Teoria de gênero: Igreja Católica organiza resposta

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13 Setembro 2011

Sinal da extrema atenção que a Igreja Católica presta ao tema, o Vaticano reagiu de modo incomumente rápido ao debate sobre a inserção, nos programas de ciências e de vida da terra (SVT) da Première [penúltimo ano do Ensino Médio na França], de um capítulo dedicado ao tema "Tornar-se homem ou mulher". Percebido como uma forma implícita de introduzir a "teoria de gênero" na mente dos adolescentes, esse tema levou o Pontifício Conselho para a Família a publicar na França uma obra militante intitulada Gênero, a controvérsia (Ed. Pierre Téqui, 192 páginas).

A reportagem é de Stéphanie Le Bars, publicada no jornal Le Monde, 11-09-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Retomando as contribuições de teólogos e de religiosos que apareceram nestes últimos anos, a Igreja pretende alertar sobre os "desvios" da teoria de gênero, que distingue a identidade sexual biológica do gênero, masculino ou feminino, e insiste na construção social e cultural da identidade sexual.

Desenvolvidos há cerca de 20 anos, os trabalhos sobre o gênero abordam tanto os temas relacionados à paridade homem-mulher na política ou no mundo do trabalho, quanto o lugar da mulher na arte ou nos movimentos sociais. Mas tudo isso também significa, segundo a Igreja Católica, "uma mudança de paradigma que põe novamente em questão a diferença sexual intrínseca à humanidade". A instituição eclesial se ocupou desse assunto a partir dos anos 1990 e, desde então, considera "perigosa" essa teoria.

No prefácio de "Gênero, a controvérsia", Tony Anatrella, padre, psicanalista e "consultor" do Vaticano para questões sobre a família e a saúde, denuncia "a ideologia totalitária, ideologia mais opressiva e perniciosa do que a ideologia marxista". Para a Igreja, as consequências da teoria são a desconstrução da família e da procriação, ou o reconhecimento de orientações sexuais diferentes, o que inclui em particular o casamento homossexual.

"O problema é grave e estabelece os princípios de uma sociedade que, rejeitando a natureza e, portanto, a criação, faz do ser humano o seu próprio criador, que escolhe a sua sexualidade e que organiza o seu modo de vida a partir dessas escolhas", escreveu em junho Dom Bernard Ginoux, bispo de Montauban, sobre os programas da SVT.

A termo "teoria" também é rejeitado: Dom Anatrella vê na "teoria de gênero um agenciamento conceitual que não tem nada a ver com a ciência; é só uma opinião". O argumento foi retomado por 80 deputados da UMP, que exigiram, no fim de agosto, a retirada dos manuais da SVT. Essas considerações levaram o mundo do ensino católico a pedir que um grupo de trabalho, formado pelo arcebispo de Rennes, Dom Pierre d"Ornellas, sobre os problemas da educação relacional, afetiva e sexual dos jovens, se ocupasse desse problema. Composto por teólogos, cientistas e professores, esse grupo deve fornecer, nas próximas semanas, instrumentos de apoio para os professores.

"Constatamos que muitos professores não estavam preparados para lidar com esses problemas", explica Dom D"Ornellas, especialista em questões de bioética. "Trata-se de fazer com que essa parte do programa respeite a dignidade das pessoas, especialmente dos jovens em formação, isto é, vulneráveis". "Não é a mesma coisa iniciar um ensino sobre os "gender studies" em Ciências Políticas para estudantes com mais de 20 anos – o que neste ano o Instituto de Estudos Políticos está fazendo – e abordar essa questão com adolescentes que não têm a mesma maturidade humana e psicológica", diz Jean Matos, responsável pela animação do grupo de trabalho.

Rejeitando qualquer "espírito de polêmica", Matos destaca o risco de que a inserção desse tema na SVT "reduza a questão da sexualidade à dimensão puramente biológica". "Os elementos referentes a esse tema teriam muito a ganhar se fossem abordados de modo mais sério e completo, transversal, especialmente na filosofia, na história, na literatura ou na arte". Esse convite  a uma maior multidisciplinaridade deveria ser um dos elementos de reflexão para os professores.

De modo mais radical, o deputado (UMP) de Saône-et-Loire, Jean-Marc Nesmes, declaradamente católico, se dirigiu à Comissão Interministerial de Luta e de Vigilância contra os Desvios Sectários. Para ele, esse problema se assemelha a um "desvio sectário", na medida em que "a iniciativa intelectual da ação dos promotores – da teoria do gênero – corre o risco de desestabilizar os jovens e os adolescentes e de alterar o seu desenvolvimento".

O que dizem os manuais de biologia da Première

Sejam quais forem as editoras, a diferença entre "identidade sexual" e "orientação sexual" ocupa pouco lugar (algumas linhas ou no máximo um parágrafo) nos livros didáticos. Ela aparece no capítulo "Tornar-se homem ou mulher".

"A sexualidade humana não se reduz apenas aos fatores biológicos", lê-se em um livro das edições Belin. "O contexto sociocultural influencia significativamente no comportamento sexual individual (...). No ser humano, existem dois aspectos complementares da sexualidade: a identidade sexual, que corresponde ao gênero (masculino ou feminino) e remete ao âmbito social, e a orientação sexual, que remete ao âmbito da intimidade da pessoa".

Em um livro das edições Hatier, está escrito: "Homens e mulheres também podem se diferenciar pelas características comportamentais. (...) A orientação sexual, que às vezes pode diferir da identidade sexual, não depende de características cromossômicas ou anatômicas, mas faz parte do âmbito da intimidade e das escolhas de vida. A heterossexualidade, a homossexualidade, a bissexualidade são orientações sexuais".

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