Alemanha. "Documentos chave sobre abusos foram destruídos"

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27 Setembro 2018

A Conferência Episcopal Alemã apresenta nesta semana a investigação confiada a especialistas acadêmicos que documentaram 3.677 casos de abusos contra menores por parte de 1.670 religiosos, nos últimos 70 anos. As conclusões, vazadas há dez dias para a imprensa alemã e obtidas por este jornal, advertem também sobre as limitações de um estudo para o qual a Igreja resistiu em abrir, passo a passo, seus arquivos e com provas que foram destruídas no passado. Os especialistas consideram o estudo um passo na boa direção, mas pedem também uma investigação realmente independente.

A reportagem é de Ana Carbajosa, publicada por El País, 24-09-2018. A tradução é de Graziela Wolfart

Os investigadores reconhecem que não tiveram “acesso aos documentos originais da Igreja católica e que todos os arquivos foram revisados por funcionários diocesanos ou por escritórios de advogados designados por eles”. Essa metodologia contrasta, por exemplo, com a da recente investigação do grande júri da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Os investigadores alemães afirmam, além disso, que “há indicações de que documentos relevantes foram destruídos ou manipulados no passado” e explicam também que o grau de colaboração das diferentes dioceses “variou significativamente”.

Em uma majestosa sala da sede arcebispal de Bamberg, o arcebispo Ludwig Schick explica que “nenhuma instituição ou empresa permite que pessoas externas tenham acesso a documentos pessoais. Também porque há papéis que não têm nada a ver com os casos. Além disso, a privacidade dos que não são vítimas deve ser preservada”. Contudo, o arcebispo Schick também afirma que “não retivemos nenhum material relacionado com casos ou possíveis casos [de abusos]. Tudo o que tínhamos, nós dispusemos”.

O arcebispo defende que “a maioria [dos agressores] morreu e que, dos que continuam vivos, nos casos em que seu crime tenha prescrito, foram aplicadas sanções canônicas”. São crimes e é necessário fazer tudo o que for possível para que os perpetradores sejam punidos. É preciso evitar que voltem a acontecer no futuro”. Isso inclui abordar questões como o celibato? “Não acredito que a pedofilia esteja relacionada com o celibato, mas sou a favor de pensar em tudo o que possa prevenir os abusos, sem excluir nenhum tema, desde o princípio”.

Isso ajuda a voltar à gênese da investigação que agora é apresentada para compreender algumas chaves. Há seis anos, o instituto de investigação da Baixa Saxônia (KFN), o grande centro especializado em abusos, assinou um contrato com a conferência episcopal para realizar uma ambiciosa investigação. A partir de 2010, tinham vindo à luz vários escândalos que comoveram a sociedade alemã. Anos antes, o John Jay College, dos Estados Unidos, tinha publicado um relatório sobre os abusos da Igreja, que o então diretor do KFN, Christian Pfeiffer, pensou que poderia servir de modelo na Alemanha. A ideia agradou a Igreja Católica e deram início aos trabalhos.

Também a Igreja evangélica

Christian Rommert é um rosto familiar para muitos alemães. Este pastor protestante oferece vídeo-mensagens pastorais nos fins de semana na televisão pública. É, além disso, especialista em proteção de menores e abusos e acredita que a situação na igreja evangélica alemã não é muito diferente da católica. Uns 23 milhões de alemães professam este ramo do cristianismo, frente a um ligeiramente número superior de católicos. “Não conhecemos a porcentagem oculta, mas suspeito que é similar”, explica Rommert por telefone.

Para Rommert, a investigação atual demonstra “que durante muito tempo nos equivocamos pensando que estas coisas não aconteciam nas igrejas”. Por outro lado, este pastor explica que “a violência sexual é sempre um abuso de poder [...] e nas instituições muito hierárquicas sempre existe o risco de que se explore esse poder. Se o agressor era posicionado muito alto na hierarquia, podia silenciar às vítimas”. “Junto à obediência, uma aproximação moralista da sexualidade, em vez de aberta, e a desigualdade entre homens e mulheres na Igreja” são para este pastor outros dos fatores chaves que explicam os abusos no seio da igreja. Mas Rommert também pensa que “algo está mudando” e está convencido que com base nas novas investigações, cada vez mais gente contará o que lhe passou.

O problema é que imediatamente surgiram os desencontros. As autoridades eclesiásticas se negaram a permitir que os documentos saíssem de suas dependências. Pfeiffer propôs, segundo sua versão, contratar ex-juízes e promotores, que investigariam dentro das dioceses e assim deram início aos trabalhos em Hildesheim. Ao abrir os arquivos, os investigadores do KFN viram que ali estavam as identidades das vítimas, como tinham sido compensadas... “Eram casos que nunca tinham se tornado públicos”, afirma agora Pfeiffer.

“Pudemos ver que as vítimas tinham sido tratadas de maneira dolorosa, que eram desestimuladas a ir à polícia. Receberam para que se calassem. As vítimas eram crentes verdadeiros que temiam ser expulsos da Igreja”. Conta Pfeiffer e corrobora o relatório que se tornará público nesta semana, que quando puniam um padre que tinha abusado, transferindo-o para outra congregação, não alertavam a comunidade de acolhida da causa da transferência. “Havia indicações de que a maioria das transferências não foi acompanhada pela correspondente informação à comunidade receptora sobre o possível risco de reincidência”, afirma o relatório elaborado por sete acadêmicos durante quatro anos e que se apresenta esta semana. A experiência pessoal de Pfeiffer se encaixa com esta afirmação. “Um dia, o bispo me chamou para dizer que se arrependia de ter transferido um padre sem avisar, que em seu segundo destino voltou a abusar e que morreria sendo culpado por esse erro”, recorda agora.

Pouco depois, surgiram os primeiros atritos com a diocese de Ratisbona e a Igreja lhes advertiu que seus achados deveriam ser autorizados antes de sua publicação, segundo Pfeiffer. Em Ratisbona, cerca de 500 crianças sofreram abusos, incluídos 67 casos de agressões sexuais entre 1945 e 1990. “Não podíamos deixar que nos censurassem, sendo assim o contrato se rompeu”, dando margem a um amargo debate público na Alemanha.

Então, a Conferência Episcopal Alemã buscou novos investigadores e assinaram um acordo com especialistas das universidades de Mannheim, Heidelberg e Giessen. O resultado é um relatório de 350 páginas a ser apresentado nesta terça-feira, em Fulda, a cujas conclusões este jornal teve acesso. No relatório “estritamente confidencial” e datado em 3 de setembro, se detalha que o objetivo geral do estudo é “estabelecer o número de abusos sexuais contra menores” e “identificar as estruturas eclesiásticas e dinâmicas que os permitiram”. As conclusões chegam a 3.677 casos de abusos documentados, em que metade dos casos são com vítimas de no máximo 13 anos. Os investigadores advertem, no entanto, de que as evidências se referem apenas aos casos conhecidos e que há dados sobre “as zonas obscuras que não foram obtidos, portanto, a proporção da situação real está subestimada”.

Os abusos foram cometidos sobretudo nas residências privadas ou oficiais dos acusados e uma parte importante também nas igrejas, escolas e acampamentos de verão. A confissão foi utilizada frequentemente como via para conquistar a aproximação e ocultar os abusos. Mais de 80% das vítimas sofreram abusos que incluíram contato físico. Dessas, 15,8% sofreram penetração anal, vaginal ou oral.

Explicam que as diferenças entre as denúncias de abusos e as incidências nas fichas dos acusados lhes faz pensar que há uma “zona obscura” e que a amplitude dos abusos é supostamente muito maior. Em 33,9% dos casos, foi realizado um procedimento punitivo de direito canônico e um quarto deles acabou sem punições. As punições drásticas ou irreversíveis como a expulsão foram um número menor. A maioria dos castigos foi leve, “como a transferência, com potenciais consequências problemáticas para o risco de reincidência”.

A investigação afirma que “o abuso sexual é sempre um abuso de poder que pode ser facilitado pelas estruturas clericais autoritárias da Igreja católica”.

“Os colegas trabalharam em condições muito difíceis, mas mesmo assim os resultados são impressionantes”, acredita Pfeiffer. Assim como ele, também Thomas Pfister, advogado criminalista que dirigiu uma investigação de centenas de abusos no mosteiro bávaro de Ettal, pensa que é uma boa notícia que haja uma investigação como a que agora se apresenta. Contudo, também acredita que falta muito a saber, que para poder conhecer a verdadeira extensão do emaranhado de agressões e acobertamentos que arruinou a vida de milhares de crianças na Alemanha “são necessários promotores independentes, com acesso a todas as provas”. Para Pfister, em qualquer caso, como para muitas vítimas, o principal problema é que tudo começa a vir à luz “muito tarde”.

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