Cardeal declara que documento do Sínodo sobre a juventude é um 'plano de ação' para as igrejas

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30 Outubro 2018

A 'sinodalidade' não é como a democracia liberal, em que todos podem votar, mas é caminhar juntos e escutar.

O comentário é de Christopher Lamb, publicado por The Tablet, 28-10-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

O Sínodo sobre a Juventude não é uma democracia liberal, mas um processo de discernimento que visa prover um "plano de ação" para que as igrejas se conectem às gerações futuras, segundo o cardeal arcebispo de Karachi, Joseph Coutts.

O cardeal do Paquistão definiu "sinodalidade” – a palavra mais comentada do Sínodo dos Bispos, que se encerrou no domingo, dia 28 de outubro – como um processo de escuta e de "caminhar juntos" que vai além de elaborar um texto.

"Não se trata apenas do documento, mas do processo por que passamos por quase um mês", disse o cardeal Coutts ao The Tablet durante uma entrevista na sede da Sociedade Missionária de São Columbano, em Roma.

"Cabe a nós, bispos e conferências episcopais, levar a mensagem do Sínodo e aplicá-la às nossas situações concretas. Este é o desafio - e não apenas considerar um documento para ser lido e guardado na gaveta."

No sábado, dia 27 de outubro, os bispos fizeram uma votação do documento final do Sínodo que pede igreja missionária que escute e "caminhe" com os jovens.

"É como um plano de ação: 'é isso que queremos fazer, é assim que queremos ver as coisas’", disse o cardeal Coutts sobre o documento final.

Ele ressaltou que a expressão "sinodalidade" surgiu com frequência nas discussões do mês de encontro e destacou que o Sínodo dos Bispos é diferente das estruturas políticas seculares e dos sínodos em outras igrejas.

"Não é como a democracia liberal, em que todos podem votar, mas é caminhar juntos e escutar", explicou.

"Outra ideia de Sínodo em certas igrejas protestantes [é] mais como aceitar o que a maioria diz", disse. "Onde se coloca as coisas em votação - um sistema democrático aberto – não é exatamente o mesmo que na Igreja Católica. Mas a liberdade ainda estava e está presente, dizer o que se quer dizer.”

Aos 73 anos, o Prelado de Karachi, que participou do Sínodo dos Bispos da Ásia em 1998, disse que tinha se desenvolvido um espírito de "debate aberto" na sala durante as discussões de outubro centradas nos jovens, na fé e no discernimento vocacional. Ele observou que os 36 jovens que estavam participando como ouvintes tiveram um papel ativo.

"Eles participaram muito, e parabenizo a todos os jovens delegados pela maturidade, pela abertura e pelo modo como se expressaram e se relacionaram com os outros", explicou o cardeal. "Foi muito significativo o fato de o Santo Padre estar presente durante todo o processo, exceto uma ou duas vezes, quando tinha outros compromissos", acrescentou.

Francisco usou o Sínodo dos Bispos como uma ferramenta para seu programa de renovação da Igreja e indicou que quer que a "sinodalidade” faça parte de todas as áreas da vida católica. Do Concílio Vaticano II de 1962-65 surgiu um sínodo mundial dos bispos, apesar da existência de sínodos remontar ao cristianismo primitivo e estarem biblicamente enraizados na história dos Discípulos de Emaús.

Coutts, que se tornou o primeiro cardeal paquistanês desde 1982 este ano, disse que tentará aplicar os princípios gerais do documento final do Sínodo na Igreja do Paquistão.

"Somos uma igreja pequena e jovem, historicamente jovem", mencionou. "Somos numericamente pequenos, e socioeconomicamente estamos na base da pirâmide da sociedade, em um país que está se tornando cada vez mais islâmico".

Os números oficiais conservadores estimam que há aproximadamente 2 milhões de católicos de 200 milhões de habitantes do país, que tem maioria muçulmana. Os cristãos no Paquistão enfrentam discriminação em vários níveis, explicou o cardeal.

"Enfrentamos muita discriminação, isso é fato. Como não muçulmanos, sentimos a discriminação em relação a ganhar uma promoção em qualquer local de trabalho, ser selecionado para fazer faculdade de cursos como medicina, engenharia, entre outras coisas."

Ele observou que o governo determinou que sejam dados pontos extras em todos os exames públicos a alunos que saibam o Corão de cor, independentemente da matéria. Mas os católicos no Paquistão, destacou, não fazem parte de "uma igreja imigrante" e "pertencem ao país tanto quanto os paquistaneses muçulmanos. Precisamos ser tratados como tal, e não apenas como minoria."

Durante a entrevista, o cardeal falou sobre Asia Bibi, uma mulher católica que foi condenada à morte pelas leis de blasfêmia do Paquistão, um caso que atraiu atenção internacional. Este mês, o Supremo Tribunal do país ouviu o recurso final do caso Bibi em relação à condenação de 2010, embora o julgamento só aconteça em algum momento no futuro.

Em 2009, Bibi foi acusado por duas colegas de trabalho muçulmanas de insultar o profeta Maomé depois que ficaram com raiva por ela beber no mesmo copo que elas.

"Ninguém realmente sabe o que aconteceu", disse o cardeal. "Essa é a parte estranha da história. Não temos nenhuma prova real... mas obviamente houve algum conflito. Devem ter se insultado."

Para ele, a situação é "muito incomum", porque "não sabemos o que foi dito, não fazemos ideia" e se Bibi for solta isso pode desencadear a violência dos extremistas.

"Confio no nosso sistema de justiça", afirmou.

Acrescentou também que os juízes estavam sob grande pressão, apontando que um deles foi morto após ter absolvido um rapaz acusado de blasfêmia, vinte anos atrás.

"Que juiz colocaria a cabeça a prêmio por uma mulher pobre chamada Asia, de uma aldeia remota? Por que arriscaria a própria vida?"

"É preciso entender o tipo de sociedade em que vivemos. Nem todos os muçulmanos são fanáticos ou extremistas, mas se alguns fanáticos estiverem prontos para usar de meios extremos e violentos para atingir seus fins, naturalmente, estas pessoas serão temidas. Porque estão prontos para matar e morrer em nome da religião.”

"Há uma grande diferença no pensamento dos grupos extremistas, grupos fanáticos e dos muçulmanos moderados bem-intencionados, que também pensam diferente."

O cardeal Coutts é uma figura respeitada na vida cívica do Paquistão e tem muitos amigos muçulmanos. A dificuldade, disse, foi o aumento do extremismo nas últimas duas décadas.

Ele citou, por exemplo, quando foi convidado para participar de uma celebração de Natal em Madrassa. Depois da passagem de Coutts, o imã que havia sediado o evento e outro muçulmano receberam ameaças de morte de um grupo desconhecido de extremistas islâmicos.

"Isso demonstra que quando se fala de Paquistão, não estamos falando de um grupo de 200 milhões de pessoas que pensam igual", observou. "Existem muçulmanos extremistas que atacariam os muçulmanos xiitas e chamariam de hereges."

A estratégia do cardeal, explicou, é ter um "diálogo de vida”, o que para ele se consubstancia na missão da Igreja no país. As escolas católicas do Paquistão, que são abertas a todos, educaram os funcionários públicos, autoridades, militares, políticos, incluindo o falecido ex-primeiro-ministro Benazhir Bhutto.

A Arquidiocese de Karachi tem 56 escolas e dois hospitais.

"Todas as nossas instituições, seja hospital, o centro de trabalho com os deficientes, viciados em droga ou qualquer tipo de trabalho social, estão abertas a todos", destacou.

Em relação à educação religiosa, os alunos muçulmanos das escolas católicas aprendem o catecismo da Igreja Católica e um imã ensina a instrução religiosa aos alunos muçulmanos.

"Quando chega o Natal, muitas crianças muçulmanas querem participar [das festas]. Mas temos que ter muito cuidado, hoje em dia. Dizemos: 'não, seus pais têm que autorizar primeiro'", disse o cardeal.

Apesar do aumento das tensões no Paquistão, o cardeal de Karachi diz que líderes islâmicos valorizaram a decisão do Papa de construir pontes com o mundo muçulmano e do fato de ter desvinculado o Islamismo do terrorismo.

Ele explicou que o líder do Jamaat-e-Islami, um dos principais partidos muçulmanos do Paquistão, fez uma visita depois das observações do Papa no avião, em 2016, ao retornar da Jornada Mundial da Juventude, na Cracóvia, logo após a morte do padre francês Jacques Hamel por extremistas islâmicos. Numa conferência de imprensa durante o voo, perguntaram como combater a "violência islâmica" e o Papa respondeu que não usaria o termo, salientando que existem membros violentos em diferentes religiões.

"Alguns dias depois disso, recebi uma ligação do líder do Jamaat-e-Islami, um grande partido islâmico, dizendo que queriam se encontrar comigo”, contou. "Eles só queriam dizer que gostariam de 'agradecer ao Papa; como podemos fazer isso?'. Ele fez uma declaração muito importante e se tivesse dito o que o repórter estava tentando fazê-lo dizer, ele machucaria os sentimentos de milhões de muçulmanos. Poderia ter causado muita confusão e mal-entendido, mas fez uma declaração muito sábia'."

O cardeal, que foi ordenado sacerdote em 1971 e bispo de Hyderabad em 1988, foi líder da diocese de Faisalabad e depois foi transferido para Karachi, em 2012. Foi presidente da Caritas Paquistão por muitos anos e teve um papel importante na coordenação dos esforços de reconstrução após o terremoto de 2005 na Caxemira.

Sua nomeação para o cardinalato este ano foi uma surpresa. Segundo ele próprio, ainda não caiu a ficha. Porém, no Paquistão, está sendo vista como "uma honra”.

O cardeal destacou que parte da discriminação contra os cristãos surgiu do conceito islâmico de "zimmi", ou seja, de que quando o governo ou o governante é muçulmano as pessoas são submissas, e não cidadãos iguais, e os não muçulmanos deveriam pagar um imposto especial, conhecido como "jizaya".

"Mas o Paquistão não é oficialmente um Estado islâmico – somos um Estado moderno. Não temos 'jizaya', e o fundador do Paquistão, Mohamed Ali Jinah, tinha a mente muito aberta e alto grau de instrução. Era advogado e tinha estudado nas melhores faculdades de Direito do Reino Unido, assim como seus contemporâneos Gandhi e Nehru na Índia. E ele imaginou um Estado moderno e democrático para os muçulmanos – não um Estado teocrático islâmico."

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