Apelo da "Igreja em saída"

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16 Abril 2019

"A “Igreja em saída” passa por esse percurso. Desvincular-se da centralidade de si mesmo, em vista de um projeto total e inclusivo. Os desafios são gigantescos. Como superar a cultura do individualismo e da indiferença, tão ativa e marcante no contexto do mundo moderno e/ou pós-moderno? Como ceder aos impulsos e instintos imediatos, aos desejos e interesses da própria condição humana, fortemente alicerçada no egoísmo endêmico e crônico? Hoje como nunca o desinteresse pelo próximo, erva daninha abundante nos tempos modernos, encontra terreno fecundo num egocentrismo agravado pela revolução das telecomunicações e da informática", escreve Alfredo J. Gonçalves, padre carlista, assessor das Pastorais Sociais.

Eis o artigo.

Sair de casa, deixar o chão conhecido do cotidiano, romper a barreira do que é familiar, eis um passo que sempre causa um certo desconforto. Por mais sejamos diferentes das árvores e que em nossas veias circule um pouco de sangue irrequieto, também possuímos nossas pequenas raízes, feitas de laços, afetos, relações, conhecimentos que, de uma forma ou de outra, nos ligam a um determinado lugar, de onde retiramos os nutrientes para a existência. O homo viator é também o homo urbanus, sedentário e confortável à beira do rio de sua cidade.

Abandonar o terreno sólido do “lugar”, aventurando-se pela multiplicidade de “não-lugares”, no sentido do antropólogo francês Marc Augé – “terra de ninguém e terra de todos, onde nada lembra o próprio ambiente do lar e da família” – é passar de um universo conhecido para outro estranho. Trata-se sempre de cortar fios invisíveis que nos ligam a pessoas e coisas, o que faz sangrar o coração e a alma. Ausentar-se do conforto diário, mesmo se às vezes marcado pela rotina, não deixa de trazer um certo mal-estar.

Sair de si mesmo e pôr-se em marcha. Lançar-se ao caminho e iniciar a travessia. Usando a imagem do poeta brasileiro Guimarães Rosa, atravessar o grande sertão, onde a toda hora tropeçaremos com veredas jamais batidas e rostos desconhecidos. “Por mares nunca dantes navegados” – diria Luís de Camões – descobrir e oferecer a oportunidade do encontro. Abrir espaço, meios e canais para o intercâmbio de povos, culturas e valores, uma troca saudável que haverá de enriquecer ambas as partes.

Boa Nova do Evangelho – início e núcleo central da mensagem de Jesus. A partir d’Ele e de sua vida, palavras e obra, podemos falar de Reino de Deus em saída, como hoje falamos de “Igreja em saída”. Jesus deixa sua casa e família, afasta-se da cidade de Nazaré, e começa a “percorrer cidades e povoados”, pelos caminhos da Galileia e da Judeia, até chegar a Jerusalém. Profeta como tantos outros da tradição judaico-cristã, denúncia o pecado, o abandono de Deus, a falsa religião onde a hipocrisia toma o lugar da fidelidade, a injustiça e as assimetrias econômicas e sociais que pesam sobre os pobres e indefesos. Anuncia a Deus como “Abba=Pai” – amor e perdão, bondade, misericórdia e compaixão – que no seu Reino prepara um banquete aberto a todos os que estão dispostos a voltar à sua intimidade luminosa. Diferentemente dos outros profetas, porém, Jesus, em lugar de ter uma novidade da parte do Pai, Ele é a Boa Notícia personalizada. A revelação viva e visível do rosto de Deus invisível e absconditus.

A “Igreja em saída” passa por esse percurso. Desvincular-se da centralidade de si mesmo, em vista de um projeto total e inclusivo. Os desafios são gigantescos. Como superar a cultura do individualismo e da indiferença, tão ativa e marcante no contexto do mundo moderno e/ou pós-moderno? Como ceder aos impulsos e instintos imediatos, aos desejos e interesses da própria condição humana, fortemente alicerçada no egoísmo endêmico e crônico? Hoje como nunca o desinteresse pelo próximo, erva daninha abundante nos tempos modernos, encontra terreno fecundo num egocentrismo agravado pela revolução das telecomunicações e da informática. Quanto mais crescem e se aperfeiçoam os meios para a comunicação e o encontro, crescem na mesma proporção o isolamento, o fechamento sobre si mesmo, os guetos urbanos. Como sair dessas ratoeiras que nos aprisionam aos interesses do “aqui e agora”, em vista de uma cultura da convivência, do confronto, do diálogo e da solidariedade?

Sair de si mesmo, seguir os passos de Jesus e deixar-se embriagar pela luz do rosto de Deus que nos transfigura. Reaproximar-se do Pai é o caminho mais curto para o reencontro com os mil rostos do outro, do diferente do estrangeiro. A missão e a prática de Jesus nos convidam a tomar o caminho: descentralizar-se de si mesmo, centralizar-se no projeto do Pai, para descentralizar-se novamente em favor da comunhão universal. Seguindo a trajetória do Mestre, tornamo-nos, ao mesmo tempo, infinitamente mais humanos, e um pouco mais divinos.

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