Paulo VI e Oscar Romero, os primeiros ''mártires do Concílio''. Artigo de Bartolomeo Sorge

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13 Outubro 2018

Durante o Sínodo dos Bispos dedicado aos jovens, o Papa Francisco canonizará, no mesmo dia, duas figuras importantes da Igreja do Concílio Vaticano II: o Papa Paulo VI e Dom Oscar Romero. As reflexões do Pe. Bartolomeo Sorge, diretor emérito da revista Aggiornamenti Sociali, que também se referem às recordações pessoais dos intercâmbios ocorridos com ambos, evidenciam as razões dessa escolha.

Sorge é jesuíta italiano, ex-diretor da revista La Civiltà Cattolica e do Instituto de Formação Política Pedro Arrupe, em Palermo.

O artigo foi publicado na revista Aggiornamenti Sociali, 02-10-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Em 14 de outubro de 2018, o Papa Francisco proclamará santos o Papa Paulo VI e Dom Oscar Romero, o arcebispo de San Salvador defensor dos “campesinos”, morto ao altar em 24 de março de 1980 pelos esquadrões da morte. É uma canonização que se reveste de um significado excepcional, que vai muito além da elevação aos altares de dois novos santos.

Até certo ponto, ela vem confirmar que o próprio Concílio Vaticano II foi um evento extraordinário de santidade, um novo Pentecostes, como disse João XXIII. De fato, após a canonização em 2014 do Papa Roncalli, inspirado, iniciador e guia do Concílio na primeira fase (1962-1963), o Papa Francisco também proclama santo o Papa Montini, que levou a termo o Concílio e guiou as suas três fases sucessivas (1963-1965). Isso significa que as nove sessões e os quatro períodos do Concílio Vaticano II, do primeiro ao último dia, foram “santificados” pela inspiração e pela orientação dos dois grandes pontífices.

Essa é mais uma confirmação da excepcionalidade que o Vaticano II constitui na história da Igreja. Nenhum dos 20 concílios anteriores havia sido realizado pelas razões que levaram João XXIII a convocá-lo. O Vaticano II, de fato, não foi convocado para condenar alguma heresia, nem para definir a verdades de fé, mas com o propósito de dizer novamente e de quase redefinir a identidade cristã no contexto histórico e cultural da humanidade em mudança. Como anunciar o Evangelho em uma sociedade multiétnica, multicultural e multirreligiosa? Como dialogar com a humanidade globalizada, compartilhando o seu destino, as suas esperanças e os seus problemas? Como apresentar a um mundo secularizado a natureza e a missão da Igreja? (cf. João XXIII, discurso de abertura do Concílio Gaudet Mater Ecclesia, 11 de outubro de 1962).

Portanto, a recepção do Vaticano II não pode ser reduzida a uma mera interpretação “jurídica” dos documentos conciliares, mas deve se colocar na linha de uma “hermenêutica sapiencial ou profética”, preferida pelos dois papas do Concílio e à qual o Papa Francisco também se refere. De fato, o que importa é entender como assimilar e expressar hoje a identidade cristã através de uma compreensão renovada e de um testemunho mais fiel dela.

A canonização contemporânea de Paulo VI e de Dom Romero enfatiza, portanto, a importância da interpretação sapiencial e profética do Concílio Vaticano II, sobre a qual ambos fundamentaram o seu serviço ministerial. De fato, pode-se estender, com razão, também a Paulo VI o título de “mártir do Concílio”, que é atribuído a Oscar Romero por Dom  Vincenzo Paglia, postulador da sua causa de canonização. “O martírio de Dom Romero – diz ele – é o cumprimento de uma fé vivida na sua plenitude. Aquela fé que emerge com força nos textos do Concílio Vaticano II. Nesse sentido, podemos dizer que Romero é o primeiro mártir do Concílio, a primeira testemunha de uma Igreja que se mistura com a história do povo com o qual se vive a esperança do Reino. Uma esperança de justiça, de amor, de paz. Nesse sentido, Romero é um belo fruto do Concílio. Um fruto amadurecido através da experiência da Igreja latino-americana, que, entre as primeiras do mundo, tentou traduzir os ensinamentos conciliares na história concreta do continente” (L. Capuzzi, “Romero, primo martire del Concilio. Intervista a mons. Vincenzo Paglia”, in Avvenire, 22-05-2015).

Desse ponto de vista, também para Paulo VI, o Concílio foi um verdadeiro “martírio”, embora incruento, ao contrário do de Dom Romero.

Paulo VI, o primeiro mártir incruento do Concílio

Eu conheci seis papas. Eu servi a todos com igual amor e com a mesma fé. No entanto, sem prejudicar ninguém, considero Paulo VI o “meu” papa. Não só porque os últimos cinco anos do seu pontificado (1973-1978) coincidiram com os meus primeiros cinco anos como diretor da revista La Civiltà Cattolica, mas principalmente pela relação de filial confiança e de sintonia espiritual que desde sempre me ligaram a ele.

Se foi preciso a coragem profética de João XXIII para convocar o Concílio, foi igualmente preciso o Papa Montini para levá-lo ao porto e começar a traduzir as suas orientações em prática. Para esse fim, Paulo VI escolheu deliberadamente o caminho das reformas. Ele mesmo afirmou isso na audiência pública de 7 de maio de 1969: “Entendido no seu sentido genuíno – disse – podemos assumir o programa de uma contínua reforma da Igreja: Ecclesia semper reformanda”.

Assim, ele se tornou um papa reformador. Ele sabia muito bem que, por causa dessa escolha, ele se transformaria em um sinal de contradição e iria ao encontro de um pontificado crucificado; mas se ofereceu livremente à sua Paixão como Jesus. Por causa do seu caráter reservado, sentiu de forma mais aguda o sofrimento que lhe provocaram os inúmeros casos de “dissidência eclesial”, a rebelião e o cisma de Dom Lefebvre, os ataques que choveram sobre ele de todos os lados após a encíclica Humanae vitae (1968): os conservadores o acusavam de ceder às fermentações inovadoras, os progressistas, por sua vez, de “trair o Concílio” e de prosseguir com passo lento e hesitante demais no caminho das reformas.

Essas e muitas outras ainda foram as dolorosas feridas daquela que ele definiu como “a coroa de espinhos do meu pontificado”. Quando o vi pela última vez em audiência privada em Castel Gandolfo, no ano anterior à sua morte, eu o achei diferente. Não era mais ele. O seu rosto cansado me pareceu velado por uma fina camada de tristeza, como se a crise da Igreja tivesse escapado das suas mãos. Era o rosto do primeiro mártir incruento do Concílio.

Apesar de tudo, o Papa Montini, inspirando-se constantemente na hermenêutica sapiencial e profética dos textos conciliares, prosseguiu intrépido no caminho das reformas. Ele insistiu muito na renovação litúrgica com a introdução das línguas modernas e com a possibilidade de adaptar a liturgia às diversas culturas; estimulou a Igreja a uma maior colegialidade, criando o Sínodo dos Bispos; valorizou a vocação e a missão dos fiéis leigos, homens e mulheres, dando origem ao Pontifício Conselho dos Leigos e à Pontifícia Comissão Iustitia et Pax; imprimiu um forte impulso ao movimento ecumênico, fazendo gestos que permanecem (junto com os documentos escritos) como marcos no caminho de reaproximação entre as Igrejas irmãs. Como não lembrar do abraço com o Patriarca Atenágoras em Jerusalém em 1964 ou do beijo no pé do Metropolita Melitão em 1975?

Acima de tudo, porém, a interpretação sapiencial e profética dos documentos do Concílio levou Paulo VI a repensar de modo novo as relações entre a Igreja e o mundo moderno, tecendo um diálogo leal com a cultura secular. A encíclica Ecclesiam suam, a primeira do seu pontificado (1964), continua sendo a magna charta do diálogo entre a Igreja e as pessoas do nosso tempo.

A orientação conciliar mais significativa do Papa Montini continua sendo a “opção religiosa”, que suscitou tantas discussões. Com ela, Paulo VI, apoiado pela Ação Católica de Vittorio Bachelet, superou definitivamente – como pedia o Concílio – o colateralismo entre a Igreja e a política, que havia caracterizado o período pós-bélico na Itália. “Opção religiosa”, para o Papa Montini, absolutamente não significava desinteresse pela vida política, social e econômica; com ela, em vez disso, ele pretendia reiterar o primado da evangelização, comprometendo a comunidade cristã a oferecer, ao mesmo tempo, um genuíno testemunho evangélico e realizar uma obra necessária de mediação cultural e histórica dos valores cristãos.

“A ‘opção religiosa’ não pode significar abstração ou descompromisso dos sócios da Ação Católica em relação às suas responsabilidades no mundo; e a própria Ação Católica, na tarefa de formação das consciências que lhe é própria, deverá ajudar com uma ação de responsabilização e iluminação a exercer as escolhas e as tarefas próprias dos cristãos, recordando também os princípios morais essenciais tanto de modo geral, quanto em relação às situações históricas concretas que tal recordação exija” (Vittorio Bachelet aos presidentes diocesanos da Ação Católica em 1968).

Obviamente, a ação reformadora de Paulo VI não teve vida fácil. Alguns abusos, até mesmo graves, que ocorreram durante o primeiro período do pós-Concílio, aumentaram aquela aversão que, de modo mais ou menos subterrâneo, já serpenteava em relação ao Concílio.

É eloquente, a propósito, o testemunho do cardeal Carlo Maria Martini, quando denunciou a existência na Igreja de “uma indubitável tendência a tomar distância do Concílio”, da qual, porém, embora não a compartilhando, ele se esforçava para compreender as razões.

“É indubitável – escreveu – que, no primeiro período de abertura, alguns valores foram jogados ao mar. A Igreja, portanto, se enfraqueceu”; por isso, não devem surpreender os medos e as resistências de muitos: “Posso compreender muito bem as suas preocupações quando penso apenas naqueles que, nesse período, abandonaram o sacerdócio, em como a Igreja é frequentada por um número cada vez menor de fiéis e em como na sociedade, e também na Igreja, surgiu uma imprudente liberdade”.

No entanto, esses e outros limites do pós-Concílio não diminuem em nada a grandeza do evento conciliar. Apesar de tudo – concluía Martini – “devemos olhar para a frente. [...] eu acredito na perspectiva clarividente e na eficácia do Concílio” (C. M. Martini, Conversazioni notturne a Gerusalemme, Milão: Mondadori, 2008, 103s.).

Infelizmente, após a morte de Paulo VI e após o breve parêntese do pontificado do Papa Luciani, a “linha montiniana” reformista foi abandonada. Com a eleição do Papa Wojtyla nos anos 1980 e seguinte, houve um longo período de “normalização”, durante o qual a reforma da Igreja ad intra, desejada pelo Concílio, foi de fato mantida em quarentena.

Na realidade, os grandes e santos pontífices João Paulo II e Bento XVI prosseguiram decisivamente a renovação nas relações ad extra entre a Igreja e o mundo, mas, em relação ao “aggiornamento” interno da vida eclesial, preocuparam-se mais em salvaguardar a sua continuidade com o passado (a tradição) do que em se abrir às novas perspectivas indicadas pelo Concílio.

Isso levou, na prática, ao congelamento do caminho de renovação da Igreja ad intra empreendido com coragem por Paulo VI. E também ad extra, mais do que incrementar a mediação cultural, o diálogo e a opção religiosa do Papa Montini, preferiu-se apontar para uma “presença” militante da Igreja como força social, inclinada na defesa dos “princípios absolutos inegociáveis” e em um abstrato “projeto cultural de inspiração cristã”, na vã tentativa de recuperar no plano cultural a hegemonia que a Igreja perdera no plano político.

Consequentemente, a hermenêutica sapiencial, característica da linha montiniana, foi deixada de lado, até a renúncia de Bento XVI e o advento do Papa Francisco, que, recém-eleito, imediatamente se realinhou ao Papa João XXIII, a Paulo VI e ao Papa Luciani.

Porém, mesmo durante esse longo período, o Espírito Santo continuou suscitando na Igreja uma série de “profetas”, fiéis ao espírito e à letra do Concílio, que, andando contra a corrente, mantiveram viva a sua interpretação sapiencial.

Hoje vemos o Papa Francisco ir em peregrinação para venerar um a um esses profetas do Concílio! É evidente que ele faz isso não apenas para agradecê-los, mas também, de algum modo, para reabilitá-los e ressarci-los pelos sofrimentos e pelas incompreensões a que foram submetidos dentro da Igreja. Isso também vale, em certo sentido, para a canonização de Paulo VI e de Dom Romero.

O Papa Francisco deixou intuir isso por ocasião da beatificação de Dom Romero: “O martírio de Dom Romero – disse – não foi pontual no momento da sua morte: foi um martírio-testemunho, sofrimento anterior, perseguição anterior, até a sua morte. Mas também posterior, porque, uma vez morto – eu era sacerdote jovem e fui testemunha disso – ele foi difamado, caluniado, sujado. Ou seja, seu martírio continuou até pelas mãos de irmãos seus no sacerdócio e no episcopado” (Papa Francisco, Discurso aos participantes da peregrinação de El Salvador, em ação de graças pela beatificação de Dom Romero, 23-05-2015).

Dom Romero, o primeiro mártir cruento do Concílio

Eu conheci Dom Romero pessoalmente [1] em janeiro de 1979 em Puebla, participando dos trabalhos da III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (Celam). Eu era então diretor da Civiltà Cattolica e havia sido enviado a Puebla como perito pelo Papa João Paulo I.

O cardeal Sebastiano Baggio, que era presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina, quis que eu participasse dos trabalhos da VI Comissão de estudo, encarregada de aprofundar a relação entre evangelização, libertação humana e promoção humana, da qual também pertenciam Dom Oscar Romero e Dom Hélder Câmara. Ao todo, éramos 17, entre bispos e peritos.

Portanto, meu conhecimento do arcebispo de San Salvador não foi fortuito nem fugidio. Trabalhamos juntos por três semanas, dedicando muitas horas para aprofundar, à luz das graves necessidades dos pobres, a Palavra de Deus e o ensinamento da Igreja, para procurar as respostas a serem dadas e as escolhas a serem feitas para anunciar o Evangelho em situações desumanas e anticristãs de subdesenvolvimento, de violência física e moral, de marginalização na América Latina e não só.

O trabalho da nossa comissão se encontra condensado na segunda parte do documento final de Puebla, precisamente no parágrafo n. 4 do capítulo II, intitulado: “Evangelização, libertação e promoção humana” (nn. 470-506). Dom Romero – lembro bem – contribuiu ativamente para a redação definitiva daquele parágrafo, aprovado depois pela assembleia geral. Nele, pode-se reencontrar muito do seu espírito pastoral e da sua coragem apostólica.

Quando cheguei em Puebla, levava comigo o preconceito, muito disseminado nos ambientes romanos, de que Dom Romero era um “cabeça quente”, um bispo “politiqueiro”, favorável à teologia da libertação. Desde os primeiros encontros, pude descobrir um homem completamente diferente da imagem que eu criei dele em Roma. Logo me surpreenderam a humildade sincera do trato, o extraordinário espírito de oração, a indiscutível fidelidade ao Evangelho e à Igreja, sobretudo o grande amor pelos pobres, pelos últimos dos seus campesinos. Exatamente o contrário dos preconceitos que tinha ouvido.

Durante as três semanas de debate e de trabalho comum, fiquei favoravelmente impressionado sobretudo com a sua docilidade. Eu o vi renunciar mais de uma vez à sua opinião, abandonando-a sem insistir, quando a maioria da comissão se inclinava por outra solução.

Pareceu-me totalmente infundada a acusação movida contra ele (e contra outros bispos) de partidarizar pela teologia da libertação, da qual eu conhecia muito bem as diversas correntes e à qual nós também, da Civiltà Cattolica, estávamos interessados. Logo me dei conta de que Dom Romero e outros não eram absolutamente submissos em relação aos defensores de uma leitura marxista do Evangelho (que a Igreja condena com razão); muito mais simplesmente, ao denunciar as injustiças, eles aplicavam a Palavra de Deus diretamente aos problemas concretos do povo, sem muitas mediações.

Portanto, era um equívoco evidente confundir os desvios teológicos dos “cristãos pelo socialismo” com a leitura sapiencial que Dom Romero e outros bispos latino-americanos faziam do Evangelho.

Quando voltei a Roma, expressei essa minha opinião em uma entrevista concedida à rádio italiana, retomada depois pela imprensa. O cardeal Gantin, encarregado de acompanhar os acontecimentos da Igreja da América Latina, me telefonou e me perguntou o que eu queria dizer; tentei lhe explicar em que consistia o “equívoco”, mas realmente acho que não consegui convencê-lo!

Recordo, por fim, as conversas amigáveis que tive pessoalmente com Dom Romero, durante os intervalos. Uma vez, ele me disse que tinha sido enviado como bispo a San Salvador, porque tinha fama de conservador, para reequilibrar uma situação eclesial difícil... Lembro-me como se fosse hoje de um diálogo mais longo que tivemos um dia, durante a pausa dos trabalhos da metade da manhã. Ele me contou sobre a situação dolorosa e dramática do seu país, que ele amava; ele me contou sobre os direitos humanos pisoteados, sobre o “desaparecimento” de muitos de seus filhos, sobre as tortura e as execuções sumárias, sobre o clima violento de repressão que estava empurrando El Salvador para a insurreição popular (era o que ele temia).

No entanto, não tinha uma única palavra de ódio ou de raiva; ao contrário, ele acreditava firmemente que se devia frear a violência, onde quer que ela estivesse; dizia que a vingança devia ser banida e, em vez disso, a justiça devia triunfar no amor para alcançar a reconciliação e a paz.

Depois, acrescentou que a opção preferencial pelos pobres havia se tornado para ele uma razão de vida. E me explicou como havia ocorrido a sua “conversão”. “Quando assassinaram o meu braço direito, o padre Rutilio Grande – disse-me – os campesinos também ficaram órfãos do seu ‘pai’ e do seu defensor mais estrênuo. Foi durante a vigília de oração diante dos restos mortais do heroico padre jesuíta, que se imolou pelos pobres, que eu entendi – continuou Dom Romero – que agora cabia a mim assumir o seu lugar, sabendo muito bem que eu também colocaria a minha vida em jogo”.

Em certo ponto – lembro bem, como se tivesse acontecido ontem – ele se interrompeu e, mudando de tom, acrescentou textualmente: “Acabam de matar ao meu quarto sacerdote (acaban de matar a mi cuarto sacerdote). Eu sei. Quando me pegarem, vão me matar (en cuanto me cojan, me van a matar)”. Eu olhei para ele. Ele não mostrava nenhum sinal de arrependimento ou de medo. Sorria. O seu rosto deixava transparecer uma serenidade que só a fé profunda e um amor grande podem dar. Eu não consegui mais esquecer aquele rosto. Era o rosto de um mártir dos novos tempos. A sua “profecia”, que me foi feita no fim de janeiro de 1979, se realizaria pontualmente um ano depois, no dia 24 de março de 1980, quando ele caiu como vítima imolada sobre o altar.

O arcebispo de San Salvador sabia muito bem que não era o único perseguido pela sua fidelidade à Igreja e ao Concílio. Ele diz isso explicitamente no seu diário: “Quem segue essa linha progressista de uma Igreja autenticamente fiel aos postulados do Vaticano II deve sofrer muito e até mesmo ser considerado com suspeita, mas a consciência e a satisfação de servir a Deus e à Igreja valem muito mais do que qualquer perseguição” (S. Mutti, “Oscar Romero, martire del Concilio”, in Missione Oggi, janeiro de 2014).

Nesse ponto, é evidente que o Papa Francisco, ao canonizar Dom Romero junto com Paulo VI, pretende evidenciar e premiar o amor e a fidelidade à Igreja e ao Concílio Vaticano II não só dos dois primeiros “mártires do Concílio”, mas também de todos os outros – conhecidos e desconhecidos –, principalmente reduzidos ao silêncio.

Por isso, concluindo, é bom retomar a invocação com a qual Carlo Carretto – um deles – expressa o seu amor pela Igreja, em uma linguagem crua, de forte sabor bíblico: “Como tu és contestável, Igreja, mas quanto te amo! Quanto me fizeste sofrer, mas quanto devo a ti! Gostaria de te ver destruída, mas preciso da tua presença. Tu me deste tantos escândalos, mas me fizeste entender a santidade! Não vi nada de mais obscurantista no mundo, de mais comprimido, de mais falso, e nada me tocou de mais puro, de mais generoso, de mais belo. Quantas vezes tive vontade de fechar na tua cara a porta da minha alma, quantas vezes rezei para poder morrer em teus braços seguros” (C. Carretto, Il Dio che viene, Roma: Città Nuova, 1988, cap. X).

Nota:

1. Ao passar a delinear o perfil de Dom Romero, prefiro dar a conhecer o meu testemunho pessoal e confidencial, entregue ao postulador da causa, Dom Vincenzo Paglia, em 3 de setembro de 2003.

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