Cardeal Wuerl fala sobre sua renúncia

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13 Outubro 2018

Em uma conversa exclusiva com a revista America, dos jesuítas dos EUA, realizada em 11 de outubro, o cardeal Donald Wuerl falou sobre as razões pelas quais pediu ao Papa que aceitasse sua renúncia, afirmando que “o importante agora é ser capaz de ir além das falhas e das dúvidas sobre minha pessoa e ajudar a Igreja a chegar em um novo patamar”.

A reportagem é de Gerard O'Connell, publicada por America, 12-10-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Ele também discutiu a carta pessoal que o Papa Francisco lhe enviou ao aceitar sua renúncia em 12 de outubro, bem como seus 18 anos como bispo em Pittsburgh, o relatório do júri da Pensilvânia, seus 12 anos como arcebispo de Washington DC, o caso McCarrick, as acusações feitas contra ele e o Papa pelo arcebispo Carlo Maria Viganò e a resposta do cardeal Marc Ouellet.

“Fiquei muito comovido porque [a carta do Papa] destaca o que é realmente importante para mim. A primeira responsabilidade do pastor é com o seu povo, que confia na sua palavra”

“Senti que minha capacidade de poder servir a essa unidade exigiria concentrar-me em uma defesa de mim mesmo e de minhas ações. Acredito que isso teria nos levado para o caminho errado, em vez de tentar fazer a cura e a unidade o mais rápido possível. Por isso pedi ao Santo Padre que aceitasse minha renúncia para que uma nova liderança não tivesse que lidar com essas outras questões”, respondeu o cardeal Wuerl sobre sua reação à carta do Papa Francisco.

Em sua carta, Francisco demonstra que embora o cardeal tenha cometido “alguns erros”, ele não “encobriu” ou falhou em “lidar com os problemas”. Quando perguntado se também via dessa forma, o cardeal respondeu: “Sim, e eu disse isso. Eu cometi erros de julgamento quando estávamos lidando com todos esses casos antes da Carta de Dallas. Alguns desses erros de julgamento foram baseados em avaliações psicológicas profissionais, outros se basearam na lentidão em encontrar alguma verificação das alegações. Esses foram todos erros de julgamento, e eu certamente me arrependo”.

“Eu acho que também é importante notar que todos aqueles sacerdotes que foram confrontados com alegações justificáveis, foram removidos de qualquer ministério que os colocassem em contato com jovens”, acrescentou.

“Nós podemos dizer que uma leitura cuidadosa do relatório do Grande Júri da Pensilvânia e a resposta da Diocese de Pittsburgh, permitida pela Suprema Corte da Pensilvânia para ser anexado ao relatório, mostra que eu agi de uma maneira muito responsável para remover os padres predadores”, ressaltou o Wuerl.

Quando perguntado se ele gostaria de ter feito algo diferente durante seus 18 anos como bispo em Pittsburgh, o cardeal disse: “É uma pergunta difícil de responder. Naqueles primeiros anos do meu ministério, ou seja, antes da mudança na lei canônica e das Normas Essenciais em relação a abusos, fiz muitas coisas que buscavam encontrar provas das alegações. Acredito que a situação de hoje é diferente, pois quando uma alegação é feita sem nenhum testemunho ou prova verdadeira, o acusado ainda sim é colocado de licença. Eu acho que se essa prática e essa abordagem da lei canônica tivessem funcionado quando comecei o ministério em Pittsburgh, as coisas teriam sido muito diferentes. Naquela época, éramos obrigados a ter provas”.

Em sua carta no dia 25 de agosto, o arcebispo Viganò atacou Francisco por supostamente encobrir o abuso do arcebispo McCarrick e o acusou de suspender as sanções que Bento XVI impôs a McCarrick. Ele ainda acusou o cardeal Wuerl de não aplicar as supostas sanções.

No último domingo, o cardeal Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos, do qual o cardeal Wuerl também é membro, respondeu em carta aberta ao ataque do arcebispo Viganò contra o Papa, onde abordou a questão das sanções e declarou: “Concluo que a acusação é uma conspiração política destituída de fundamento real que poderia incriminar o Francisco e que feriu profundamente a comunhão da Igreja”.

Perguntado se ele concorda com o cardeal canadense quando ele chama o ataque do arcebispo Viganò de “um complô político”, o Cardeal Wuerl respondeu: “Em minha leitura desse testemunho, particularmente a parte que me toca, posso dizer que ele não é fiel aos fatos. Pode haver razões para isso, e acho que o Cardeal Ouellet está abordando o que pode ser o principal motivo. Em seu testemunho, o arcebispo Viganò diz claramente que havia sanções secretas, embora ele próprio diga que nunca as comunicou para mim. No entanto, este deveria ter sido seu dever. Acho difícil aceitar a versão dele, que me responsabiliza por implementar algo que ele nunca transmitiu, ou até mesmo seu insulto gratuito de que eu sou um mentiroso quando digo que nunca recebi informações dessas sanções secretas. Certamente eu nunca teria adivinhado que houve sanções contra o cardeal McCarrick em todas as vezes que o encontrei em recepções e eventos organizados pelo Arcebispo Viganò na Nunciatura Apostólica. A lacuna entre o que ele diz, o que ele fez e a sua calúnia colocam em questão para mim a verdadeira intenção e propósito de sua carta”

Em um comentário geral sobre a carta de Viganò, ele acrescentou: "Acho que há algo extremamente errado em qualquer documento que não forneça provas de acusações dessa gravidade".

Na entrevista, o cardeal confirmou mais uma vez que nunca recebeu uma queixa sobre o abuso do arcebispo McCarrick: “Deixei claro repetidas vezes que durante os 12 anos em que servi como arcebispo de Washington ninguém me apresentou qualquer alegação de má conduta sexual pelo cardeal McCarrick”.

Na carta ao cardeal Wuerl, o Papa afirma que “a divisão semeada pelo pai das mentiras que, tentando ferir o pastor, não quer nada mais do que dispersar a atenção de todos”.

Comentando sobre isso, o cardeal Wuerl disse à revista America: “O que ele está lembrando a todos nós é que, embora possa haver divergências sobre políticas e práticas, uma vez que se desce ao nível de simplesmente denunciar outras pessoas porque elas discordam de suas ideias, você está prejudicando a unidade da Igreja. Acho que é essa a intenção do Papa”.

Perguntado sobre quais são seus sentimentos hoje, ao renunciar no meio dessa situação muito particular, o Cardeal Wuerl respondeu: “Bem, antes de tudo, sou muito grato a Deus por esses quase 33 anos no ministério episcopal que me permitiram, na melhor fase da minha vida, a capacidade de servir a Cristo, seu povo, e sua Igreja. Estou tentando fazer isso da melhor maneira possível. Eu sempre serei grato por tudo. Acho que estamos vendo um novo momento na vida da Igreja hoje. Isso é percebido em nossa própria Conferência de Bispos. Por mais de 30 anos, assisti a divisões na política, na prática e sempre conseguimos trabalhar com as pessoas por um senso de colegialidade afetiva. Hoje, o que estamos ouvindo e vendo é um nível de diversidade em torno do ensino magisterial e isso é algo totalmente novo em nossa Conferência”.

Quando lhe perguntaram o que ele acha necessário para promover a unidade na Igreja dos Estados Unidos, o cardeal afirmou: “Acredito que a oração e uma reflexão sobre as principais responsabilidades de um pastor, tarefas das quais o Papa nos designou, são essenciais. A principal meta é continuar essa unidade com Pedro. Os bispos devem sempre funcionar com e nunca sem Pedro. Essa é a parte que precisamos destacar hoje, assim como a colegialidade afetiva, esse vínculo espiritual que é difundido entre nós e transcende a diversidade política ou prática”.

Segundo o cardeal Wuerl, ainda há esperança na Igreja dos Estados Unidos. “O que estou vendo é o despertar do compromisso de todos para fazer o que for necessário para curar e erradicar os abusos dentro da Igreja. Lembre-se de que fizemos grandes progressos. Agora é hora de dar uma olhada na Igreja, como hierarquia, para ver se estamos garantindo a responsabilidade por nossas ações”.

Quando perguntado onde ele sentiu que havia melhor contribuído durante seus 33 anos como bispo, o cardeal Wuerl disse: “Eu sempre vi meu ministério como pastoral e como ensino. Sou muito grato por ter tido a oportunidade ao longo destes anos - 18 anos em Pittsburgh e 12 em Washington -, onde eu pude, espero, fortalecer o ministério pastoral e focar na vida espiritual da Igreja. Me concentrei o máximo que pude na vida das paróquias e do ministério de ensino em nossas escolas, e nos nossos programas catequéticos, escrevendo cartas e livros pastorais para proporcionar alguma renovação contínua da proclamação da fé”.

O cardeal trabalhou sob o mandato de três papas. Muitas pessoas notaram como embora tenha trabalhado de perto e em grande harmonia com Bento XVI, hoje Wuerl parece ter trabalhado melhor com o Papa Francisco. “O que eu acho tão bonito no ministério do Papa Francisco é que ele aborda o testemunho de Jesus”, disse o cardeal.

“Temos a obrigação de proclamar a fé e de dar esse testemunho. Acho que ele destaca isso tão bem que é algo que está revitalizando a Igreja. Tantos jovens profissionais, e famílias estão olhando para Francisco e vendo nele um reflexo não apenas das palavras de Jesus, mas também de suas ações e testemunho”, acrescentou.

Em sua carta, Francisco disse que aceitou a renúncia do cardeal, mas pediu a ele que continuasse como "administrador apostólico". O cardeal não comentou se ficou surpreso com essa decisão, mas afirmou: "Eu certamente aprecio o voto de confiança que ele deposita em mim”. “O trabalho do administrador é ser um zelador até que a nova pessoa seja nomeada”, destacou Wuerl.

Perguntado se ficou desapontado com a forma como terminaram seus 12 anos como arcebispo, o Cardeal disse: “A razão pela qual pedi ao Santo Padre para aceitar minha renúncia foi precisamente para tirar o foco da questão sobre mim e concentrar na cura e no futuro. Espero que qualquer decepção que eu possa sentir seja superada pelo que pode ser conseguido através da minha renúncia”.

“A carta do Santo Padre demonstra fielmente o que eu estava tentando dizer, de que a primeira e principal responsabilidade de um pastor é o bem-estar da unidade. O pastor tem que fazer isso em palavras e atos, e pensando nisso pedi minha renúncia”, disse o cardeal.

“Essa foi o motivo do meu pedido e é o mesmo motivo da resposta do Papa. A unidade, o bem-estar e a unidade do povo de Deus devem ser o primeiro e mais importante dever e responsabilidade de um bispo. Minha renúncia foi uma maneira de tentar conseguir isso”, concluiu Wuerl.

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