfr. Salmo 131): mas se Deus no-las dirigiu, estamos autorizados, "na nossa incurável fraqueza", a acolhê-las.

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