Francisco: "Que a ternura da Igreja seja antídoto para a cultura do insulto". As reflexões do Papa sobre a viagem à Bulgária e Macedônia

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08 Mai 2019

Ele afirma ter se emocionado quando descobriu a "ternura da Igreja", um "antídoto contra a cultura do insulto". Todo mundo "fala mal do vizinho, calunia, difama", explica ele. Enquanto na Bulgária e na Macedônia a Igreja, com sua ternura, acolhe os "pobres" e os "descartados". Francisco fala com os jornalistas no voo de volta de sua vigésima nona viagem internacional, desta vez na terra dos Bálcãs, e depois de recordar a figura recém desaparecida de Jean Vanier, fundador do Arche, hoje difundido em 38 países, uma vida dedicada aos portadores de deficiência - "um homem que soube ler a eficiência cristã do mistério da morte, da cruz, da doença, do mistério daqueles que são desprezados e descartados no mundo" - fala de improviso sobre "algumas experiências-limite vividas nestes três dias", nos quais ele encontrou consolo.

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada por La Repubblica, 07-05-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Uma delas foi a experiência com os pobres da Macedônia, no Memorial de Madre Teresa de Calcutá. Com tantos pobres, ele relata: "eu vi a gentileza das irmãs e da Igreja: cuidam os pobres sem paternalismo, como se fossem seus filhos, com mansidão e capacidade de acariciar com ternura. Hoje estamos acostumados a nos insultar, o político insulta o outro, o vizinho insulta seu vizinho, por isso mesmo nas famílias há divisões. Eu não sei se existe uma cultura de insulto, mas é certamente uma arma em nossas mãos. Até mesmo falar mal dos outros, a calúnia, a difamação ... Enquanto ver essas freiras se curvando sobre cada pessoa como se fosse Jesus ... Então eu fiquei impressionado por um jovem que me foi apresentado. Uma freira me disse: 'Bebe demais'. Ela disse isso com a ternura de uma mãe. Isso me fez sentir que a Igreja é mãe. Uma das coisas mais belas é encontrar a maternidade da Igreja. Depois outra experiência foi a primeira comunhão celebrada na Bulgária. Fiquei emocionado porque a memória foi para a minha primeira comunhão em 8 de outubro de 1944. Nós cantamos 'Santo altar guardado pelos anjos'. Eu vi aquelas crianças que se abrem para a vida com uma decisão sacramental, a Igreja cuida as crianças, são limite, devem crescer, são promessa, vivenciei isso intensamente. Ouvi dizer que aquelas 249 crianças são o futuro da Bulgária e da Igreja ".

Eis a entrevista.

Qual é a sua impressão sobre a Bulgária e a Macedônia? O que vai lembrar quando voltar para casa?

São duas nações totalmente diferentes. A Bulgária tem uma tradição secular, a Macedônia também tem uma tradição, mas não como um país, mas como povo que conseguiu perfeitamente se constituir como nação com uma bela luta. Para nós, cristãos, a Macedônia é o símbolo da entrada do cristianismo no Ocidente: entrou no Ocidente através do macedônio que apareceu em sonho a São Paulo: "Venha entre nós". Ele estava indo para a Ásia. Esse chamado foi um mistério. O povo macedônio se orgulha disso e não perde a oportunidade de dizer que o cristianismo entrou através do apelo do macedônio feito a Paulo.

A Bulgária teve que lutar tanto por sua identidade como nação. Em 1823, 200.000 soldados russos morreram! Vamos pensar no que 200 mil pessoas significam, tantas lutas, tanto sangue, tanta mística para encontrar a consolidação da identidade. A Macedônia tinha uma identidade e agora a consolidou como povo. Mesmo com pequenos e grandes problemas, como a questão do nome. Ambas são comunidades cristãs ortodoxas, católicas e muçulmanas. O percentual ortodoxo é forte em ambos os países, depois os muçulmanos, poucos os católicos. Eu vi boas relações entre os diferentes credos.

Na Bulgária, vimos uma oração pela paz, foi uma coisa normal para os búlgaros, porque eles têm boas relações. Cada um tem o direito de expressar sua religião e ser respeitado.

Fiquei impressionado com uma frase do presidente da Macedônia: aqui não há tolerância religiosa, há respeito. Eles se respeitam em um mundo onde o respeito está faltando tanto.

Onde encontra a força em seu corpo e seu espírito para ficar diante de tantas crianças doentes?

Eu não frequento nenhuma bruxa, hein! Eu realmente não sei. É um dom do Senhor. Quando estou em um país, esqueço tudo, mas não porque quero esquecer. Apenas esqueço e estou ali. Tudo isso me dá perseverança. Nas viagens, não fico cansado, depois fico cansado, depois. O Senhor me dá força, não há explicação. Peço para ser fiel e servi-lo no trabalho das viagens, que não é turismo”.

As Igrejas nacionais ortodoxas nem sempre estão em harmonia entre si, mas quando precisam criticar a Igreja católica, estão unidas. Por exemplo, não querem a canonização do cardeal Stepinac. O que pensa?

Em geral, as relações são boas. Posso sinceramente dizer-lhes que encontrei entre os patriarcas homens de Deus. Neofit é um homem de Deus, Elias da Geórgia, que carrego no coração, é um homem de Deus, e assim Bartolomeu, Kirill ... São os grandes patriarcas que dão testemunho. Todos nós temos defeitos, mas eu encontrei nos patriarcas irmãos que eu gostaria de dizer santos, homens de Deus. Há eventos históricos de nossas Igrejas, alguns antigos, por exemplo hoje o presidente me falava sobre o cisma do ocidente iniciado na Macedônia. Agora o Papa vem pela primeira vez para recosturar o cisma... não sei, mas para dizer que devemos ser irmãos porque não podemos doar a Santíssima Trindade sem permanecermos unidos como irmãos.

Depois, há um ponto histórico: a canonização do cardeal Alojzije Stepinac, arcebispo de Zagreb. Ele é um homem virtuoso, e é por isso que a Igreja o declarou beato. Pode-se rezar a ele, mas em algum momento do processo de canonização, surgiram pontos históricos pouco claros. Eu rezei e refleti e vi que tinha que pedir ajuda a Irineu, o grande patriarca. Fizemos juntos uma Comissão histórica e, tanto a Irineu quanto a mim, interessa a verdade. Uma declaração de santidade é necessária se não estiver clara. E estamos estudando. Não tenho medo da verdade, tenho medo do juízo de Deus.

Na Bulgária, visitou uma comunidade ortodoxa que continuava a tradição de ordenar mulheres diaconisas. Daqui a poucos dias, vei se encontrar com a União Internacional das Superioras Gerais, que há três anos pediu uma Comissão de estudo sobre o assunto. Existe alguma decisão à vista?

A Comissão foi criada e trabalhou por alguns anos. Eram todas pessoas diferentes, todos "sapos de diferentes poços", todos pensavam diferente, mas trabalhavam juntos e chegaram a um acordo só em certa medida. Todo mundo tem sua própria visão, que não concorda com a dos outros. Eles pararam em um ponto e todo mundo está estudando para ver como seguir em frente.

Havia diaconisas no começo, mas era uma ordenação sacramental ou não? Discute-se, mas não está claro. Elas ajudavam na liturgia, nos batismos, nas unções, eram chamadas pelo bispo quando havia uma briga matrimonial ou uma separação, ou quando uma mulher acusava o marido de bater nela. Mas não há certeza de que fosse uma ordenação com a mesma forma e propósito daquela masculina. Alguns dizem: a dúvida existe. Continuamos estudando para dar uma resposta definitiva, um sim ou um não. Não tenho medo do estudo, mas até agora não está indo à frente.

É curioso que as diaconisas fossem quase sempre da mesma área geográfica, especialmente da Síria ... em outros lugares menos. Uma coisa interessante: alguns teólogos de trinta anos atrás disseram que não havia diaconisas porque as mulheres estavam em segundo plano na Igreja e não apenas na Igreja. Mas é curioso: naquela época, ao contrário, havia tantas sacerdotisas pagãs, nos cultos pagãos o sacerdócio feminino era comum. Entende-se que, sendo esse sacerdócio feminino pagão, não existisse no cristianismo.

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