A sinodalidade de baixo vem da Amazônia. Agora os viri probati terão que celebrar a Eucaristia. Em outubro o Sínodo

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22 Junho 2019

O documento preparatório para o Sínodo sobre a Amazônia (6-27 de outubro), o chamado Instrumentum Laboris, é, como sempre, longo demais, mas excelente, tanto nas análises socioeconômicas e ambientais, quanto nas propostas pastorais. Pensamos que essa sua insólita riqueza seja uma consequência da vasta consulta de base que a precedeu. Temos notícias de que o processo de escuta envolveu cerca de cem mil pessoas, incluindo 170 etnias originais (quase metade das que foram listadas no censo) por meio de assembleias nas 103 igrejas locais e em muitos fóruns temáticos. O Povo de Deus falou, o Sínodo deveria seguir por esse caminho. Podemos dizer que em grande parte o "trabalho" já deveria ter sido feito. Indicamos os principais pontos que se seguem e se repetem no documento e as questões em aberto. O texto merece uma leitura completa.

O comentário é publicado por Noi Siamo Chiesa, 19-06-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

O bem viver

O texto começa descrevendo a Amazônia onde a "compreensão da vida se caracteriza pela conectividade e harmonia de relações entre a água, o território e a natureza, a vida comunitária e a cultura, Deus e as diferentes forças espirituais. Para eles, ‘bem viver’ significa compreender a centralidade do caráter relacional-transcendente dos seres humanos e da criação, e supõe um ‘bem fazer’. Não se podem desconectar as dimensões materiais e espirituais." Essas cosmovisões particulares, essas sensibilidades e culturas comunitárias estão longe do senso comum que temos no Ocidente.

O Grito

O texto não se detém muito em abusos passados, na escravidão e na colonização (embora a denuncie) e entra no mérito. O Grito contra a violência que as populações da Amazônia estão sofrendo agora percorre todo o texto. A denúncia é explícita, direta, sem palavras suaves. Os principais responsáveis são as multinacionais que exploram os recursos naturais. Estas são as palavras: Os impactos provocados pela destruição múltipla da bacia pan-amazônica geram um desequilíbrio do território local e global, nas estações e no clima.... é urgente enfrentar tais ameaças, agressões e indiferenças. O cuidado da vida se opõe à cultura do descarte, da mentira, da exploração e da opressão.

Ao mesmo tempo, supõe a oposição a uma visão insaciável do crescimento ilimitado, da idolatria do dinheiro, a um mundo desvinculado (de suas raízes, de seu contorno), a uma cultura de morte". O “grito" lista ponto a ponto os desastres em curso, começando pela "destruição extrativa" de recursos (minerais e naturais) até problemas indiretamente consequentes: as emigrações, a urbanização, o desequilíbrio criado para a família e as comunidades, os problemas impostos à saúde e à educação. Por fim, talvez o mais grave, a destruição da natureza que tem consequências de caráter planetário.

O Kairós

Tudo isso considerado, o texto se abre para a esperança e para o futuro e diz: "A Amazônia está vivendo um momento de graça, um kairós. O Sínodo da Amazônia é um sinal dos tempos no qual o Espírito Santo abre novos caminhos que discernimos através de um diálogo recíproco entre todo o povo de Deus. O diálogo já começou há tempos, a começar pelos mais pobres, de baixo para cima". A Igreja deve ser dos pobres e para o cuidado da criação e ter "uma teologia índia amazônica já existente, que permitirá uma melhor e maior compreensão da espiritualidade indígena, para evitar que se cometam aqueles erros históricos que atropelaram muitas culturas originárias... que se tenham em consideração os mitos, tradições, símbolos, saberes, ritos e celebrações originários, que incluem as dimensões transcendentes, comunitárias e ecológicas." A liturgia deve ser inculturada e usar símbolos, as músicas, as línguas, as danças próprias dos diferentes povos. Isso significa propor " Uma Igreja com rosto amazônico, em seus pluriformes matizes, procura ser uma Igreja ‘em saída’ (cf. EG, 20-23), que deixa atrás de si uma tradição colonial monocultural, clericalista e impositiva, que sabe discernir e assumir sem medo as diversificadas expressões culturais dos povos.” O documento então descreve com palavras fascinantes a já existente: “É preciso captar aquilo que o Espírito do Senhor ensinou a estes povos ao longo dos séculos: a fé no Deus Pai-Mãe Criador, o sentido de comunhão e a harmonia com a terra, o sentido de solidariedade para com seus companheiros, o projeto do ‘bem viver’, a sabedoria de civilizações milenárias que os anciãos possuem e que influi sobre a saúde, a convivência, a educação, o cultivo da terra, a relação viva com a natureza e a ‘Mãe Terra’, a capacidade de resistência e resiliência, em particular das mulheres, os ritos e as expressões religiosas, as relações com os antepassados, a atitude contemplativa e o sentido de gratuidade, de celebração e de festa, e o sentido sagrado do território."

Os ministérios

Na parte final, o documento aborda sem reticência o tema dos ministérios na Igreja. É aquele pelo qual se olha para este sínodo de todo o universo católico. Primeiro de tudo, afirma-se um ponto de grande interesse expresso de forma eficaz com estas palavras: "Os povos originários possuem uma rica tradição de organização social, na qual a autoridade é rotativa e dotada de um profundo sentido de serviço. A partir desta experiência de organização, seria oportuno voltar a considerar a ideia de que o exercício da jurisdição (poder de governo) deve estar vinculado em todos os âmbitos (sacramental, judicial e administrativo) e de maneira permanente ao sacramento da ordem.”

Substancialmente pede-se que o padre seja um entre outros em uma gestão por equipe da comunidade. Isso está em direta contradição com o clericalismo agora vigente que concede poder de todo tipo ao pároco e ao bispo.

O segundo ponto entra no mérito dos ministérios a partir da bem conhecida situação geral, não só amazônica, da carência de padres para a celebração da Eucaristia. Diz: "em vez de deixar as comunidades sem a Eucaristia, se alterem os critérios para selecionar e preparar os ministros autorizados para celebrá-la." Essa afirmação é bem construída, muito importante, mas indeterminada. Pode significar que até as mulheres poderiam ser incluídas nesta hipótese? Sabemos que, na consulta, a proposta do ministério feminino foi levantada repetidas vezes. O ponto mais esperado, no entanto, é o terceiro, sobre os assim chamados viri probati, dos quais o texto fala assim: “para as áreas mais remotas da região, estuda-se a possibilidade de ordenação sacerdotal de pessoas idosas, de preferência indígenas, respeitadas e reconhecidas por sua comunidade, mesmo que já tenham uma família constituída e estável, com a finalidade de assegurar os sacramentos que acompanham e sustentam a vida cristã." Palavras claras que o Sínodo terá dificuldade em não aceitar e o Papa Francisco não ratificar. Isso realmente daria uma mensagem de Igreja em saída e se iniciaria concretamente uma nova perspectiva para enfrentar, com atraso, a questão dos ministérios para todos.

As mulheres

A parte mais fraca do documento parece ser aquela que fala sobre as mulheres. Coisas nobres são repetidas, mas que já foram ouvidas muitas vezes: a presença das mulheres deve ser valorizada, as mulheres devem estar associadas aos processos de tomada de decisão, sua liderança deve ser garantida no campo da formação (catequese, liturgia ...) etc. São afirmações genéricas se levarmos em conta a situação descrita no mesmo documento quando que se diz que, em média, 80% das atividades da igreja são administradas por mulheres (na Amazônia, mas também em outros lugares). Esperávamos que fosse posta abertamente a questão do diaconato feminino ordenado que o Papa Francisco deixou em suspenso, mas para a qual a base católica não pode ficar calada.

Dizer que é preciso "identificar o tipo de ministério oficial que pode ser conferido às mulheres, levando em conta o papel central que elas desempenham hoje na Igreja amazônica" não é suficiente.

Oito pontos

O documento, no final, retorna à situação social e política com palavras pesadas: "Ser Igreja na Amazônia de maneira realista significa levantar profeticamente o problema do poder, porque nesta região o povo não tem possibilidade de fazer valer seus direitos face às grandes corporações econômicas e instituições políticas." É necessário "rejeitar a aliança com a cultura dominante e o poder político e econômico, para promover as culturas e os direitos dos indígenas, dos pobres e do território" e “Na voz dos pobres se encontra o Espírito; por isso, a Igreja deve escutá-los, são um lugar teológico."

O Instrumentum Laboris conclui-se com oito importantes indicações de comprometimento que são dirigidas à Igreja amazônica, mas que também são dirigidas à Igreja universal, que deve estar envolvida nas questões amazônicas. São as seguintes:

  • questionar o modelo extrativista,
  • aliar-se aos movimentos de base,
  • proteger os direitos humanos e defender as minorias,
  • escutar o grito da "Mãe Terra",
  • promover a dignidade e a igualdade da mulher na esfera pública, privada e eclesial,
  • promover uma nova consciência ecológica,
  • implementar a opção preferencial pelos pobres,
  • criar redes, em todos os níveis, porque a Igreja apresente denúncias de violações dos direitos humanos.

Que o poder do Vaticano não pare tudo

Agora cabe ao Sínodo discutir e propor. Há muitas expectativas não apenas sobre os ministérios. Também a denúncia da agressão à natureza e à violência contra as populações devem estar no centro deste Kairós da Igreja. Colocou-se em marcha aquela verdadeira sinodalidade vinda de baixo repetidamente evocada pelo Papa Francisco. Esperamos que o poder do Vaticano não consiga travá-la.

 

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