Gaudete et Exsultate. Pelagianismo e gnosticismo, esses “inimigos sutis” da santidade

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10 Abril 2018

“No segundo capítulo da Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, o Papa reflete sobre essas que ele define como ‘duas falsificações da santidade que poderiam nos desviar do caminho: o gnosticismo e o pelagianismo’”. A análise é de Gianni Valente, em intervenção lida durante a apresentação da exortação e publicada por Vatican Insider, 09-04-2018. A tradução é de André Langer.

Eis o texto.

No segundo capítulo da Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, o Papa reflete sobre essas que ele define como “duas falsificações da santidade que poderiam nos desviar do caminho: o gnosticismo e o pelagianismo”.

Mais uma vez, portanto, o Papa refere-se a essas duas heresias “que surgiram nos primeiros séculos do cristianismo, mas que continuam a ser de alarmante atualidade” (35).

Para tentar explicar o que o gnosticismo e o pelagianismo têm a ver com o chamado universal à santidade em um texto papal, é conveniente partir justamente da natureza da santidade, como é vivida e como é considerada na Igreja e em seu ensinamento.

Santidade e graça

Também esta exortação repete, de muitas maneiras e em várias passagens, que a santidade vem de Deus. É fruto e dom da graça na vida da Igreja.

Isto significa que a santidade não é fruto de um esforço próprio, não é uma montanha que é preciso escalar com as próprias forças. Significa que não se pode fazer estratégias ou programas pastorais para “produzir” santidade. Significa, principalmente, que é o próprio Cristo que inicia e aperfeiçoa a santidade. Por isso, a santidade é o tesouro da Igreja: porque, se existem santos, significa que Cristo está vivo e continua a operar neles, acariciando e mudando suas vidas, e nós podemos ver seus efeitos.

E, por essa razão, também é verdade que as “propostas enganosas” do pelagianismo e do gnosticismo representam um obstáculo ao chamado universal a ser santos. Estas, efetivamente, propõem de diferentes maneiras os antigos enganos pelagiano ou gnóstico: isto é, ocultam ou anulam a necessidade da graça de Cristo, ou esvaziam a dinâmica real e gratuita de sua ação.

Pelagianismo: Jesus como “bom exemplo”

Santo Agostinho escreveu que o erro venenoso dos pelagianos de sua época era a pretensão de identificar a graça de Cristo em “seu exemplo, e não no dom de sua presença”. De acordo com Pelágio, o monge do século V cujo nome deu origem à antiga heresia, a natureza de todos os seres humanos não havia sido ferida pelo pecado de Adão, de modo que todos teriam sido sempre capazes de escolher o bem e evitar o pecado exercendo simplesmente a força de vontade. Para Pelágio, Cristo veio acima de tudo para dar um bom exemplo, e teria que ser seguido como a um mestre de vida para aprender a cultivar a própria virtude moral. Mas este caminho poderia ser percorrido contando com as próprias forças e prescindindo Dele, do dom da ajuda de Sua graça.

Neste sentido, a Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate entra para a lista das declarações com as quais o magistério eclesiástico sempre repetiu que na condição real em que todos os seres humanos se encontram, não é possível ser santo e nem mesmo se pode viver uma vida justa seguindo apenas os passos de Jesus sem a intervenção da graça de Cristo, sem ser abraçado misteriosa, mas realmente, pelo Seu Espírito.

O Papa Francisco, entre outras coisas, cita o segundo Sínodo de Orange, que em 529 indicava que “mesmo o querer ser puro realiza-se em nós pela infusão e a operação sobre nós do Espírito Santo”. Ele também cita o Catecismo da Igreja Católica, para lembrar que o reconhecimento da absoluta necessidade da graça deve ser “uma das grandes convicções definitivamente adquiridas pela Igreja”, posto que “bebe do coração do Evangelho” (55).

Por outro lado, é preciso fazer as contar com manifestações da atitude pelagiana que se infiltra até mesmo nas práticas mais comuns da vida eclesial. A Exortação Apostólica identifica uma marca pelagiana em todos aqueles que “só confiam em suas próprias forças”, e mesmo quando querem mostrar-se fiéis a “um certo estilo católico” (49), expressam “a ideia de que tudo depende do esforço humano”, mesmo canalizado “pelas normas e estruturas eclesiais” (59).

O Papa, pelo contrário, escreve que o chamado universal à santidade é dirigido precisamente àqueles que reconhecem que, em cada passo da vida e da fé, a graça é sempre necessária. Porque, como lemos no texto, “nesta vida, as fragilidades humanas não são curadas, completamente e de uma vez por todas, pela graça” (49). E a obra da graça não transforma os homens em super-homens, mas “atua historicamente e, em geral, toma-nos e transforma-nos de forma progressiva” (50).

Gnosticismo: “desencarnar” o cristianismo

Também a outra “proposta enganosa” indicada pelo Papa é assimilada a uma antiga desfiguração da novidade cristã: das antigas doutrinas gnósticas que frequentemente absorveram palavras e verdades da fé cristã em seus sistemas conceituais, mas, ao fazê-lo, esvaziavam de dentro o evento cristão em sua historicidade.

Para as teorias gnósticas, a salvação consistia em um processo de autodivinização, um caminho de conhecimento no qual o sujeito tinha que se tornar consciente do divino que agia nele. Ao passo que a fé cristã reconhece que a salvação e a felicidade para os seres humanos são um dom gratuito de Deus, que atinge o homem de fora, de fora de si mesmo.

Por isso, também as histórias daqueles que são chamados à santidade, assim como as dos santos já beatificados e canonizados, estão cheias de fatos, encontros, circunstâncias concretas em que a ação da graça torna-se perceptível e toca e muda suas vidas. Analogamente ao que aconteceu com os primeiros discípulos de Cristo, que, no Evangelho, puderam inclusive indicar a hora de seu primeiro encontro com Jesus.

Ao contrário, escreve o Papa, a mentalidade gnóstica sempre escolhe o caminho dos raciocínios abstratos e formais, e assim pretende dominar, “domesticar o mistério” (40). E isso, também na Igreja, é o caminho que empreendem com frequência aqueles que não têm paciência, aqueles que não esperam com humildade que o mistério se revele, porque, como lemos na Exortação Apostólica, eles não suportam o fato de que “Deus nos supera infinitamente, é sempre uma surpresa e não somos nós que determinamos a circunstância histórica em que O encontramos, já que não dependem de nós o tempo, nem o lugar do encontro” (41).

A Exortação Apostólica adverte que um espírito gnóstico pode também insinuar-se na atualidade da vida da Igreja, sempre que se deseja prescindir dos fatos concretos e gratuitos com que a graça opera, e tomar o caminho da abstração, que procede “desencarnando o mistério”. Por exemplo, acontece quando prevalece a pretensão de reduzir a pertença eclesial a “uma série de raciocínios e conhecimentos” que deve ser dominada (36), ou à “capacidade de compreender em profundidade certas doutrinas” (37).

E, se o cristianismo é reduzido a uma série de mensagens, de ideias, mesmo que fossem a ideia de Cristo ou a ideia da graça, prescindindo de sua ação real, então, inevitavelmente, a missão da Igreja é reduzida a uma propaganda, a um marketing, isto é, à busca de métodos para disseminar essas ideias e convencer os outros a apoiá-las.

A Exortação Apostólica assinala também outras características da mentalidade gnóstica que podem ser encontradas inclusive em círculos eclesiais, como o elitismo daqueles que se sentem superiores às multidões de batizados, ou o desprezo pelos imperfeitos, pelos que caem, por aqueles que os antigos gnósticos teriam chamado de “carnais”.

Entretanto, diante desses fenômenos de autorrecolhimento eclesial, a Exortação Apostólica não apela para batalhas culturais contra os neognósticos e os neopelagianos. O Papa reza para que seja o próprio Senhor quem liberta a Igreja das novas formas de gnosticismo e pelagianismo que detêm tantos no caminho “para a santidade” (62). Todo o documento pretende não estigmatizar as novas formas de pelagianismo ou gnosticismo, mas apenas convidar a todos a buscar cada dia os rostos dos santos espalhados entre o povo de Deus e a reconhecê-los como um sinal real e efetivo da presença da misericórdia de Cristo.

Nota de IHU On-Line: A íntegra do documento, em português, pode ser lida aqui.

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