"A Pope Francis Lexicon": quando o dinheiro se torna um ídolo

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07 Março 2018

"A Pope Francis Lexicon" (O vocabulário do Papa Francisco) é um novo livro que contém 54 ensaios de uma série de figuras proeminentes sobre as várias palavras que se tornaram fundamentais no ministério do papa Francisco. Publicado nos EUA pela Liturgical Press, o volume é enriquecido com uma nota introdutória do Patriarca ecumênico Bartolomeu e por uma contribuição do arcebispo de Boston, Cardeal Sean O'Malley. O volume é editado pelos especialistas em Vaticano Cindy Wooden, editora-chefe do Catholic News Service de Roma, e Joshua J. McElwee, correspondente do National Catholic Reporter. Vamos publicar o capítulo de Andrea Tornielli no "vocabulário", dedicado às palavras de Francisco sobre dinheiro.

O texto é publicado por Vatican Insider, 03-03-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Há uma palavra que se repete na pregação do Papa Francisco e que já lhe valeu até acusações de ser um "marxista" e um "leninista". É a palavra "dinheiro", ou melhor, "o deus dinheiro", como ele o chama, explicando que ele deve "servir não governar". Quando governa, quando é idolatrado, adorado, colocado acima de tudo e na frente de tudo, faz com que os seres humanos se tornem corruptos. Muitos até pensaram em anestesiar e redimensionar a dimensão das palavras de Francisco sobre o assunto, explicando que o Papa fala assim porque é originário da América Latina e vê o mundo através dos olhos de um sul-americano que não entende a economia. Na realidade, com sua pregação, Francisco nos faz redescobrir páginas esquecidas, não só da Doutrina social, mas também dos Santos Padres da Igreja.

Para o Papa Bergoglio o dinheiro transformado em deus mina a fé. É "o dinheiro que faz você se desviar da fé", e "até mesmo acaba com a sua fé". É ele que semeia no mundo "invejas, brigas, calúnias e suspeitas malignas. Se você escolher o caminho do dinheiro" afirmou na homilia da Missa em Santa Marta, em de 20 de setembro de 2013, "o dinheiro torna-se ídolo e você vai adorá-lo e se tornar corrupto". O próprio Jesus fala claramente sobre isso, de maneira "bastante forte": “’Não podeis servir a Deus e ao dinheiro’. Você não pode: é um ou o outro! E isso não é comunismo, não! Isso é puro Evangelho! Estas são as palavras de Jesus!".

Palavras claras como aquelas estampadas no roteiro de seu pontificado, a exortação apostólica Evangelii gaudium, onde ele escreveu: "Nós criamos novos ídolos. O culto do antigo bezerro de ouro (cf. Ex 32,1-35) encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem propósito verdadeiramente humano". "Esta economia - acrescentou ele - mata".

Segundo a tradição

Desde a publicação da Evangelii gaudium as fortes palavras de Francisco foram submetidas ao crivo da crítica, particularmente daqueles ambientes - ainda próximos do catolicismo - que defendem uma completa sintonia entre o capitalismo e a fé cristã e consideram o sistema econômico-financeiro atual como o melhor dos mundos possíveis, quase uma concretização da visão cristã do homem. São esses think-tanks, alarmados pela pregação do Papa, que carimbam suas palavras como expressão de uma mentalidade populista.

No entanto, esquece-se que a Argentina, aonde Jorge Mario Bergoglio nasceu e viveu, sofreu com uma década de antecipação, em 2001, as desastrosas consequências da crise econômica e financeira e de um específico neo-liberalismo extremo. Ao olhar para esses fatos, vivenciados por ele pessoalmente como arcebispo de Buenos Aires, o cardeal Bergoglio havia repescado aquelas palavras preciosas e proféticas de um Papa esquecido, Pio XI, nascido Achille Ratti, que em 1931, na encíclica "Quadragesimo anno” publicada dois anos após a Grande depressão de 1929, falava de ''imperialismo internacional de dinheiro, cuja pátria é o interesse". “É coisa manifesta - acrescentava Pio XI - como nos nossos tempos não só se amontoam riquezas, mas acumula-se um poder imenso e um verdadeiro despotismo econômico nas mãos de poucos, que as mais das vezes não são senhores, mas simples depositários e administradores de capitais alheios, com que negociem a seu talante".

Já estava tudo ali, basicamente, naquela encíclica papal caída no esquecimento e tão eficaz em suas palavras para o tempo presente. O cardeal Bergoglio, durante uma entrevista com 30 Giorni em 2002, evocando as palavras do Papa Ratti, observava: "É uma fórmula que nunca perde a atualidade, e contém uma raiz bíblica. Quando Moisés sobe ao monte para receber a lei de Deus, o povo peca por idolatria construindo o bezerro de ouro. O próprio imperialismo moderno do dinheiro mostra um inconfundível rosto idólatra. É curioso como a idolatria sempre caminha junto com o ouro. E onde há idolatria, são esquecidos Deus e a dignidade do homem, criado à imagem de Deus. A economia especulativa não precisa mais nem mesmo do trabalho, não vê serventia nenhuma no trabalho. Segue o ídolo do dinheiro que se produz por si mesmo. Para isso, não existem escrúpulos em transformar em desempregados milhões de trabalhadores".

A escolha de Zaqueu

Seria até supérfluo dizer que a Igreja Católica e hoje o Papa argentino não têm nada contra a riqueza, nem por si só condenam a livre iniciativa e o capitalismo. Também nesse ponto Francisco é muito claro. A partir da entrevista que Giacomo Galeazzi concedeu-me para o livro Questa economia uccide (Esta economia mata, em trad.livre): "A pobreza afasta da idolatria, do sentimento de autossuficiência. Zaqueu, depois de ter cruzado com o olhar misericordioso de Jesus, doou metade de seus bens aos pobres. A mensagem do Evangelho é uma mensagem endereçada a todos, o Evangelho não condena os ricos, mas a idolatria da riqueza, aquela idolatria que torna insensíveis ao clamor do pobre. Jesus disse que antes de oferecer a nossa dádiva diante do altar, devemos nos reconciliar com nosso irmão para ficar em paz com ele. Acho que podemos, por analogia, estender isso”.

Poder-se-ia dizer, diante de algumas reações à doutrina social do Papa, que o problema não resida tanto nas suas palavras, mas no esquecimento dos cristãos, que perderam a força da Doutrina social da Igreja ou que suavizaram em demasia a sua mensagem. Em sua visão sobre dinheiro, a riqueza e o compartilhamento com os pobres, o Papa Bergoglio sabe que está na boa companhia dos Santos Padres. Ainda de Questa economia uccide: "Se eu repetisse algumas homílias dos primeiros Padres da Igreja, do segundo ou terceiro século, sobre como devem ser tratados os pobres - afirmou o Papa - haveria alguém para me acusar que a minha é uma homilia marxista. "Não dás da tua fortuna ao seres generoso para com o pobre, tu dás daquilo que lhe pertence. Porque aquilo que te atribuis a ti, foi dado em comum para uso de todos. A terra foi dada a todos e não apenas aos ricos". Estas são as palavras de Santo Ambrósio, que serviram para o Papa Paulo VI para afirmar, na Populorum progressio, que a propriedade privada não constitui para ninguém um direito incondicional e absoluto, e que ninguém está autorizado a reservar para seu uso exclusivo o que supera a sua necessidade, quando aos outros falta o necessário".

A coragem de uma mudança

Também dos Santos Padres da Igreja, o Papa argentino tirou uma das imagens mais fortes por ele utilizadas ao falar de dinheiro, aquela que o descreve como "esterco do diabo": "Hoje - declarou em julho de 2015, na Bolívia, falando no segundo encontro mundial dos Movimentos populares - a comunidade científica aceita o que há muito tempo vêm denunciando os mais humildes: estão sendo produzidos danos talvez irreversíveis ao ecossistema. Estão sendo punidas as terras, as comunidades e as pessoas de maneira quase selvagem. E por trás de tanto sofrimento, morte e destruição, sente-se o cheiro do que Basílio de Cesareia - um dos primeiros teólogos da Igreja – chamava de ‘esterco do diabo’".

A ambição desenfreada por dinheiro que domina. Esse é o “esterco do diabo". Quando o “capital torna-se ídolo e dirige as ações dos seres humanos, e quando a ganância por dinheiro controla todo o sistema sócio-econômico” continuava Francisco nesse discurso, “arruína a sociedade, condena o homem, o torna um escravo, destrói a fraternidade entre os homens, joga nações contra nações, e como pode ser visto, também ameaça a nossa casa comum, a irmã mãe terra". Em face de tudo isso, em face da idolatria ao dinheiro, Francisco pede uma profunda mudança e coloca em discussão o sistema em que vivemos. Porque a economia não mata, mas quando o dinheiro governa em vez de servir, então, "esta economia mata".

A idolatria que se torna sistema

É possível contrapor que toda essa ganância, idolatria ao dinheiro, esse apego doentio, sempre existiram: a Bíblia nos fala do bezerro de ouro, o próprio Jesus é vendido por trinta moedas de prata. A novidade dos últimos tempos é dada pela transformação de todo esse sistema. Francisco não se detém em denúncias midiáticas, genéricas. Mas descreve em detalhe as suas consequências. Em Gênova, em 27 de maio de 2017, ele disse: "Uma doença da economia é a progressiva transformação dos empresários em especuladores. O empreendedor não deve ser confundido com o especulador, são dois tipos diferentes. O especulador é uma figura semelhante àquela que Jesus no Evangelho chama de mercenário, para contrapô-la ao do bom pastor. Enxerga a empresa e os trabalhadores apenas como meio para gerar lucro, usa empresa e trabalhadores para ter lucro, não os ama. Despedir, fechar, transferir a empresa não lhe causa qualquer problema, porque o especulador usa, explora, devora pessoas e meios para o seu lucro. Quando a economia é habitada por bons empresários, as empresas são amigas das pessoas. Quando passa para as mãos dos especuladores, tudo fica arruinado. É uma economia sem rostos, abstrata. Por trás das decisões do especulador não estão pessoas, e, portanto, não se veem pessoas a serem despedidos e dispensadas".

O dinheiro e o sangue das guerras

Por fim, não devemos esquecer que para o Papa Bergoglio os interesses econômicos e a ganância por dinheiro fomentam os focos de guerra. O que ele chamou de "a Terceira Guerra Mundial em pedaços" é um fenômeno que vê como protagonistas os ávidos traficantes da morte: "Por que tantas pessoas poderosas não querem a paz? Porque elas vivem das guerras!" afirmou Francisco em maio de 2015 para um grupo de estudantes, explicando que com a indústria das armas "alguns poderosos, ganham com a fabricação de armas, e vendem as armas para tal país que está em luta contra aquele, e depois a outro que está contra esse tal, e assim por diante. É a indústria da morte!". Poucos meses depois, no histórico discurso no Congresso dos Estados Unidos, dirigiu à sua audiência uma pergunta retórica: "Por que armas mortais são vendidas para aqueles que planejam infligir sofrimentos incalculáveis para indivíduos e sociedades? Infelizmente, a resposta, como todos sabemos, é simplesmente pelo dinheiro: dinheiro que está encharcado de sangue, muitas vezes de sangue inocente".

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