Os desafios do Papa Francisco. Entrevista com Andrea Tornielli

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14 Abril 2015

Andrea Tornielli é um conhecido jornalista e escritor, coordenador do site web “Vatican Insider” de La Stampa, colaborador de numerosos telejornais e da Radio Maria, autor do blog “Sacri palazzi”, e publicou dezenas de livros e ensaios dedicados à história da Igreja, diversos dos quais traduzidos no exterior. É hoje considerado um dos principais vaticanistas, é casado, tem três filhos e vive entre Milão e Roma. Dirigimos-lhe algumas perguntas para entender o atual papel da Igreja e o significado do Papa Francisco através de algumas decisões e pensamentos seus.

A entrevista é de Francesco Romero, publicada pelo MenteinFuga, 11-04-2015. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis a entrevista.

A meu ver o acontecimento mais extraordinário da Igreja dos últimos séculos é a renúncia de Bento XVI. Qual é a sua opinião? Qual considera que possa ser o seu impacto sobre a Igreja do XXI século?

Não resta dúvida que a decisão do Papa Ratzinger tenha sido explosiva: é verdade que a possibilidade da renúncia era prevista no código de direito canônico. Mas, também é verdade que em dois mil anos de história da Igreja jamais acontecera que um bispo de Roma renunciasse ao papado por questões de idade. O impacto sobre a vida da Igreja foi e será fortíssimo: como explicou bem o Papa Francisco, foi aberta uma porta. A possibilidade somente teórica foi posta em prática. Temos o Papa reinante e um ex Papa que vivem a poucas centenas de metros de distância um do outro. Uma situação impossível também somente de ser pensada até março de 2013. Também porque os Pontífices que haviam pensado nesta eventualidade – por exemplo, Paulo VI – haviam projetado retirar-se num convento de clausura desaparecendo de todo da vista do mundo, quase murados vivos.

Tendo em conta que ser Igreja no mundo contemporâneo é um desafio, quais considera que sejam hoje as prioridades para a Igreja?

Me parece que a prioridade seja aquela da evangelização, de “sair” para anunciar o Evangelho, também de saber renunciar a costumes e privilégios para atingir o maior número de pessoas testemunhando a beleza do Evangelho, o anúncio do amor e da ternura de um Deus próximo, que abraça antes de julgar. Para a Igreja evangelizar é a prioridade. Ela existe para isto. Mas, ao mesmo tempo, evangelizar significa também testemunhar que é possível a construção de relações humanas, pessoais, sociais, econômicas, políticas e internacionais baseadas sobre a centralidade da pessoa humana e sobre sua irredutível dignidade: e, portanto, o cristão no mundo deveria ser uma semente de novidade neste sentido. É uma prioridade que segue do anúncio evangélico a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva, que não se resigna à morte pela fome e pela extenuação de tantíssimas pessoas, uma sociedade que procura combater o desemprego porque trabalho significa dignidade; uma sociedade que pratica a solidariedade, que respeita a vida, que promove a família. E que crê, em nível internacional, no diálogo entre os povos e entre as nações. 

No seu último livro-entrevista “Papa Francisco. Esta economia mata” é descrito o pensamento do Papa sobre a economia globalizada na qual nos encontramos a viver atualmente. Qual é o caminho proposto pelo Papa para mudar o atual estado de coisas?

O Papa não persegue “terceiras vias” entre capitalismo e comunismo, não dá precisas receitas econômicas. Constata que vivemos num sistema econômico-financeiro no qual o centro é a idolatria, o fetichismo do dinheiro. Não está mais no centro a pessoa humana. Esta economia “descarta”, e “mata”. Não se limita a oprimir, vai além: trata os seres humanos como lixos, como rejeitos. Na Grã Bretanha, no inverno 2012-2013, morreram de frio 24.000 pessoas: nem todos eram pessoas sem teto, em muitos casos não tinham o dinheiro para pagar o aquecimento. Creio que fazer-se perguntas, fazer questionamentos, perguntar-se se o sistema no qual vivemos seja realmente o melhor dos mundos possíveis – o dogma pregado pelos sacerdotes de certo turbo-capitalismo que nos vê consignados ao extra-poder dos mercados financeiros – ou então, se seria possível corrigir algo, modificar algo, melhorar alguma coisa. Reconduzindo ao centro o homem. Por ter levantado alguma pergunta no mérito, Francisco foi timbrado – com uma rudeza que diz muito dos acusadores – de ser marxista e leninista. Evidentemente quem moveu esta acusação conhece pouco ou nada do marxismo e nada de nada da Doutrina social da Igreja.

Superando a atual estrutura definida há algumas décadas por São João Paulo II, o Papa Francisco encaminhou, também pelo trâmite do assim dito C9, ou seja, uma comissão restrita de Cardeais que está elaborando uma proposta, uma reforma da Cúria Romana. Pode explicar-nos as motivações desta reforma e dizer-nos a que ponto estamos?

As motivações podem encontrar-se no debate entre os cardeais que precedeu o último conclave. A Cúria romana andou crescendo, tornou-se em certos casos embaraçosa, hipertrófica. Deu a impressão de se ter tornado quase um órgão de governo centralizado da Igreja católica. Ao invés disso, a Cúria romana é somente uma estrutura de serviço ao ministério do Bispo de Roma, a Igreja que preside na caridade, como já recordavam os Padres da Igreja. Existia a necessidade de agilizar, desburocratizar, de encorpar competências. O caminho iniciou e até hoje a ser reformado foi principalmente o sistema administrativo, econômico e financeiro da Santa Sé e do Estado da Cidade do Vaticano. Não se devia começar dali, mas Francisco foi constrangido em razão das inquisições da magistratura italiana sobre o IOR, o banco vaticano, que continua a estar no centro de escândalos. Com o nascimento da Secretaria para a Economia, um dicastério novo que incorpora todas as competências de controle e de racionalização das despesas, se deu um passo importante para a reforma. O próximo será aquele que deveria ver o nascimento de dois grandes polos de congregações: aquele para os leigos e aquele para a justiça e a paz. Em seu interior serão alocados diversos dicastérios e pontifícios conselhos atualmente existentes.

Há poucos dias o Papa Francisco espantou a muitos de nós com a indição do Ano Santo extraordinário sobre a Misericórdia de Deus, ou então, sobre um tema que me parece central neste papado. Qual é, segundo você, o significado desta iniciativa na perspectiva do pensamento do Papa?

O Jubileu extraordinário da Misericórdia foi uma surpresa, mas ao mesmo tempo representa a lógica consequência do magistério de Francisco nos primeiros dois anos de pontificado. O Papa Bergoglio insistiu desde o primeiro momento nesta mensagem: Deus é um Pai misericordioso, não se cansa jamais de perdoar, de atender-nos no limiar, como o pai da parábola do Filho Pródigo. Somos nós que nos cansamos às vezes de pedir-lhe perdão. A misericórdia é o coração do anúncio cristão: Deus nos ama assim como somos, nos reacolhe sempre se somente nos demonstramos arrependidos, necessitados de sua ajuda. Creio que o Ano Santo, que não será concentrado em Roma, mas difundido em todas as Igrejas locais, represente uma grande oportunidade de evangelização.

E, para terminar, uma pergunta mais pessoal: você é um jornalista especializado nas coisas referentes à Igreja a e aos fatos vaticanos. Como decidiu/entendeu que este era o seu principal interesse, que era o seu caminho de vida?

Faz 14 anos fiquei muito tocado pelos dois conclaves de 1978, aquele que elegeu João Paulo I após a morte de Paulo VI, e aquele que elegeu João Paulo II. Desde então comecei a colecionar os retalhos de jornal sobre estes argumentos. Depois estudei, me laureei em História da Língua grega e ainda não tinha ideia que o jornalismo se tornaria a minha profissão. Apresentou-se a oportunidade e procurei acolhê-la, cultivando aquele interesse juvenil.

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