O Papa em diálogo com a CEI, preocupam os nacionalismos e a Europa do medo

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22 Mai 2019

O nome não chegou a ser explicitamente pronunciado, mas o ministro Matteo Salvini foi o convidado de pedra no diálogo a portas fechadas entre o Papa e os bispos da CEI no Vaticano. Alusões e referências a temas como o fechamento aos migrantes, os sentimentos de nacionalismos e populismos, prelúdio dos totalitarismos, a exploração da religião e dos valores cristãos, estiveram no centro das 12-13 perguntas que os bispos italianos dirigiram ao Papa. E Francisco respondeu "com naturalidade", "como pastor" e "sem entrar no mérito das questões políticas", explicam alguns bispos ao Vatican Insider.

A reportagem é de Francesco Peloso, publicada por Vatican Insider, 21-05-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Nem mesmo um aceno aos eventos da tarde de sábado em Milão, onde no comício do vice premier também foram ouvidos apupos contra o Pontífice. Sobre esse ponto - definido como "uma vergonha" por vários membro da CEI – se registram apenas as palavras de encorajamento do Cardeal Presidente Gualtiero Bassetti: "Santidade, estamos perto do senhor e reiteramos nosso apoio neste momento em que sopram ventos contrários".

Bergoglio assentiu e pediu aos bispos um diálogo franco, mas, acima de tudo, breve, porque ele tinha dois compromissos na agenda. De fato, a conversa, comparada com as três horas do ano passado, durou pouco mais de uma hora e meia.

A Europa, em particular, foi um dos temas centrais abordados pelo Papa, em vista das eleições do próximo domingo. Devemos "salvar a comunidade europeia", exortou o Pontífice, reclamando desta Europa "fechada", na qual o medo está sendo semeado por toda parte. Estejamos atentos, advertiu ele, reiterando uma advertência já expressa em várias ocasiões, pois ao continuar na estrada da defesa das fronteiras e da identidade de uma nação, arrisca-se acabar como em 1933 na Alemanha, com a ascensão de Adolf Hitler no poder e o começo do Terceiro Reich.

Para o Papa, o que hoje está "faltando" no velho continente é o diálogo, enquanto é um verdadeiro "escândalo" ver esses "corações fechados" em relação aos refugiados. "Acolher", reiterou Francisco, porque um continente que se fecha corre o risco de morrer. No entanto, foi "integrar" a palavra que o Papa repetiu várias vezes em resposta às perguntas dos pastores, alguns dos quais - especialmente do sul da Itália - tiveram uma espécie de desabafo com o Pontífice perguntando-lhe como agir diante das emergências migratórias.

Integrar”, porque senão se volta ao começo. O Papa Francisco explicou que é dever de cada bispo tratar dessas situações delicadas, com base também nas forças e nas exigências de cada diocese, mas que, como Igreja italiana, é preciso dar um sinal de abertura. Certamente, então, afirmou ele, cabe também à Europa encontrar uma maneira de redistribuir esse enorme fluxo de pessoas.

Um bispo perguntou se era o caso de identificar uma "voz única como episcopado" que pudesse intervir e coordenar a questão dos migrantes. Mas esta seria uma solução complexa, que abriria muitos outros cenários. Talvez seja possível falar sobre isso amanhã de manhã depois do discurso do cardeal Bassetti. Na ocasião, durante as apresentações dos bispos, serão abordadas questões mais "internas" à Conferência episcopal. Mesmo assim, um bispo do sul acabou dizendo que precisava tirar uma pedrinha do sapato: "O ministro Salvini disse que existem tantos bispos e cardeais italianos que dizem a ele ‘continue em frente, continue assim’, mas não conte isso por aí. Pois bem, eu gostaria de saber quem são, por uma questão de transparência e também para entender como pode ser possível dar apoio a determinadas políticas”.

Questões marginais, como mencionado. No diálogo com o Papa, alguns temas foram deixados do lado de fora da porta e um amplo espaço foi dado, naturalmente, às problemáticas eclesiais. Uma especialmente: os tribunais diocesanos. "O Santo Padre não quer tribunais regionais, mas que cada diocese tenha o seu próprio", explica um monsenhor bem rapidamente. E para as dioceses que não tiverem capacidade para instituí-lo? "Serão constituídos tribunais inter-diocesanos".

O Papa também abordou o problema dos abusos, à luz do motu proprio de 9 de maio "Vos estis lux mundi" ("Vós sois a luz do mundo"). Com este documento, caminha-se em direção à "verdade" e à seriedade das medidas contra aqueles que cometeram erros, disse ele, porém sem ser impiedoso. Aliás, o Papa recomendou aos bispos que é preciso prestar atenção às denúncias anônimas: "É melhor jogá-las no lixo". Qualquer informação contra os sacerdotes deve ser avaliada e verificada antes de prosseguir.

Com a mesma firmeza, o Pontífice pediu aos pastores para serem dignos desse nome, para "acompanhar" os fiéis, especialmente os jovens, para serem "concretos" em suas intervenções no social, para serem "pais", especialmente com os presbíteros, porque "não há Igreja sem o bispo". E a Igreja deve ser missionária, não "sentada", acrescentou o Pontífice, focando na "sinodalidade" e na "colegialidade". É precisamente em virtude deste último ponto que o discurso retornou sobre a unificação das dioceses, que ainda causa perplexidade em alguns bispos. Para o Papa, é um processo que deve ser realizado "gradualmente", começando-o "de baixo", isto é, entre os próprios bispos, em harmonia.

Várias vezes as palavras do bispo de Roma foram interrompidas por aplausos. A maioria dos presentes relata um clima "sereno e fraterno". E pensar que o discurso público do Pontífice tinha parecido quase uma "repreensão" à Conferência episcopal. "Mas não, são vocês jornalistas que leem as coisas deste modo", brincou um jovem bispo. "O Santo Padre fala conosco da mesma forma que nós falamos com nossos sacerdotes, se houver falhas, devem ser ressaltadas".

Apesar de seus compromissos, Francisco por fim quis despedir-se dos presentes um por um. Então, ao sair no átrio da Sala Paulo VI, depois de uma breve troca de palavras com o cardeal Bassetti, encaminhou-se sozinho para Santa Marta, desafiando o vento quase invernal deste estranho maio romano.

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