O futuro incerto da sinodalidade. Polarização e paralisia eclesial. Artigo de Massimo Faggioli

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13 Junho 2018

Um exemplo dos limites da sinodalidade na Igreja de Francisco está ilustrado em um documento – exclusivamente sobre sinodalidade – que a Comissão Teológica Internacional publicou em março passado.

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos Estados Unidos. O artigo foi publicado em La Croix International, 11-06-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Uma parte significativa do legado do Papa Francisco será a sua ênfase na eclesiologia da sinodalidade e o seu aprimoramento do Sínodo dos Bispos, que ele explicou sistematicamente em um discurso em 2015 para marcar o 50º aniversário dessa instituição permanente.

Os preparativos para as próximas duas reuniões do Sínodo estão em andamento – uma assembleia ordinária sobre os jovens e a fé (outubro de 2018) e uma assembleia especial para a região panamazônica (outubro de 2019).

Mas ainda não está claro o quanto o papa jesuíta está disposto a ir em frente com o seu projeto de tornar a Igreja mais sinodal. Agora, no sexto ano de seu pontificado, as diferenças entre as assembleias sinodais sob Francisco estão em um contraste marcante com as de seus predecessores.

Houve um debate mais genuíno e aberto nas assembleias sobre a família de 2014 e 2015, e houve uma elaboração e recepção verdadeiramente sinodais da exortação pós-sinodal Amoris laetitia.

No entanto, não houve nenhuma mudança radical no governo da Igreja em nível universal, além da instituição do conselho consultivo dos cardeais (C9), mas que está mostrando sinais de fadiga.

E, nos níveis nacional e local, ainda não vimos nenhuma renovação – nem mesmo início – da sinodalidade. O Concílio Plenário que a Igreja na Austrália está planejando para 2020 é uma das notáveis exceções.

O problema não está nas intenções de Francisco, mas sim em dois outros fatores.

O primeiro é a dificuldade dos teólogos católicos de darem uma expressão prática à ideia de colegialidade episcopal, que foi desenvolvida no Concílio Vaticano II (1962-1965) e nos debates teológicos pós-conciliares, e de sinodalidade eclesial que uma Igreja Católica verdadeiramente global precisa.

Um exemplo dos limites da sinodalidade na Igreja de Francisco está ilustrado em um documento – exclusivamente sobre sinodalidade – que a Comissão Teológica Internacional publicou em março passado, mas que só está disponível em italiano (aqui).

O cardeal designado Luis Ladaria SJ, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e presidente da Comissão Teológica Internacional, assinou e divulgou o texto depois que o papa deu o seu “parere favorevole” (parecer favorável ou aprovação).

Ele é o fruto de três anos de trabalho, realizados em sessões plenárias da Comissão Teológica Internacional entre 2014 e 2017. Os 121 parágrafos do documento oferecem uma boa síntese da ideia e da práxis da sinodalidade no atual pontificado, tanto em seu potencial quanto em seus limites.

A introdução fundamenta a eclesiologia da sinodalidade “nos passos do Vaticano II”, reconhecendo a necessidade de prosseguir mais na trajetória do Concílio (n. 8).

Há um forte reconhecimento da necessidade de consultar todos os membros da Igreja. Faz-se a distinção entre um voto deliberativo e consultivo (nn. 68-69, 73), mas se recusa a equiparar o significado de um voto consultivo na Igreja com o do direito civil.

Na Igreja, afirma-se, os pastores precisam consultar e ouvir os “vota” dos fiéis antes de tomarem decisões (n. 68).

O documento da Comissão Teológica Internacional pinta o quadro de uma Igreja toda sinodal, partindo de Francisco para abordar especialmente a relação entre sinodalidade e ministério social (“diaconia social”) da Igreja (n. 118).

A sinodalidade é chave para uma Igreja que quer promover a justiça, a solidariedade e a paz – especialmente em favor dos pobres – neste momento de revitalização do autoritarismo e dos regimes tecnocráticos (n. 119).

Os limites do documento oferecem pistas para a compreensão dos limites da visão da sinodalidade no pontificado de Francisco.

O texto retrata um quadro excessivamente otimista do desenvolvimento da sinodalidade na Igreja pós-Vaticano II, mas silencia sobre a frustração experimentada nesses últimos 50 anos em relação às demandas e à necessidade de sinodalidade e de colegialidade nos níveis universal, nacional e local da Igreja (n. 41).

Ele também silencia quase totalmente sobre a necessidade de integrar a sinodalidade com novas formas de vida e ministério católicos na Igreja; isto é, os novos movimentos e comunidades eclesiais leigos.

Ele se embasa fortemente na eclesiologia episcopal do Vaticano II e se baseia, portanto, no modelo paroquial e diocesano, que não é o modelo dos novos movimentos e comunidades – as novas “minorias criativas”.

O documento da Comissão Teológica Internacional também é irrealista ou evasivo quando fala dos conselhos ecumênicos (nn. 97-98), porque não aborda de forma alguma a questão da praticidade de realizar um concílio ecumênico geral em uma Igreja que tem mais de 5.000 bispos .

Ele tampouco aborda a questão mais ampla da participação em tal concílio (uma questão que o eclesiólogo italiano Severino Dianich levantou muitas vezes nos últimos anos).

Por fim, o documento da Comissão Teológica Internacional é extremamente vago sobre a conexão entre sinodalidade e reforma da Cúria Romana.

Ele meramente recorda as demandas levantadas no Concílio Vaticano II de que a Cúria deveria incluir a contribuição dos bispos diocesanos e a consulta dos fiéis leigos (n. 102).

O documento da Comissão Teológica Internacional também serve para ressaltar uma segunda dificuldade que está obstaculizando os esforços do Papa Francisco para facilitar uma maior sinodalidade.

Ela consiste no fato de que as condições atuais da Igreja Católica hoje são bem diferentes daquelas da época em que a teologia da sinodalidade foi redescoberta como parte do ressourcement do Vaticano II.

Por um lado, os leigos de hoje parecem menos entusiasmados com a participação nos processos de tomada de decisão da Igreja do que os de algumas gerações atrás.

Em outras palavras, a sinodalidade precisa ou revitalizar os leigos em todos os níveis (especialmente as gerações mais jovens) ou se contentar com um fiel leigo que não subscreve a “teologia do laicato” articulada no Concílio Vaticano II.

Isso produzirá uma Igreja sinodal que depende de leigos que sejam altamente engajados e que constituam uma minoria comprometida, mas que não são representativos de todo o laicato.

Isso é particularmente verdadeiro para as Igrejas Católicas na Europa e no Ocidente, que experimentaram 50 anos de tentativas frustradas de terem voz nas instituições eclesiásticas.

Talvez, não seja uma coincidência que o Papa Francisco, por outro lado, vem da América Latina, onde as experiências pós-Vaticano II de colegialidade e sinodalidade ainda estão dando frutos.

Mas a América Latina pode ser vista como a exceção. Por exemplo, a experiência sinodal mais fundamental para a Igreja pós-conciliar na Europa e no Ocidente foi o sínodo nacional na Alemanha de 1971 a 1975. Ele está agora em um passado distante. Nesse sentido, a morte do cardeal Karl Lehmann em março passado, uma das figuras mais importantes do sínodo alemão, marcou o fim de uma era.

O desafio mais importante – e que torna importante a tentativa de uma Igreja sinodal também para os não católicos – é que a tentativa de Francisco de revitalizar a participação na Igreja não tem a ver apenas com uma instituição de tomada de decisão mais efetiva. Trata-se de revitalizar uma relação saudável entre pessoas e instituições.

A sinodalidade não é uma tentativa de transplantar a democracia liberal para o corpo da Igreja, mesmo que marque a rejeição de um modelo monárquico-autoritário como o caminho cristão padrão.

Mas o apelo da sinodalidade é diminuído em nossa era atual de disrupção e de crise da globalização, que alimentou um crescente fascínio por homens fortes e autoritários.

A crise de participação na Igreja espelha a crise de participação na política e na sociedade. Uma coisa é certa: uma Igreja paralisada pela polarização intraeclesial será severamente impedida de seguir o caminho rumo à sinodalidade.

Onde a polarização na Igreja ameaça se tornar tão tóxica quanto a polarização política – por exemplo, como nos Estados Unidos – as perspectivas de experimentar a colegialidade e a sinodalidade (por meio de um sínodo nacional, de um concílio plenário, de uma série de sínodos diocesanos) são, no melhor dos casos, um sonho distante.

Mas, por outro lado, se esperarmos pelo fim da polarização eclesial antes de levar a sinodalidade a sério, teremos que esperar um tempo muito longo.

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