Papa Paulo VI se ofereceu para as Brigadas Vermelhas e o bispo mártir Dom Romero: os dois novos santos proclamados por Bergoglio

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16 Outubro 2018

Entre os dois novos canonizados sempre houve uma relação de respeito e amizade. Montini, o Papa do século XX que sofreu mais oposição por parte da hierarquia eclesiástica, havia oferecido sua vida pela libertação de Aldo Moro. O prelado salvadorenho, por seu lado, foi morto em 1980 pelos esquadrões da morte do regime de que denunciava os abusos.

A reportagem é de Francesco Antonio Grana, publicada por Il Fatto Quotidiano, 14-10-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

O Papa, que ofereceu sua vida para as Brigadas Vermelhas pela libertação de Aldo Moro e o arcebispo de San Salvador assassinado pelos esquadrões da morte do regime de extrema direita de que denunciava os abusos. Francisco canonizou juntos Paulo VI e Oscar Arnulfo Romero em uma cerimônia histórica na praça de São Pedro, enquanto no Vaticano está se realizando o Sínodo dos Bispos sobre os jovens. Uma escolha significativa, a de Bergoglio, de proclamar ao mesmo tempo a santidade de Montini e Romero cuja relação sempre foi de grande amizade, estima e apoio como demonstram numerosos testemunhos dos dois novos santos. O arcebispo de San Salvador sentia-se profundamente compreendido por aquele papa de Brescia, apesar da Cúria Romana fazer oposição a ele em todos os sentidos. Na última audiência privada com Montini, em 24 de junho de 1978, Romero deixou ao Papa esta nota: "Lamento, Santo Padre, que nas observações apresentadas aqui em Roma sobre a minha conduta pastoral prevalece uma interpretação negativa que coincide exatamente com aquela das poderosas forças que lá, na minha arquidiocese, tentam refrear e desacreditar meu esforço apostólico".

Na homilia da missa de canonização, Francisco destacou que "Paulo VI, também no meio de um grande esforço e incompreensões, tenha testemunhado de modo apaixonado a beleza e a alegria de seguir Jesus totalmente. Hoje ele ainda nos estimula, juntamente com o Concílio de que foi o sábio timoneiro, a viver nossa comum vocação: a vocação universal à santidade. Não em meias medidas, mas na santidade. É muito bonito que com ele e com os outros santos e santas atuais esteja dom Romero, que deixou as seguranças do mundo, até mesmo à sua própria, para dar a vida segundo o Evangelho, perto dos pobres e do seu povo, com o coração magnetizado por Jesus e por seus irmãos. O mesmo podemos dizer de Francisco Spinelli, de Vincenzo Romano, de Maria Catarina Kasper, de Nazaria Ignazia, de Santa Teresa de Jesus e de Núncio Sulprizio. Todos esses santos, em diferentes contextos, traduziram com a vida a palavra de hoje, sem meias medidas, sem cálculos, com o ardor de arriscar e de deixar".

O Arcebispo de San Salvador sentia-se profundamente compreendido por aquele Papa de Brescia, apesar da Cúria Romana fazer oposição a ele em todos os sentidos.

O arcebispo de San Salvador sofreu oposição na vida e na morte, como recordou várias vezes o próprio Bergoglio: "O martírio de dom Romero continuou mesmo depois de ele ser assassinado, porque ele foi difamado e caluniado, até mesmo por seus irmãos no sacerdócio e no episcopado". Quando foi morto em 1980, no Vaticano, os colaboradores mais próximos de São João Paulo II aconselharam o papa polonês a não presidir seu funeral. Mas Wojtyla, durante o Jubileu do ano 2000, comemorando no Coliseu os novos mártires cristãos, assumiu a tese de sua reabilitação: "Pastores zelosos como o inesquecível Arcebispo Oscar Romero, assassinado no altar durante a celebração do sacrifício eucarístico". Na véspera da celebração, o fundador da Comunidade de Santo Egidio, o historiador Andrea Riccardi, como revelou ele mesmo, falou com são João Paulo II sobre Romero. "Dizem que ele é uma bandeira da esquerda", respondeu o Papa polonês. "Eu - relata Riccardi - lembrei-o de sua visita a San Salvador, quando decidiu visitar o túmulo do arcebispo, apesar da vontade contrária do governo. Ele estendeu as mãos sobre o túmulo e disse: 'Romero é nosso'".

Também Paulo VI foi objeto de ataques ferozes por parte da Cúria Romana. Basta mencionar apenas dois de seus documentos que foram muito contestados: a encíclica Humanae vitae de 1968, com a qual fechou definitivamente as portas aos métodos contraceptivos; e o motu proprio Ingravescentem aetatem, de1970, com que estabeleceu uma aposentadoria para os cardeais chefes de dicastérios da Cúria Romana aos 75 anos e a perda do voto no conclave com a idade de 80 anos. Um Papa certamente revolucionário em tempos difíceis e de grande modernidade. O primeiro a viajar de avião e deixar a Itália inaugurando o costume das viagens papais. Mas também aquele que recusou a tiara, poucos meses depois do início de seu pontificado, vendeu-a e doando o dinheiro conseguido para a caridade. Foi o então cardeal de Nova York, Francis Spellman, que a comprou pelo valor de cerca de um milhão de dólares. Foi também o primeiro Papa a pedir exéquias simples: "Sobre o funeral, que seja piedoso e simples, que seja tirado o cadafalso agora em uso para as exéquias pontifícias para substituindo-o por um estrado mais humilde e decoroso. O túmulo: desejaria que fosse no interior da terra, com humilde sinal a indicar o lugar e convidar à cristã piedade. Nenhum monumento para mim". Por esta razão seu corpo, a diferença dos outros Papas recentemente canonizados, permanecerá nas Grutas do Vaticano, lá onde foi sepultado após sua morte em 6 de agosto de 1978.

Montini foi seguramente o papa do século XX que recebeu maior oposição das hierarquias eclesiásticas. Uma época muito parecida com a que vive hoje Bergoglio. Não por acaso que Francisco, na homilia da canonização, explicou que "Jesus questiona cada um de nós e todos nós como Igreja em caminho: somos uma Igreja que somente prega bons preceitos, ou uma Igreja-noiva, que para o seu Senhor se joga no amor? Nós realmente o seguimos ou retornamos sobre os passos do mundo, como aquele homem? Em suma, Jesus é suficiente para nós ou estamos procurando as seguranças no mundo? Pedimos a graça de sermos capazes de deixar por amor ao Senhor: deixar as riquezas, as saudades de papéis e poderes, as estruturas não mais adequadas para o anúncio do Evangelho, os pesos que refreiam a missão, os laços que nos ligam ao mundo. Sem um salto para a frente no amor, as nossas vidas e nossa Igreja ficam doentes pela autocomplacência egocêntrica: procuramos a felicidade em qualquer prazer passageiro, encerramo-nos na tagarelice estéril, acomodamo-nos na monotonia de uma vida cristã sem impulso, onde um pouco de narcisismo cobre a tristeza de permanecer incompletos. Foi assim para aquele homem que, diz o Evangelho, foi embora triste. Ele havia se amarrado aos preceitos e seus tantos bens, ele não havia dado seu coração. E mesmo tendo encontrado Jesus e recebido seu olhar amoroso, ele foi embora triste. A tristeza é a prova do amor incompleto. É o sinal de um coração morno. Em vez disso, um coração aliviados dos bens, que livre ama o Senhor, sempre difunde a alegria, aquela alegria que hoje é tão necessária".

Francisco também lembrou que "o santo Papa Paulo VI escreveu: 'É no coração de suas angústias que nossos contemporâneos precisam conhecer a alegria, ouvir seu canto’. Jesus hoje nos convida a retornar às fontes da alegria, que são o encontro com ele, a escolha corajosa de arriscar a segui-lo, o prazer de deixar algo para abraçar o seu caminho. Os santos percorreram esse caminho. Paulo VI fez isso, seguindo o exemplo do Apóstolo cujo nome ele assumiu. Como ele, viveu sua vida pelo Evangelho de Cristo, cruzando novas fronteiras e tornando-se sua testemunha no anúncio e no diálogo, profeta de uma Igreja extrovertida que olha para os mais distantes e cuida dos pobres".

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