Devemos libertar o Sínodo dos “catastrofismos”. Entrevista com Severino Dianich

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Por: André | 17 Março 2015

É possível ouvir os cantos catastróficos das sereias do mar de discussões sobre o próximo Sínodo sobre a Família. Certas estratégias midiático-eclesiásticas bem coordenadas não deixam de organizar a “resistência preventiva” contra qualquer hipótese ou proposta que queira reconsiderar (inclusive sob uma férrea vigilância) a proibição dos sacramentos que afeta os divorciados recasados. Dizem que está em jogo a ortodoxia da fé. Insistem em que não se pode discutir sobre estas questões, a não ser que se queira quebrar a unidade da Igreja.

Mas, é verdade que as potenciais diferenças em relação a temas controversos do Sínodo representam uma ameaça inédita e essencial para a comunhão eclesial? É justo fechar as portas ao diálogo escudando-se na continuidade da doutrina e na Tradição? O Vatican Insider perguntou isso ao padre e teólogo Severino Dianich, que há décadas se dedica a explorar com paixão o mistério da Igreja em seu caminho pela história.

A entrevista é de Gianni Valente e publicada no sítio Vatican Insider, 16-03-2015. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Para alguns, o Sínodo sobre a Família coloca em risco a unidade da Igreja. Devemos realmente nos preocupar com isso?

Aqueles que pensam assim parecem ignorar a história da Igreja. E não vivem a experiência tranquilizadora de que é Deus quem conduz a Igreja, e não nós com as nossas brigas e batalhas. É uma questão de fé, e também de boa consciência histórica. Porque toda a história do cristianismo é também a história de um grande confronto, com tensões e conflitos ao redor do mistério da fé e da revelação de que Deus é maior que as nossas palavras e fórmulas. Temos nas mãos coisas muito maiores do que nós, para que sobre cada questão tenhamos disponível uma solução unívoca.

Como o olhar da história pode ajudar?

No Concílio de Niceia, em 325, definiu-se que Jesus Cristo Filho de Deus é “da mesma substância do Pai”. Repetimos isso ainda hoje no Credo da liturgia dominical. No entanto, esta fórmula foi objeto de infinitas discussões e graves divergências, devido ao fato de que era muito inovadora e, portanto, segundo alguns, inaceitável, porque não se devia introduzir no Credo uma expressão que não aparece na Bíblia.

E em tempos mais recentes?

As divergências do Concílio Vaticano II foram muito mais fortes do que aquelas que houve no Sínodo sobre a Família, pela profundidade e o enorme peso de muitas questões da discussão. Por exemplo, foi muito cansativo chegar a um consenso sobre a Declaração Nostra Aetate sobre o diálogo com o judaísmo e com as demais tradições religiosas. Para não falar sobre as disputas em torno da liberdade religiosa. No entanto, ao final, atingiu-se, na maioria das vezes, o consenso de 90% dos padres conciliares sobre alguns dos pronunciamentos mais controversos. Ao final, a Igreja volta a descobrir, renova e reforça a sua unidade. Mas isto acontece ao longo de um caminho histórico e não como uma rígida e estática dedução dos postulados a priori. Justamente no Vaticano II, durante as quatro sessões ao longo dos quatro anos de sua duração, as coisas, em alguns casos, mudaram com respeito a categorias com as quais a princípio se queria dirigir o debate. E isto foi possível porque a discussão foi real e fecunda. Assim, a sensibilidade conciliar, que a princípio podia parecer minoritária, foi surgindo pouco a pouco e persuadiu a grande maioria dos padres. É esta a dinâmica vital que se realiza quando se discute na Igreja.

Mas dizem que a verdade não muda e que as mudanças neste âmbito são derrotas diante da mentalidade dominante...

Claro que não! A verdade não muda, mas nós, que a cremos e a comunicamos mediante as nossas formas mentais e nossas palavras, mudamos. No âmbito moral, basta pensar que durante séculos se julgava pecaminoso o empréstimo com juros na Igreja. Atualmente, há alguém que não tenha conta bancária? Podemos recordar que no Estado Pontifício existia a pena de morte, permitia-se a prostituição... E poderíamos dar milhares de outros exemplos das mudanças que houve nas práticas e nas afirmações de princípios.

Mas, pode-se fazer uma votação sobre a verdade? A Igreja pode converter-se em uma espécie de Parlamento?

Dizer que se pode fazer uma votação sobre a verdade é uma afirmação tão sacrossanta quanto ambígua. Não se pode votar a verdade. Mas podemos votar sobre as diferentes maneiras que temos para reconhecê-la, acolhê-la e transmiti-la, e depois, sobretudo, os instrumentos mediante os quais pretendemos vivê-la. De qualquer maneira, nem um Sínodo nem um Concílio operam com os procedimentos de um Parlamento. Os parlamentares devem formular e votar as leis. Os Concílios e os Sínodos, antes de decidir as leis, devem identificar e comunicar “o sentido da fé” do Povo de Deus vivo hoje, ou seja, a Igreja.

O que isso implica concretamente?

Um Parlamento pode se permitir votar uma lei com um só voto de maioria, enquanto que na colegialidade eclesial, além dos regulamentos, sempre se aspira a ter uma ampla maioria, quando não absoluta. No último Concílio, Paulo VI convidou muitas vezes a levar em conta as ideias que ele não compartilhava pessoalmente. Mas solicitava aos padres que as tivessem em consideração, porque queria obter um consenso mais amplo. Porque, ao final, o que surgir deve sempre ser expressão da fé da Igreja, na qual todos devem se reconhecer. E quanto mais robusta for a fé, tanto mais poderemos nos permitir discussões e brigas, com a segurança de que a graça de Deus nos manterá firmes na fé.

Então, de onde nasce o exaspero “catastrófico” fomentado por alguns meios de comunicação?

Não devemos excluir a possibilidade de que ao redor de determinadas consignas sobre questões controversas possam formar-se blocos de interesse muito complexos. Além disso, instalar-se no “déjà vu” e no já dito é muito mais cômodo. E também há razões mais pertinentes.

Como quais?

Alguns, durante a discussão no último Sínodo, criticaram certa tendência de pensamento “essencialista”. Há uma tendência que interpreta a fé e todos os seus aspectos como se fosse um sistema metafísico. Segundo esta perspectiva, a única necessidade urgente parece ser a de determinar a verdade em conceitos claros e diferenciados, ao estilo Descartes, em uma espécie de metafísica da fé; depois se raciocina, sobretudo, a partir daí, com uma lógica férrea e dedutiva. Exclusivamente isto garantiria o “funcionamento” do sistema.

Então, o que é que não funciona?

Por esta via é possível somente a passagem de uma ideia a outra, de uma abstração a outra abstração, de um princípio universal a uma norma universal. E nada disso diz alguma coisa sobre a vida real. A presunção dos “essencialistas” está nesta redução do caminho da fé a mero procedimento lógico. E a verdade fica como que amarrada a “fórmulas seguras”, fora das quais se cai em contradição.  Ao passo que a realidade, como repetiu inclusive o Papa Francisco, é superior à ideia e, em suas infinitas particularidades, nunca pode ser reduzida a uma ideia.

Como se reflete esta redução ao enfrentar o “magma” da vida real?

Tomemos o ponto crucial do debate sinodal, ou seja, a passagem entre a afirmação do princípio da indissolubilidade do matrimônio e a norma eclesial que impede os divorciados recasados de receberem a absolvição e poderem comungar. Esta passagem não é nem imediata nem obrigatória. Por isso, a Igreja, que fez a norma, pode modificá-la, sem com isso negar o princípio com o qual a norma era justificada. Porque nessa zona intermediária entre o princípio e a norma entram em jogo os dados reais. Entre estes, por exemplo, está o caso muito frequente das situações irreversíveis, nas quais o fiel é considerado em estado de pecado porque casou novamente depois de ter-se divorciado, mas cometeria outro pecado se abandonasse a nova família para reconstruir a anterior, considerada a única “legítima”. Um caso no qual a norma parece inadequada. E é apenas o caso mais clamoroso entre muitos que poderíamos descrever.

Quais são os critérios e os fatores que garantem e protegem a unidade da Igreja na fé compartilhada?

O critério mais profundo é aquele indicado no último Concílio na Constituição Dei Verbum: as Sagradas Escrituras lidas na Tradição da Igreja, e a Tradição baseada nas Sagradas Escrituras. Este é o critério chave, o critério decisivo. A Tradição, justamente porque não se encontra fixa em nenhum texto escrito, passou por muitas fases diferentes, inclusive em relação à questão do matrimônio sacramental, que é um dos temas do Sínodo. Basta recordar que a forma canônica foi imposta, como necessária para a validez do matrimônio, durante o Concílio de Trento.

A que se refere?

Atualmente, as convivências de fato não podem ser consideradas como um matrimônio válido, posto que não contam com uma forma canônica, razão pela qual, na Igreja, não podem ser consideradas lícitas. Mas, antes que o Concílio de Trento estabelecesse a forma canônica para a celebração do matrimônio, como os católicos se casavam? A história das diversidades exige uma pesquisa, que nos leva a identificar as mudanças culturais e os condicionamentos antropológicos que marcam o nosso tempo, para avaliar suas implicações para o anúncio cristão e para a vida da fé. Foi o que fez o Concílio sobre seus temas.

O que devemos esperar do Sínodo de outubro?

Eu espero que se discuta sobre tudo, sem preconceitos, para chegar a amadurecer um consenso mais amplo. Claro, com alguns compromissos, mas sem deixar as coisas como estão agora. A atitude pastoral em relação aos casais “irregulares” segundo a disciplina da Igreja já mudou no Pontificado anterior. O atual e o Sínodo já realizado seguiram por esse mesmo caminho. Eu espero que se chegue a uma indicação autorizada e, caso for possível, à formulação de normas canônicas que permitam reconstruir esse tecido de relações, agora desfeito, com todos esses fiéis que não podem reconstruir suas famílias anteriores sem cometer graves injustiças contra as novas nas quais se encontram, mas que desejam viver integralmente sua vida eclesial.

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