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18 Junho 2019

Continuam as reações ao documento do Vaticano sobre gênero (A educação em tempos de gênero; começamos realmente a ouvir), assim fizemos algumas perguntas a Martin Maria Lintner, tirolês do sul de 47 anos, teólogo moral e religioso dos Servos de Maria, professor do Estudo Teológico de Bressanone.

Um teólogo muito atento ao que acontece no plano internacional, também por ter sido de 2014 a 2017 presidente da INSeCT (International Network of Societies for Catholic Theology) o órgão que agrupa em nível mundial 35 associações de teologia católica: uma rede de instituições fundada em 1996 pela Conferência Internacional de Decanos das Faculdades Teológicas Cocti (Conference of Catholic Theological Institutions) para apoiar a teologia católica em particular nas partes do sul do mundo. Lintner é atualmente presidente da Associação Internacional de Língua Alemã para Teologia Moral e Ética Social.

A entrevista é de Maria Teresa Pontara Pederiva, publicada por Settimana News, 17-06-2019. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis a entrevista. 

Padre Lintner, como teólogo moral, qual é a leitura/avaliação do documento?

Este documento era esperado há muito tempo. Já há mais de um ano, havia notícias de que o Vaticano estava preparando um texto sobre a questão do gênero. É interessante que, finalmente, não tenha sido publicado pela Congregação para a Doutrina da Fé, mas sim por aquela da educação católica.

Isso significa que o Vaticano não pretende se expressar em nível doutrinário, mas reafirmar o direito das instituições pedagógicas e escolas católicas de orientar seus programas de ensino e de educação de acordo com a antropologia cristã, rejeitando assim programas educacionais de gênero que sejam julgados negativamente como de viés puramente ideológico.

Acredito que o documento não responde às expectativas daqueles que esperavam do Vaticano uma firme condenação das teorias de gênero, mas sequer responde às expectativas daqueles que esperavam que a declaração oferecesse um confronto mais articulado com as teorias de gênero.

Pode-se falar de ideologia?

Quanto à sua experiência, sentiu a necessidade de intervir para fornecer ajuda aos professores das escolas católicas ou de outros setores educacionais, como o texto explica?

A questão do gênero tem sido discutida há tempo de maneira muito controversa. Certamente, existem programas educacionais e também formas de ativismo político que parecem ser profundamente problemáticos. Por essa razão, um confronto crítico com o problema era realmente necessário.

No entanto, vejo uma ambiguidade no texto e é inerente ao fato de que ele se apresenta como muito unilateral. Por um lado, reconhece-se que existem pesquisas sobre gênero realizadas pelas ciências humanas e que são avaliadas positivamente, por outro, porém, fala-se de ideologia de gênero que é criticada e rejeitada. Três aspectos críticos são fundamentalmente identificados: a negação da diferença e da reciprocidade natural do homem e da mulher, a reivindicação da identidade sexual como uma opção individualista, também mutável ao longo do tempo e, finalmente, a separação radical do sexo biológico e aquele sociocultural.

Depois de ter lido vários textos dos chamados "estudos de gênero", devo dizer que nunca encontrei tais afirmações. Esses estudos, que em parte não são fáceis de ler e compreender, são, no entanto, mais complexos e ainda mais diferenciados. É interessante notar que o documento, quando tenta explicar as teorias de gênero não cita nenhum texto de estudiosos de gênero, mas textos do próprio magistério que argumenta sobre esses estudos.

Sabe-se, contudo, que as expressões do magistério são amplamente influenciadas pelas correntes antigênero, que muitas vezes também usam um tom muito polêmico e agressivo e que vezes demais não mostram a intenção de se confrontar adequadamente e cientificamente com as teorias sobre o gênero.

Diálogo oportuno

Mesmo com uma linguagem pacata e longe de polêmica, o tema tratado no documento sempre foi motivo de divisões dentro da comunidade eclesial e de toda a sociedade (alguns dizem que a teoria do gênero está apenas na mente de quem se declara contrário…): como se pode proceder a partir desse documento para construir unidade e comunhão ou pelo menos o "diálogo" que se espera?

De fato, a falta de tom polêmico é mais que significativa. O documento traz o subtítulo significativo "Para um diálogo sobre a questão do gênero na educação". Pode ser lido como um convite ao diálogo não apenas sobre a questão de gênero, mas - como condição necessária para isso - também para um diálogo com aqueles que são filósofos e filósofas que lidam com gênero.

Evidencia-se facilmente que as posições acima mencionadas, que são rejeitadas como ideológicas, não constituem a corrente majoritária. Então, lendo o texto, tem-se a impressão de que tenha sido perdida a oportunidade de realmente entrar em um diálogo crítico e aprofundado com as próprias teorias de gênero. Por outro lado, o documento apenas esclarece a posição católica.

A clareza de posições, no entanto, também pode facilitar o diálogo se uma parte realmente pretende ouvir a outra e reconhecer não apenas os pontos de encontro, mas também aceitar as perguntas justificadas que aquela faz à minha posição.

Sobre a primazia da família no que diz respeito à educação de crianças e jovens, todos concordamos, mas a teoria de gênero nas escolas sempre foi quase um álibi para impedir a algumas famílias "conservadoras" de predispor percursos de educação para a afetividade e a sexualidade e, até mesmo, contra o bullying ou a promoção da igualdade de sexos. Não se corre o risco de aumentar essas reservas agora? E, no entanto, justamente o Papa Francisco recentemente desejou que se falasse sobre isso na escola ...

É claro que os pais não têm apenas o direito de educar seus filhos, mas também a primeira responsabilidade de o fazer. No entanto, eles também devem ser apoiados pelas escolas. Há, portanto, a necessidade de uma boa e confiante colaboração entre pais e escola e não de confrontos e disputas sobre competências. Ao mesmo tempo, pais e escolas devem se orientar de acordo com aquilo que é o estado atual das ciências humanas, integrando os resultados das ciências humanas em um marco antropológico.

Isso é de particular importância no campo da sexualidade e da afetividade, que certamente não deve se limitar aos aspectos biológicos e médicos, mas reconhecidos em seu valor humano e espiritual. O meu temor, no entanto, é que justamente aqueles pais que impedem predispor percursos de educação sobre a afetividade e a sexualidade nas escolas, nem mesmo na família falem com seus filhos sobre esses assuntos.

O preço é pago pelos filhos que, na sociedade de hoje, são constantemente confrontadas com essas temáticas e, muitas vezes, de maneira ambígua ou, pelo menos, problemática (pense, por exemplo, no fenômeno agora frequente do sexting, ou seja, o envio de mensagens e imagens sexualmente explícitas via telefone celular ou computador, ou o acesso fácil à pornografia na internet ...).

Não escolher, mas aceitar

Para muitos, a "teoria do gênero" é comprada à realidade do mundo LGBT e, pelo menos para alguns cristãos, tudo é olhado com suspeição: como educar de maneira serena, também à luz desse documento?

A pesquisa e as várias teorias sobre gênero - na verdade, não podemos falar de uma única teoria no singular - estão integradas em um longo processo histórico. O documento da Congregação para a Educação Católica, para dizer a verdade, destaca isso muito claramente. A "primeira geração" é caracterizada pela luta pelos mesmos direitos civis de mulheres e homens e pelo reconhecimento da igualdade de gênero.

A "segunda geração" procura, em vez disso, estudar e compreender as razões para a discriminação efetiva das mulheres em muitas culturas e sociedades, mesmo na Igreja, e o faz com a ajuda da diferenciação entre o sexo biológico (sex) e os papéis socioculturais (gender).

Por fim, a "terceira geração" dessas pesquisas busca compreender a complexidade da identidade sexual ao diferenciar não apenas entre sex e gender, mas também a dimensão psicológica que inclui a orientação sexual, o próprio sentir e o conceito de si.

Esses estudos sempre evidenciam como a identidade sexual seja uma realidade extremamente complexa. Já no nível biológico é necessário distinguir pelo menos entre o nível genético - aqui também existem possíveis "aberrações" cromossômicas - o nível gonadal, ou seja, hormonal e, finalmente, a dimensão fenotípica, ou seja, corporal. O documento, falando por exemplo dos fenômenos da intersexualidade e de transgênero, na minha opinião, não capta adequadamente essa complexidade.

A questão fundamental, entretanto, não é a de poder escolher livremente a própria identidade sexual, porque esta costuma ser descoberta durante a adolescência. É então formada através dos vários componentes mencionados, mas é também o resultado de influxos educacionais, psicológicos e socioculturais.

O desafio é reconhecer o direito de cada pessoa de descobrir e aceitar sua identidade sexual sem ser por isso discriminada, especialmente quando não corresponde a uma coerência clara entre sexo biológico e gênero feminino ou masculino e orientação heterossexual. Como esse é um pedido dos movimentos LGBT, as teorias de gênero são frequentemente compradas ao mundo LGBT, mas não existe motivo para olhar o todo com suspeita.

Como teólogos morais vocês abordaram o tema durante seus encontros ou pesquisas?

Sim, há tempo a questão também vem sendo abordada por teólogos e teólogas morais. Existem várias publicações também no âmbito italiano. Apenas alguns dias após a publicação do documento do Vaticano, foram publicados os trabalhos de duas conferências internacionais das quais eu pude participar, uma realizada nas Filipinas e a outra em Viena. O livro Towards Just Gender Relations: Rethinking the Role of Women in Church and Society foi publicado pelo teólogo vienense Gunter Prüller-Jagenteufel, pela teóloga malaia Sharon Bong e pela teóloga húngara Rita Perintfalvi.

Mesmo no âmbito da teologia de língua alemã, existem numerosos estudos que tratam da questão do gênero. Seria desejável um diálogo e confronto entre o magistério e essas pesquisas teológicas e teológico-morais. Acredito que não teria prejudicado o documento do Vaticano um profundo conhecimento dessas pesquisas.

 

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