Bartolomeu no Vaticano: uma agenda comum contra o individualismo

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28 Maio 2018

“Bom dia, Santidade”. “Bom dia, vejo que está melhor”. Entre Francisco e Bartolomeu há confiança; os gestos são os de dois irmãos que voltam a se encontrar depois de não muito tempo: sorrisos, abraços, brincadeiras sobre a saúde do Patriarca (que foi hospitalizado no último dia 6 de maio no American Hospital de Constantinopla devido a uma série de tonturas, provavelmente devido à vertigem).

A reportagem é de Salvatore Cernuzio, publicada por Vatican Insider, 26-05-2018. A tradução é de André Langer.

O “feeling” entre o papa e o primaz ortodoxo, sucessores dos apóstolos Pedro e André, se estabeleceu muito antes do encontro do sábado de manhã no Vaticano. O Patriarca participou da Conferência Internacional sobre Novas políticas e estilos de vida na era digital”, promovida pela Fundação Centesimus Annus pro Pontifice, pelos seus 25 anos de existência. Desde o início deste Pontificado, em 19 de março de 2013 (quando um patriarca ortodoxo visitou a Praça São Pedro pela primeira vez), os dois já se encontraram várias vezes, em Jerusalém, Istambul, Assis, Roma, e viajaram juntos para Lesbos, para visitar os refugiados do campo de Moira. Francisco e Bartolomeu compartilharam etapas inesquecíveis de seus ministérios, assinando, em 1º de setembro de 2017, uma mensagem conjunta para o Dia Mundial da Criação.

O encontro deste sábado aconteceu na Sala da Biblioteca do Palácio Apostólico vaticano, onde conversaram aproximadamente 25 minutos. O Patriarca estava com um pouco de pressa, porque às 10h30 tinha que fazer a abertura da sessão da Conferência Centesimus Annus, que foi realizada no Vaticano e contou com a participação do secretário de Estado Pietro Parolin.

O papa e o patriarca se cumprimentaram na presença de um grupo de jornalistas e fotógrafos e trocaram algumas frases e brincadeiras sobre o estado de saúde do líder ortodoxo.

No final do encontro aconteceu a troca habitual de presentes. Bartolomeu trouxe para Francisco uma pequena imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus, um ícone de São Francisco e um livro sobre o Patriarcado de Constantinopla. Em seguida, outro pequeno presente, um sinal de afeto que vai além das formalidades e protocolos: uma caixinha de chocolates.

Francisco sorriu e brincou quando a recebeu. Depois prosseguiu com a apresentação de seus presentes, sobretudo de um muito especial: a recente Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, sobre o tema da santidade na vida cotidiana, texto que ainda não tinha sido presenteado a ninguém. Além da exortação, também ofereceu uma reprodução em bronze da Porta Santa.

No final do encontro com o Papa (com quem voltaria a se encontrar novamente às 12h30, na audiência com os membros da Fundação Centesimus Annus), Bartolomeu dirigiu-se à Sala Régia para proferir o seu discurso de abertura (em inglês) sobre o tema “Uma agenda cristã comum para o bem comum”. O ponto de partida de sua reflexão foi a encíclica de João Paulo II, da qual toma o seu nome a Fundação Centesimus Annus, assinada pelo Papa polonês em 1º de maio de 1991, no centenário da encíclica Rerum Novarum.

“O que é verdadeiramente cristão é essencialmente social”, começou Bartolomeu. “A fé não se limita apenas à ‘alma’, sem nenhum interesse pela dimensão social; pelo contrário, a fé também desempenha um papel fundamental ao nível da sociedade. Nossas Igrejas conservaram valores elevados, um precioso patrimônio espiritual e moral e um profundo conhecimento antropológico. A Igreja de Roma tem um ensino social sistemático, que contém soluções para questões difíceis no espírito dos princípios do respeito pela pessoa, pela solidariedade, pela subsidiariedade e pelo bem comum”, indicou.

Com base nesses princípios e em diferentes modelos desenvolvidos, o primaz ortodoxo insistiu na urgência das Igrejas Católica e Ortodoxa de “enfrentar os desafios sociais e proteger a dignidade humana”. Também porque, destacou, não se pode ignorar a “imensa crise de solidariedade” que hoje atropelam a humanidade e que acompanha os problemas econômicos e sociais que afetam diretamente a “existência” humana.

Nasce daqui a necessidade de uma “agenda cristã comum pelo bem comum”, cujo princípio fundamental é que todos precisam dos outros. Como pessoa e como Igreja. “Ninguém pode enfrentar sozinho”, disse Bartolomeu, os desafios que caracterizam a época contemporânea, tanto no nível econômico e social como, principalmente, no campo da política, da ecologia, da ciência e da tecnologia. Neste último campo o Patriarca fez uma reflexão profunda, sem esconder sua “preocupação” diante de uma determinada “autonomia” com respeito às “necessidades vitais do ser humano” e pelo fato de que, apesar dos numerosos apelos, continuam a ser produzidos “terríveis armas de destruição em massa”, com as quais se aproxima o “perigo de uma guerra nuclear”.

“O rápido progresso da ciência e da tecnologia, além de suas consequências benéficas, leva a resultados que não promovem a cultura da solidariedade”, afirmou o Patriarca. “A tecnologia não está mais a serviço do homem, mas, pelo contrário, este é sua principal força motriz, que exige completa obediência, além de impor seus próprios princípios em todos os aspectos da vida. A onipresente mídia eletrônica não dissemina apenas informações, mas também transmite valores (seus valores) e reformula nossas opiniões sobre o sentido da vida, orienta nossas necessidades, criando necessidades artificiais, e abre o caminho para um futuro que é dominado por ela mesma”.

Tais conquistas tecnológicas têm um fascínio, tanto que, de modo geral, o progresso é identificado com o progresso tecnológico. “Nós adoramos a tecnologia e seu símbolo maior, o computador, como se fosse nosso deus e, ao mesmo tempo, esperamos receber dele todos os nossos benefícios: alegria, comunicação, progresso, informação, trabalho, etc. O homo faber transforma-se em homo fabricatus – destacou Bartolomeu. Na verdade, enfrentamos uma infinidade de problemas que não são de natureza tecnológica e não podem ser resolvidos mediante a acumulação de mais informações. A injustiça social, os divórcios, a violência, os crimes, a solidão, o fanatismo e o choque de civilizações não são causados pela falta de informação ou de tecnologia. Vemos como alguns desses problemas estão efetivamente aumentando no ritmo do progresso tecnológico da sociedade”.

Diante desse complexo panorama, “precisamos uns dos outros”, insistiu Bartolomeu. Por isso, é crucial “a contribuição de nossas Igrejas”, que, promovendo “o conteúdo social do Evangelho”, podem refrear as injustiças e os poderes que ameaçam a “coesão social”. É precisamente este o cerne da questão: a coesão social, afirmou Bartolomeu, a mesma defendida pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, assinada em 1948, “o fio de Ariadne” dentro do “labirinto da pluralidade contemporânea”.

“Uma das tendências contemporâneas mais perigosas para uma cultura de solidariedade é o individualismo, a autoidolatria, o auto-apegar-se à autossuficiência egoísta, que cria abismos entre as pessoas”, denunciou o primaz ecumênico. “No Ocidente, a explosão do conhecimento e da informação favorece o desinteresse em relação às outras pessoas, além de um espírito de individualismo e deificação da propriedade, enquanto, em outras regiões do mundo, a tecnologia coexiste facilmente com a injustiça social e o fundamentalismo religioso”, acrescentou.

Por isso, concluiu dirigindo o olhar e apostando na criação de uma “comunidade de pessoas” em que “a mente e o coração, a fé e o conhecimento, a liberdade e o amor, o indivíduo e a sociedade, o ser humano e o conjunto da Criação estejam reconciliados”.

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