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Por: André | 21 Março 2016

Não na cátedra de bispo de Roma, mas na de professor de teologia. Uma inesperada aula do Papa emérito sobre as questões fundamentais do pensamento cristão atual.

A reportagem é de Sandro Magister e publicada por Chiesa.it, 18-03-2016. A tradução é de André Langer.

O texto de Joseph Ratzinger, do qual mais abaixo reproduzimos as passagens mais relevantes, não é inédito. Foi lido por seu secretário, Georg Gänswein, durante um congresso organizado em Roma pelos jesuítas da reitoria da igreja do Gesù, entre os dias 8 e 10 de outubro de 2015, momento em que no Vaticano estava sendo realizado o Sínodo sobre a Família.

Mas até dois dias atrás pouquíssimas pessoas conheciam este texto, em forma de entrevista. Agora está para sair em um livro que recolhe as intervenções desse congresso. Na quarta-feira, 16 de março, o jornal Avvenire antecipou amplas passagens, revelando também o nome do entrevistador. Poucas horas depois, o jornal L’Osservatore Romano o publicou na íntegra. (A íntegra, em português, pode ser lida clicando aqui.)

O tema do congresso era típico da Companhia de Jesus: “Por meio da fé. Doutrina da justificação e experiência de Deus na pregação da Igreja e nos Exercícios Espirituais”. Jesuíta era também o entrevistador, Jacques Servais, belga, discípulo do grande teólogo Hans Urs von Balthasar.

Ratzinger inspirou-se no tema para abordar as questões capitais do pensamento cristão atual, partindo do que ele define como “drásticas mudanças da nossa fé” e “profunda evolução do dogma”, com as consequentes “crises” dramáticas. Ele não hesitou em liquidar, como “inteiramente equivocada”, à luz da teologia trinitária, uma tese que modelou durante séculos a pregação da Igreja, aquela segundo a qual “Cristo deve morrer na cruz para reparar a ofensa infinita que se fez a Deus e restabelecer, assim, a ordem infringida”.

Ratzinger também teve palavras esclarecedoras sobre o binômio justiça/misericórdia, com uma brevíssima referência ao Papa Francisco, da qual os aduladores do atual pontífice tiraram partido. Mas eles foram rapidamente silenciados pelo L’Osservatore Romano que, em uma nota à margem, rejeitou “a interpretação jornalística” que reduz a entrevista a “um apoio oferecido pelo Papa emérito a um ‘partido’ da misericórdia”.

Seguem as três passagens mais importantes deste texto, que é o texto mais amplo já escrito por Ratzinger desde que renunciou ao papado.

O texto, originalmente em alemão, foi publicado em italiano, traduzido pelo próprio entrevistador e revisado no final pelo próprio Papa emérito.

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Bastam 10 justos para que toda a cidade seja salva, por Joseph Ratzinger

O mistério do mal e o antídoto da misericórdia

Para o homem de hoje, em relação à época de Lutero e à perspectiva clássica da fé cristã, as coisas, de certo modo, se inverteram; ou seja, já não é o homem que acredita que tem necessidade da justificação aos olhos de Deus, mas é Deus que deve justificar-se por todas as coisas horríveis que há no mundo e pela miséria do ser humano. Coisas, todas elas, que em última instância dependeriam dele.

A este respeito, creio que é revelador o fato de que um teólogo católico assuma, inclusive de uma maneira direta e formal, esta inversão: Cristo não teria sofrido pelos pecados dos homens, mas que, ao contrário, por assim dizer, teria apagado as culpas de Deus. Mesmo que agora a maior parte dos cristãos não compartilhe uma inversão tão drástica da nossa fé, pode-se dizer que tudo isto faz surgir uma tendência de fundo de nosso tempo. [...]

No entanto, na minha opinião, segue existindo, embora de outra maneira, a percepção de que necessitamos da graça e do perdão. Para mim, é um “sinal dos tempos” o fato de que a ideia da misericórdia de Deus esteja no centro e domine cada vez mais. [...] O Papa João Paulo II estava profundamente impregnado deste impulso, embora talvez não emergisse de maneira explícita. [...] Apenas onde há misericórdia acabam a crueldade, o mal e a violência.

O Papa Francisco está completamente de acordo com esta linha. Sua prática pastoral expressa-se, precisamente, no fato de que ele fala continuamente da misericórdia de Deus.

É a misericórdia que nos move para Deus, ao passo que a justiça, em sua presença, nos dá medo. Na minha opinião, isto evidencia que sob o verniz de sua segurança e em sua própria justiça, o homem de hoje dissimula um profundo conhecimento de suas feridas e sua indignidade perante Deus. E espera a misericórdia. Certamente, não é por acaso que a parábola do bom samaritano seja a mais atraente para o homem contemporâneo.

Também Deus Pai sofre, por amor

A contraposição entre o Pai, que insiste absolutamente na justiça, e o Filho, que obedece ao Pai e aceita, por sua obediência, a cruel exigência da justiça, não apenas é incompreensível em nossos dias, mas a partir da teologia trinitária é, em si, inteiramente equivocada.

O Pai e o Filho são uma só coisa; por conseguinte, eles têm, “ab intriseco”, uma só vontade. Quando o Filho, no Horto das Oliveiras, luta com a vontade do Pai não é porque deva aceitar para si uma cruel decisão de Deus, mas pelo desejo de atrair a humanidade para o interior da vontade de Deus. [...]

Mas, então, por que a cruz e a expiação? [...] Coloquemo-nos diante da incrível e repugnante quantidade de mal, de violência, de mentira, de ódio, de crueldade e de soberba que infectam e destroem o mundo inteiro. Todo este mal não pode, simplesmente, ser declarado inexistente; nem sequer por parte de Deus. Deve ser depurado, reelaborado e superado.

Israel, na Antiguidade, estava convencido de que o sacrifício diário pelos pecados e, sobretudo, a grande liturgia do dia da expiação – o yom kippur – eram necessários como contrapeso a todo o mal presente no mundo e que somente mediante este reequilíbrio o mundo podia, por assim dizer, ser suportável. Mas após o desaparecimento dos sacrifícios no templo, tiveram que se perguntar o que contrapor aos poderes do mal, que eram muito superiores, e como podiam encontrar, de alguma maneira, um contrapeso.

Os cristãos sabiam que o templo que tinha sido destruído tinha sido substituído pelo corpo ressuscitado do Senhor crucificado e que seu amor radical e incomensurável era o contrapeso à incomensurável presença do mal. Sabiam que Cristo crucificado e ressuscitado é um poder que pode se opor ao poder do mal e que salva o mundo. E sobre este fundamento eles também puderam compreender o sentido dos seus próprios sofrimentos; esses eram inseridos no amor sofredor de Cristo e que fazem parte do poder redentor deste amor.

Já citei, há pouco, esse teólogo para quem Deus teve que sofrer por causa das suas culpas que cometeu em relação ao mundo. Agora, em consequência desta mudança de perspectiva, emerge esta verdade: Deus, simplesmente, não pode deixar como está todo este mal que deriva da liberdade que Ele mesmo concedeu. Só Ele, que veio para fazer parte do sofrimento do mundo, pode redimi-lo.

Sobre esta base, a relação entre o Pai e o Filho é mais perceptível. Reproduzo aqui a passagem do livro de Henri de Lubac sobre Orígenes que, na minha opinião, é muito clara a respeito deste tema:

“O Redentor entrou no mundo por compaixão pelo gênero humano. Tomou sobre si as nossas ‘paixões’ antes mesmo de ser crucificado... Mas, qual foi o sofrimento que ele suportou antecipadamente por nós? Foi a paixão do amor. Mas o próprio Pai, o Deus do universo, aquele que é a superabundância da longanimidade, da paciência, da misericórdia e da compaixão, em um certo sentido não sofre também? O próprio Pai não está isento de paixões! Se o invocamos Ele sente misericórdia e compaixão. Ele percebe um sofrimento de amor.”

Em algumas regiões da Alemanha havia uma devoção muito comovedora que contemplava a “die Not Gottes”, a indigência de Deus. A imagem do “trono de graça” também faz parte desta devoção: o Pai sustenta a cruz e o crucificado e se inclina amorosamente sobre ele para, desta maneira, estar com ele na cruz.

Assim, de uma maneira grandiosa e pura se percebe ali o que significam a misericórdia de Deus e a participação de Deus no sofrimento do homem. Não se trata de uma justiça cruel, do fanatismo do Pai, mas da verdade e da realidade da Criação: da verdadeira e íntima superação do mal que, em última instância, só pode se realizar no sofrimento do amor.

Fé cristã e salvação dos infiéis

Não há dúvida de que, no que diz respeito a este ponto, estamos diante de uma profunda evolução do dogma. [...] Se é verdade que os grandes missionários do século XVI estavam convencidos de que quem não estava batizado estava perdido para sempre – e isso explica o seu compromisso missionário –, depois do Concílio Vaticano II esta convicção foi abandonada definitivamente na Igreja católica.

Deriva disto uma dupla e profunda crise. Por um lado, isto parece suprimir qualquer tipo de motivação por um futuro compromisso missionário. Por que se deveria tentar convencer as pessoas para que aceitem a fé cristã quando podem salvar-se também sem ela?

Mas, também aos cristãos colocou-se uma questão: o caráter obrigatório da fé e sua forma de vida passou a ser incerto e problemático. No final das contas, se há quem pode se salvar também de outros modos já não está tão claro por que o cristão tem que estar vinculado às exigências da fé cristã e à sua moral. Se a fé e a salvação já não são interdependentes, também a fé perde a sua motivação.

Nos últimos tempos, foram realizadas diversas tentativas com o objetivo de conciliar a necessidade universal da fé cristã com a possibilidade de salvar-se sem ela.

Recordarei duas: em primeiro lugar, a conhecida tese dos cristãos anônimos de Karl Rahner. [...] É verdade que esta teoria é fascinante, mas reduz o cristianismo a uma pura e consciente apresentação do que o ser humano é em si e, por conseguinte, negligencia o drama da mudança e da renovação, que é fundamental no cristianismo.

Menos aceitável ainda é a solução proposta pelas teorias pluralistas da religião, segundo as quais todas as religiões, cada uma à sua maneira, seriam vias de salvação e, neste sentido, equivalentes entre si. A crítica da religião, assim como ela foi praticada pelo Antigo Testamento, pelo Novo Testamento e pela Igreja primitiva é essencialmente mais realista, mais concreta e mais verdadeira em sua análise das diferentes religiões. Uma aceitação tão simplista não é proporcional à grandeza da questão.

Pensamos particularmente em Henri de Lubac e, ao mesmo tempo, em outros teólogos, que insistiram no conceito de substituição vicária. [...] Cristo, sendo único, era e é para todos: e os cristãos – que na grandiosa imagem de Paulo constituem seu corpo neste mundo – participam deste “ser para”. Para dizer com clareza, não se é cristão para si mesmo, mas com Cristo, para os outros.

Isto significa possuir um ingresso especial para entrar na bem-aventurança eterna, mas com a vocação para construir o conjunto, o todo. O que a pessoa humana necessita na ordem da salvação é a íntima abertura para Deus, a íntima expectativa e adesão a Ele e isto significa, em sentido inverso, que nós vamos, junto com o Senhor que encontramos, ao encontro dos outros e tentamos tornar visível para eles o acontecimento de Deus em Cristo. [...]

Penso que, na situação atual, torna-se cada vez mais claro e compreensível, para nós, o que o Senhor disse a Abraão, ou seja, que teriam bastado dez justos para que a cidade sobrevivesse, mas que ela se destruiria a si mesma caso este número tão pequeno não fosse alcançado. Está claro que devemos refletir mais sobre toda esta questão.

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