Dois anos desde a renúncia do Papa Bento XVI

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05 Março 2015

"Papa Francisco disse que, com este ato corajoso de Bento, tornou-se uma parte normal da vida da Igreja um bispo de Roma renunciar. Tomara que, antes de Francisco se retirar um dia, ele consulte as melhores mentes de sua Igreja e codifique procedimentos claros para assim proceder", escreve Robert Mickens, editor-chefe da revista Global Pulse, em artigo publicado pelo National Catholic Reporter, 02-03-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Uma das injunções evangélicas mais difíceis para os jornalistas católicos e analistas é: “Não julgueis, e não sereis julgado”.

Porque, se se formos honestos, fazer julgamentos é uma parte grande daquilo que fazemos quando tentamos analisar e interpretar eventos e decisões que acontecem dentro da Igreja, especialmente aqueles concernentes a seus líderes.

E os últimos dois anos foram repletos de eventos e ficaram marcados por muitas e importantes decisões, em particular em se tratando do papado.

Neste sábado recordamos um dos destes eventos mais históricos, com o segundo aniversário da renúncia oficial do Papa Bento XVI – o dia em que ele se tornou o primeiro papa dos tempos modernos a livremente se afastar da função de Bispo de Roma.

Os seus mais queridos admiradores, bem como os seus críticos mais ferrenhos, continuam a elogiá-lo por tomar esta corajosa decisão.

Nestes últimos dias, Bento XVI novamente foi creditado por fazer com que este novo arranjo em que a Igreja se encontra esteja sendo pacífico e não disruptivo da unidade.

Mas o Papa Francisco também merece parte deste crédito pela maneira como ele tem agido.

Se fosse um outro que tivesse sido eleito como sucessor de Bento XVI a dois anos atrás, seria bem possível que a Igreja ainda estivesse vivendo as turbulências que abalavam Roma na época da renúncia do papa alemão.

Isso porque Bento e seus assessores tomaram passos específicos para garantir que, tanto quanto possível, houvesse uma continuidade sem cortes de um pontificado ao outro. Eles assim o fizeram durante um período de vários meses, mesmo antes de o papa emérito anunciar, em 11 de fevereiro de 2013, a sua intenção de renúncia.

Os arranjos feitos muito provavelmente teriam um efeito restritivo com um sucessor que fosse um pouco menos decisivo e confiante que Jorge Mario Bergoglio.

Em outubro de 2012, Bento XVI decidiu que iria renunciar ao papado, e foi nesta mesma época que ele já tinha decidido onde viveria depois do afastamento – a apenas alguns minutos a pé da residência papal oficial no Palácio Apostólico. Neste período ele já tinha encomendado a completa renovação de um convento de três andares nos Jardins do Vaticano, conhecido como Mosteiro Mater Ecclesia, lar para quatro comunidades de feiras contemplativas diferentes desde 1994.

Quando finalmente foi tornado público que este ambiente seria a sua residência após a renúncia, ficou-se sabendo que o seu secretário particular, o Mons. Georg Ganswein, e quatro virgens leigas consagradas também iriam viver com ele. A notícia foi um tanto curiosa. Em dezembro de 2012, já planejando o seu afastamento em alguns meses, Bento nomeou Ganswein para ser prefeito da residência papal e o fez arcebispo.

A nova disposição pareceu clara o suficiente. Era pouco provável que o novo papa fosse substituir o prelado alemão, então com 56 anos, a menos que quisesse aborrecer o homem que o havia recentemente nomeado. Portanto, Ganswein se tornou, em seu papel duplo como supervisor do palácio papal e secretário particular de Bento XVI, o intermediário entre o antigo Papa Emérito e o seu sucessor.

Mas isto nunca se materializou, principalmente porque o recém-eleito Papa Francisco decidiu, imediatamente, não viver nos apartamentos papais. Este tomou a inédita e (para muitos no Vaticano) chocante decisão de residir no Domus Sanctae Marthae, uma grande residência de padres e pousada próximo à Basílica de São Pedro, onde os cardeais ficaram hospedados durante o Conclave que o elegeu.

Se fosse qualquer outro que tivesse sido eleito papa em 2013, seria quase certo que ele viveria no palácio apostólico do século XV, que foi a principal residência dos papas desde 1870. A maioria dos analistas concordam que a decisão do Papa Francisco em não morar neste lugar resta como uma das “reformas” mais importantes em seu pontificado por causa da forma como este gesto ajudou a desmistificar o papado e erradicar os remanescentes da corte papal e sua mentalidade. Mas este gesto também ajudou ele a criar o seu próprio lugar e estilo, sem se sentir preso a uma linha rígida de continuidade com o seu erudito predecessor.

Até o momento, Francisco não mostrou nenhum sinal de constrangimento ou desconforto com o (às vezes polêmico, às vezes celebrado) legado de seu ainda vivo predecessor, Joseph Ratzinger, um homem cujas opiniões teológicas se tornaram quase normativas para toda a Igreja durante as últimas quatro décadas.

Ao novo papa não foi dada a palavra para dizer onde o, hoje, Papa Emérito iria morar, o que iria vestir ou como seria chamado. Bento tomou estas decisões unilateralmente, até mesmo assumindo o título já mencionado: “Papa Emérito”, apesar de a maioria dos canonistas dizerem que deveria ser chamado de “Bispo Emérito de Roma”.

Se um protegido de Ratzinger – ou, novamente, qualquer um que careça de um domínio de si próprio tão óbvio em Francisco – fosse o papa hoje, seria bem possível que o “novo arranjo” criado por uma renúncia papal pudesse ter se desenvolvido de forma muito diferente do que a maneira como se encontra atualmente.

Poucos cardeais do círculo de Bento XVI tiveram a temeridade de apresentar uma correção fraternal que teria beneficiado o pontífice durante momentos difíceis em seu pontificado. É difícil imaginar que algum deles, sendo o sucessor, se sentiria livre para modificar até mesmo uma pequena questão da linguagem usada por Bento ou o foco que ele deu ao seu pontificado.

Francisco tem sido capaz de fazer isto. E de uma forma destacadamente inofensiva, que tem mostrado respeito pelas contribuições de Bento sem se sentir obrigado a, meramente, perpetuá-las.

O Papa Francisco disse que, com este ato corajoso de Bento, tornou-se uma parte normal da vida da Igreja um bispo de Roma renunciar.

Tomara que, antes de Francisco se retirar um dia, ele consulte as melhores mentes de sua Igreja e codifique procedimentos claros para assim proceder.

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