Gênero. “Metáfora que intercepta as contradições do nosso tempo”

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12 Junho 2019

Nas várias teorias de gênero se concentram as tensões e a desorientação da nossa época. Alimentam ilusões e, portanto, devem ser criticadas. Diferente é, por outro lado, a atitude em relação às pessoas que vivem essas contradições. Aqui humanidade e acolhimento nunca devem falhar. É a posição de Susy Zanardo, professora de filosofia moral na Universidade Europeia de Roma, que, como especialista em diferenças de gênero, participou de várias conferências da CEI. Aquela que chamamos de “ideologia gender” é na verdade um arquipélago no qual há muitas e contraditórias declinações.

A entrevista é de Luciano Moia, publicada por Avvenire, 11-06-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Vamos esclarecer um pouco?

Do meu ponto de vista, a história do conceito de gênero é a história de um progressivo desacoplamento da identidade do corpo. Esta história conhece pelo menos três momentos.

No início, o gênero aparece como um revestimento cultural do corpo.

No segundo momento, o gênero é desacoplado do dado corporal subjacente ao revestimento cultural e é pensado como o processo de construção das próprias diferenças corporais. O corpo torna-se, assim, uma questão política: não tem nada de próprio a dizer, nenhum significado para articular, nenhum limite para integrar, mas é lido de acordo com o desenho de quem controla a produção simbólica.

Em um terceiro momento, nas posições queer e no ciberfeminismo, o corpo é definido como uma plataforma tecnovivente.

É correto sintetizar o coração da ideologia de gênero na negação da diferença homem-mulher? Quais são os outros pontos chave?

A ruptura do binarismo sexual tem consequências antropológicas e sociais radicais. Pelo menos dois percursos foram percorridos: o primeiro é o de construir matrizes rivais de desordens de gênero, a fim de desnaturalizar o masculino e o feminino; o segundo é o de um caminho mais institucional, o caminho que desenha uma agenda política para o futuro, "das mudanças na estrutura do parentesco, aos debates sobre o casamento homoafetivo, até as condições de adoção e o acesso à tecnologia reprodutiva", como escreve Judith Butler.

Você observou repetidamente que há tanto sofrimento não ouvido nas reivindicações de gênero. O que você quer dizer?

O gênero é uma metáfora do nosso tempo: intercepta suas tensões e contradições. Tudo isso não passa sem sofrimento. A reconstrução que propus é o resultado de um trabalho teórico, que deve ser claro, honesto e rigoroso. Mas a experiência me ensinou que há um lado que a teoria não consegue contemplar.

A primeira vez que eu falei publicamente sobre esse tema, argumentando da forma mais robusta possível, um pai se levantou e me perguntou se eu tinha uma ideia do que significava ter um filho transexual, um filho que, como fiquei sabendo mais tarde, teria tirado a própria vida? Para mim foi um tapa teórico que me ensinou a humildade das análises e a delicadeza das palavras.

Em outra ocasião, um avô me contou sobre sua filha que teria tido uma criança com o óvulo da companheira; ele me perguntava se ele deveria receber aquela criatura. Obviamente, respondi que aquela criatura precisava de todo o afeto que os avós sabem dar. Eu aprendi que por trás de cada história há sofrimentos que devem ser ouvidos, pessoas que devem ser amadas justamente nessas fragilidades. Alguns acreditam que isso significa abrir-se para o gênero.

É um risco?

Não, pessoalmente, sinto inquietação e dor diante das teorias de gênero: se jogadas no registro ideológico, elas confundem realidade e ilusão, além de alimentar a ruptura da unidade do corpo e do sentido de si; mas, se eu olho para o sofrimento das pessoas que recorrem a elas como um ato de reparação por injustas discriminações, sinto uma profunda empatia. Mas o respeito e o cuidado de cada pessoa não pode de modo algum enfraquecer a diferença sexual e alterar a ordem da geração, porque desse enfraquecimento se espalhariam muitos e profundos sofrimentos.

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