Em que a carta de Bento XVI sobre os abusos sexuais está errada. Artigo de Cathleen Kaveny

Revista ihu on-line

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Ontologias Anarquistas. Um pensamento para além do cânone

Edição: 543

Leia mais

Mais Lidos

  • O cardeal filipino Luis Antonio Tagle, a reforma da Igreja e o próximo pontificado

    LER MAIS
  • Bartomeu Melià: jesuíta e antropólogo evangelizado pelos guarani (1932-2019)

    LER MAIS
  • “30% dos eleitos para serem bispos rejeitam a nomeação”, revela cardeal Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

23 Maio 2019

“A intervenção de Bento XVI é irônica. Ele culpa os teólogos morais revisionistas pela crise, alegando que eles olham apenas para o motivo e as circunstâncias das ações humanas pecaminosas, em vez de se concentrarem na qualidade moral do próprio ato. Mas o próprio Bento é quem se recusa a olhar atentamente para os atos pecaminosos em questão aqui. Esse implacável defensor da existência de atos intrinsecamente maus se recusa a chamar esses atos pelo seu nome moral mais básico: estupro infantil.”

A opinião é da teóloga estadunidense Cathleen Kaveny, professora de Direito e Teologia no Boston College, nos Estados Unidos. O artigo foi publicado em Commonweal, 20-05-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O debate sobre a recente intervenção de Bento XVI sobre a crise dos abusos sexuais se concentrou na sua explicação para as suas raízes. Para o deleite dos conservadores e a consternação dos progressistas, ele culpa a frouxa moral sexual dos anos 1960 em vez do duradouro fenômeno do clericalismo.

Na minha opinião, o problema com a carta de Bento XVI é muito mais fundamental. E também transcende a brecha norte-americana entre progressistas e conservadores. Ele acha que a descrição moral básica dos atos de abuso sexual está errada. Ele os enquadra como atos de sacrilégio em vez de uma grave injustiça.

E daí? Bento claramente acha que essas ações são inaceitáveis – por que discutir sobre os detalhes? Porque os detalhes importam, teórica e praticamente. Se acharmos que a descrição de um malfeito é errada, não conseguiremos captar a realidade moral subjacente da situação. Isso, por sua vez, pode levar a estratégias desastrosas de reforma.

Qual é a descrição moral de base de um ato de abuso sexual clerical? É um terrível ato de injustiça contra pessoas vulneráveis, especialmente crianças? Se assim for, então os abusadores sexuais do clero pertencem à mesma categoria que outros que traíram a sua posição de autoridade dessa maneira: eles são como os professores, os líderes escoteiros e os profissionais da área médica sexualmente abusivos.

Negociando sobre o seu poder, eles infligiram danos físicos e psicológicos sobre as suas vítimas. Nessa perspectiva, o fato de o perpetrador ser um padre católico é uma circunstância que exacerba a ilicitude do ato, mas não muda a sua descrição moral central como um ato de grosseira injustiça.

Ou o abuso sexual do clero deveria ser entendido mais basicamente como um grave ato de sacrilégio? Se assim for, o abuso sexual do clero deveria ser agrupado com outros atos de sacrilégio, como a profanação da Hóstia, a blasfêmia contra a Mãe Santíssima e a prática de qualquer erro moral grave dentro de um lugar sagrado.

A partir dessa perspectiva, o fato de o perpetrador ser um padre não apenas exacerba o ato ilícito; mas também constitui o seu núcleo. O padre está sujando os seus votos sagrados. O fato de ele fazer isso abusando de uma criança aumenta o erro, mas não muda a sua descrição moral central – é um ato de sacrilégio, semelhante a celebrar uma “Missa Negra”.

Consequências perigosas

A carta de Bento XVI parece colocar o abuso sexual clerical na categoria do sacrilégio, e não da injustiça. Ele não usa o termo “sacrilégio”. Mas é a categoria que se encaixa melhor ao seu relato de por que o ato é errado, especialmente quando o sacrilégio é entendido amplamente como uma violação ou abuso do sagrado. Ele apresenta a própria Fé como a vítima principal – e não as crianças cuja integridade foi violada.

De acordo com Bento, a “situação alarmante” é que “a Fé não parece mais ter o grau de um bem que requer proteção”. O que mais o incomoda em relação a uma das vítimas humanas que ele encontrou é que ela não pode mais ouvir as palavras da consagração sem aflição, porque seu padre-agressor as usou durante o abuso. Ele não diz nada sobre como o abuso teria afetado todo o percurso da sua vida. Ele não faz um apelo vigoroso para proteger as crianças, mas, em vez disso, nos implora para que façamos “tudo o que estiver ao nosso alcance para proteger o dom da Santa Eucaristia do abuso”.

A abordagem de Bento tem consequências perigosas. Se a vítima real é a Fé, então a tarefa primordial é proteger a instituição da Igreja, que encarna o corpo místico de Cristo no tempo.

Se a pior consequência da crise é a perda generalizada da fé na credibilidade da Igreja, então é melhor lidar com reivindicações específicas em silêncio – a fim de não escandalizar os fiéis. Os padres ofensores deveriam ser rapidamente laicizados para que não continuem manchando o Corpo de Cristo. Uma vez que eles não façam mais parte da hierarquia, eles não são mais um problema da Igreja.

As vítimas deveriam ser encorajadas a ficar quietas, talvez com um acordo de confidencialidade juridicamente vinculante, para que não corroam a faculdade da Igreja de transmitir a fé. Elas devem ser desencorajadas a buscar indenizações monetárias da Igreja, uma vez que ela é a vítima original e principal da transgressão do padre.

Finalmente, a aplicação da lei secular não deveria ser envolvida na maioria dos casos, já que o seu envolvimento obstrui a natureza mística e transcendente do problema.

Ao enquadrar a ofensa básica como uma questão de sacrilégio, Bento reforça o roteiro desastroso que guiou a resposta da Igreja à crise dos abusos ao longo dos últimos 50 anos. Ele oferece um imponente fundamento teológico para proteger a instituição e não as vítimas. Ele não oferece um caminho limpo e bem iluminado para a reforma, mas sim um desvio de volta para a lama.

A intervenção de Bento é irônica. Ele culpa os teólogos morais revisionistas pela crise, alegando que eles olham apenas para o motivo e as circunstâncias das ações humanas pecaminosas, em vez de se concentrarem na qualidade moral do próprio ato. Mas o próprio Bento é quem se recusa a olhar atentamente para os atos pecaminosos em questão aqui. Esse implacável defensor da existência de atos intrinsecamente maus se recusa a chamar esses atos pelo seu nome moral mais básico: estupro infantil.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Em que a carta de Bento XVI sobre os abusos sexuais está errada. Artigo de Cathleen Kaveny - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV