Ratzinger reabilita Müller. No entanto, Papa Emérito é acusado de heresia

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08 Janeiro 2018

"Defendeste as claras tradições da fé, mas, no espírito do Papa Francisco, também tentaste compreender como podem ser vividas hoje".

É este o elogio que o "papa emérito", Bento XVI, dirigiu ao Cardeal Gerhard L. Müller, no prólogo de um volume publicado na Alemanha, por ocasião do 70º aniversário do cardeal e dos 40 anos de sua ordenação sacerdotal.

A reportagem é de Sandro Magister, publicada por Settimo Cielo, 02-01-2018. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

No dia 1º de julho do ano passado o Papa Francisco destituiu abruptamente Müller de seu posto como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, depois de ter demonstrado em mais de uma ocasião que não gostava de sua vigilância sobre a integridade doutrinal do ministério.

Mas não por isso ele precisa se render, escreve-lhe Joseph Ratzinger, agora. Porque, ainda que não tenha um cargo específico, "um sacerdote e, certamente, um bispo e um cardeal, nunca é simplesmente removido". Muito pelo contrário, "poderá continuar a servir a fé publicamente no futuro", sobretudo nestes "tempos confusos em que vivemos". Serviço que, efetivamente, Müller já está realizando.

Ratzinger reconhece o verdadeiro papel que seu amigo cardeal desenvolveu como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, combinando competência teológica com a "sabedoria" de quem "conhece bem a vida" da Igreja.

A este respeito, observa:

"Por exemplo, penso que na reforma litúrgica algumas coisas teriam sido diferentes se a última palavra não tivesse sido deixada para os especialistas, mas que também tivesse havido sabedoria no momento de julgar".

Poderiam ser citadas aqui algumas passagens significativas da "saudação" que Bento XVI dirigiu ao amigo cardeal no livro que lhe dedicou. Mas todo o texto merece ser lido.

Será possível notar que Ratzinger dedica um amplo espaço também para falar do seu trabalho como teólogo, citando autores como Karl Rahner e Bernard Häring, sobre os quais - assim como ele próprio - formaram gerações inteiras de teólogos e pastores.

No entanto, curiosamente, a publicação de suas memórias no livro em homenagem ao cardeal Müller coincidiu com um ataque teológico frontal, de uma dureza sem precedentes, precisamente contra a teologia de Ratzinger.

Por parte de quem e por quais razões, explicaremos ao final desta postagem, após o elogio de Ratzinger a Müller.

*

Uma palavra de saudação

pelo Papa Emérito Bento XVI

Eminência! Querido irmão!

Teu aniversário de 70 anos se aproxima e, embora eu já não possa escrever uma contribuição científica verdadeira e apropriada para o livro dedicado à sua honra, nesta ocasião, gostaria de participar com uma palavra de saudação e gratidão.

Passaram-se 22 anos desde que me presenteaste, em março de 1995, com o teu "Katholische Dogmatik für Studium und Praxis der Theologie". Foi para mim um sinal encorajador, indicando que na geração de teólogos pós-conciliares também havia pensadores que tinham a coragem de lutar por integridade, representando a fé da Igreja com unidade e totalidade. Embora seja verdade a importância de uma investigação teológica detalhada, não é menos importante o fato de que a fé da Igreja seja percebida por sua unidade interna, completa, e que, portanto, seja visível também toda a simplicidade de sua fé, apesar das complexas reflexões teológicas. Porque a sensação de que a Igreja nos impõe um pacote de coisas incompreensíveis, que interessam apenas aos especialistas, é um enorme obstáculo para que digamos "sim" a Deus que nos fala através de Jesus Cristo. Na minha opinião, uma pessoa se torna um grande teólogo não quando se ocupa de detalhes refinados e intrincados, mas quando é capaz de representar a unidade e a simplicidade final da fé.

O teu "Dogmatik", em um único volume, também tocou-me por uma razão autobiográfica. Karl Rahner havia apresentado no primeiro volume de seus escritos um projeto para uma estrutura renovada da dogmática que havia elaborado junto a Hans Urs von Balthasar. Naturalmente, isso havia provocado em todos nós uma grande sede de ver este esquema concluído.

O desejo que surgia por todo o mundo de uma dogmática Rahner-Balthasar se juntou, ainda, a uma operação editorial. Nos anos cinquenta, Erich Wewel havia convencido o Padre Bernard Häring a escrever um texto de teologia moral em um único volume, que se tornou um grande sucesso quando foi publicado; após o qual este competente editor surgiu com a ideia de que algo assim deveria ser realizado no campo da dogmática, e que uma obra completa escrita pela mesma mão correspondia a uma necessidade real. Obviamente, dirigiu-se a Karl Rahner e lhe pediu que escrevesse este livro. Mas Rahner tinha tantos compromissos naquela época que não pôde liberar-se para uma empresa tão grande.

Estranhamente o editor se dirigiu a mim, que estava no início de minha carreira e ensinava teologia dogmática e fundamental em Freising. Mas, infelizmente, embora eu estivesse no início de minha caminhada, eu também estava ocupado com muitas atividades e não me senti capaz de escrever tal obra em um tempo que fosse aceitável. Por isso perguntei se poderia convidar um co-autor, um amigo meu, o Padre Alois Grillmeier. Colaborei no projeto tanto quanto possível e nos reunimos em diversas ocasiões com o Padre Grillmeier, para amplas consultas.

Mas o Concílio Vaticano II ocupava, naquele momento, todas as minhas forças e impôs uma profunda reformulação de toda a apresentação da doutrina tradicional da Igreja. Quando fui nomeado arcebispo de Munique e Freising, em 1977, estava claro que eu não poderia me dedicar a esse trabalho. Mas quando em 1995 chegou em minhas mãos o seu livro, vi de repente, em uma obra realizada por um teólogo da geração seguinte, o que eu queria ter feito, mas que não havia podido.

Pude conhecer-te pessoalmente quando a Conferência Episcopal Alemã lhe propôs como membro da Comissão Teológica Internacional, na qual te destacaste de maneira particular por tua grande competência e total fidelidade à fé da Igreja. Quando em 2012 o Cardeal Levada, por conta de sua idade, renunciou ao cargo como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, fostes considerado, depois de fazer todas as avaliações, como o bispo mais adequado para assumir esta tarefa.

Quando assumi esta posição em 1981, o Arcebispo Hamer - então secretário da Congregação para a Doutrina da Fé - explicou-me que o prefeito não deveria ser necessariamente um teólogo, mas um homem sábio que, ao estar por dentro das questões teológicas, não formulasse seus próprios julgamentos de especialista, mas que deveria antes compreender o que havia de ser feito pela Igreja em um determinado momento. A competência teológica deveria ficar a cargo do secretário, que dirige a "consulta", a assembleia de teólogos peritos que, em conjunto, fazem um julgamento científico correto. Mas como na política, a decisão final não pode ser tomada pelos especialistas, mas pelos sábios que, além de ter familiaridade com o lado técnico, conhecem toda a vida de uma grande comunidade. Durante meus anos de trabalho tentei responder a esse padrão. Se consegui, é algo que os outros deverão julgar.

Nos tempos confusos em que vivemos agora, a convivência entre o conhecimento técnico e a sabedoria sobre o que, em última análise, é decisivo, parece-me particularmente importante. Penso, por exemplo, que na reforma litúrgica algumas coisas teriam sido diferentes caso a última palavra não tivesse sido deixada para os especialistas, mas se tivesse havido mais sabedoria ao julgar, o que seria o reconhecimento dos limites do mero homem de estudos.

Durante seus anos romanos, te comprometeste sempre a trabalhar não apenas como estudioso, mas como sábio, como padre na Igreja. Defendeste as claras tradições da fé, mas, no espírito do Papa Francisco, também tentaste compreender como podem ser vividas hoje.

O Papa Paulo VI queria que os mais altos cargos da Cúria - os de prefeito e secretário - fossem sempre atribuídos por no máximo cinco anos, a fim de proteger a liberdade do Papa e da mobilidade do trabalho curial. Teu mandato de cinco anos para a congregação da fé chegou ao fim, e por isso agora não tens um cargo específico; mas um sacerdote e, certamente, um bispo e um cardeal, nunca é simplesmente removido. Por esta razão, poderás continuar servindo a fé publicamente no futuro, com base na tua inspiração interior, tua missão sacerdotal e teu carisma teológico. Estamos todos felizes porque com a tua grande responsabilidade interior e o dom da Palavra com que fostes concebido, seguirás presente na luta do nosso tempo pela correta compreensão do ser humano e do ser cristão. Que o Senhor te ajude nisto.

Para concluir, quero expressar-te um agradecimento muito pessoal. Como bispo de Regensburg fundaste o "Institut Papst Benedikt XVI" que, guiado por um dos teus alunos, realiza um trabalho verdadeiramente excepcional para manter o meu trabalho teológico disponível ao público como um todo. O Senhor te recompensará pelo teu esforço.

Cidade do Vaticano, Mosteiro "Mater Ecclesiae",
na festa de Santo Inácio de Loyola, em 2017.
Teu, Bento XVI

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O ataque a Ratzinger como teólogo, nos últimos dias, pode ser lido em um livro recém-publicado, cujo autor é Enrico Maria Radaelli, conhecido como o discípulo mais fiel de Romano Amerio (1905-1997), o filósofo suíço que, em 1985, publicou em "Iota Unum" a acusação mais estruturada e argumentada contra a Igreja Católica da segunda metade do século XIX, por ter subvertido os fundamentos da doutrina em nome do subjetivismo moderno.

O livro de Radaelli é intitulado de "Al cuore di Ratzinger. Al cuore del mondo" e foi publicado "pro manuscripto" por Aurea Domus, a editora de propriedade do autor, pela qual é possível encomendar o livro via e-mail, ou adquirindo-o em algumas livrarias de Roma e Milão.

O que levou Radaelli a tomar a decisão de acusar a teologia de Ratzinger de ser subversiva foi a leitura e a análise de sua obra teológica mais conhecida e lida: a "Introdução ao Cristianismo", que foi publicada pela primeira vez em 1968 e que, até agora, teve várias edições e foi traduzida em diversas línguas.

No entanto, o que mais causa assombro é que Radaelli não se viu apenas no trabalho de demolir a abordagem teológica de Ratzinger; na verdade, ele recebeu apoio imediato de um teólogo e filósofo dos mais condecorados, o Monsenhor Antonio Livi, decano emérito da Faculdade de Filosofia da Pontifícia Universidade Lateranense, acadêmico pontifício e presidente da International Science and Commonsense Association.

Na verdade, Livi também sustenta que Ratzinger têm contribuído poderosamente para a ascensão de sua teologia ao poder, ou seja, para um papel cada vez mais hegemônico nos seminários, ateneus pontifícios, comissões doutrinárias, dicastérios da Cúria e nos graus mais elevados da hierarquia até chegar ao papado, do que ele chama de "a teologia modernista com a sua evidente derivação herética".

Não é necessário resumir aqui os argumentos apresentados por Radaelli em sua crítica contra Ratzinger como teólogo e depois como Papa.

Desse texto pode ser deduzido que Francisco não é o único Papa que hoje em dia é objeto de uma "correctio" por heresia, porque tampouco seu antecessor "emérito" está isento.

Ambos, Radaelli e Livi, estão entre os primeiros signatários da "correctio" dirigida ao Papa Francisco no verão passado. E agora também desta contra Bento XVI.

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Enquanto isso, a interminável controvérsia sobre a aplicação da "Amoris laetitia", a favor ou contra a comunhão dos divorciados que voltaram a se casar e convivem "more uxorio", enriquece-se a partir de hoje, dia 02 de janeiro, com uma nova intervenção pública, obra de três bispos.

Como se pode intuir pelo título, é uma intervenção fortemente contrária a qualquer mudança na doutrina e na disciplina da Igreja tradicional.

Três bispos do Cazaquistão assinaram:

- Tomash Peta, Arcebispo Metropolitano da Arquidiocese de Maria Santíssima, em Astana;

- Jan Pawel Lenga, Arcebispo-Bispo emérito de Karaganda;

- Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Maria Santíssima, em Astana.

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