Padres pedófilos: o que 1968 tem a ver?

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21 Maio 2011

O relatório norte-americano sobre a pedofilia vê uma conexão entre a preparação antiquada do clero formado nos anos 1940 e 1950 e a inadequação dos padres para compreender as revoluções culturais (entre as quais a revolução sexual) dos anos 1960 e 1970.

A opinião é de Massimo Faggioli, doutor em história da religião e professor de história do cristianismo no departamento de teologia da University of St. Thomas, em Minneapolis-St. Paul, nos EUA. O artigo foi publicado na revista Europa, 21-05-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O catolicismo romano e 1968 mantêm uma relação complicada, especialmente desde a eleição de Bento XVI diante. Mas afirmar, como se fez nos últimos dias, que a Igreja norte-americana "dá a culpa ao 68" pelos abusos sexuais cometidos pelo clero é uma forçação ideológica que distorce o equilíbrio do documento.

Publicado no dia 18 de maio, o relatório decepciona ambas as partes, liberais e conservadores, e oferece uma explicação complexa para o fenômeno trágico da sex abuse crisis, que foi descoberta pela imprensa norte-americana em 2001. O longo relatório (152 páginas, com 481 notas de citações científicas) é intitulado As causas e o contexto dos abusos sexuais de menores por padres católicos nos EUA (1950-2010) (disponível na íntegra aqui).

Organizado pelo John Jay College de Justiça Criminal, da City University of New York, e financiado em parte pela Igreja Católica e em parte pelo Instituto Nacional de Justiça, do Ministério da Justiça norte-americano, é um relatório escrito por estudiosos (entre os quais uma professora universitária, minha colega e vizinha de gabinete, Katharina Schuth): é um relatório não publicado pela Igreja, mas dirigido à Igreja, que estuda o fenômeno e apresenta recomendações à Igreja.

É o estudo mais completo e sistemático sobre os abusos sexuais na Igreja e coloca em crise alguns mitos bem consolidados. O primeiro mito é de que os "padres predadores" (mais de 6 mil foram acusados nos últimos 50 anos) eram pedófilos: o relatório diz que os padres que cometeram abusos não eram "padres pedófilos", mas sim padres que abusaram de menores só pela facilidade de acesso aos menores do sexo masculino na sua prática pastoral.

Em outras palavras, segundo o relatório, só uma pequena parte dos culpados era "especializada" no abuso dos menores, enquanto a grande maioria era composta por "predadores generalistas", ou seja, que não escolhiam as vítimas por gênero ou idade.

Em segundo lugar, a pesquisa afirma que não há provas para afirmar que os padres gays eram mais propensos aos abusos do que os padres não gays: na verdade, à entrada de mais homossexuais nos seminários, a partir dos anos 1970, correspondeu uma queda no número de abusos.

Em terceiro lugar, não há nenhuma conexão demonstrável entre abusos sexuais cometidos pelo clero e a obrigação do celibato, em comparação com as estatísticas dos abusos cometidos por homens casados. Mas o relatório também indica que uma melhor preparação do clero ao celibato esteve na origem da queda do número dos abusos a partir dos anos 1980.

Quanto ao 68, o relatório vê uma conexão entre a preparação antiquada do clero formado nos anos 1940 e 1950 e a inadequação dos padres para compreender as revoluções culturais (entre as quais a revolução sexual) dos anos 1960 e 1970.

O relatório reconhece o problema do isolamento institucional que levou a cobrir os abusos e traça um paralelo com os casos de abusos por parte da polícia (amplamente documentados nos Estados Unidos): estresse, isolamento e falta de controles são fatores que aumentam os "comportamentos desviantes".

No estudo, não há elementos de tranquilização ou indulgência para os bispos e a Igreja como instituição: denuncia-se o instinto de autoproteção e de autoabsolvição da Igreja como o comportamento largamente dominante na instituição eclesiásticas até recentemente. Na parte final, sobre as recomendações, o relatório convida a Igreja, e em particular os bispos, a adotar procedimentos transparentes e responsáveis: não está claro como essas recomendações serão recebidas. Essa parte final do relatório não é vinculante para os bispos norte-americanos, os verdadeiros destinatários do estudo.

Concentram-se em três áreas os conselhos para o futuro: formação, modelos de prevenção das situações de risco e sistemas de controle. Mas só três páginas são dedicadas aos sistemas para a melhoraria da transparência e da responsabilidade no interior das Igrejas locais no caso de abusos sexuais cometidos pelo clero.

O relatório foi recebido nos Estados Unidos com atenção e com certa equanimidade no interior de uma Igreja Católica dividida ao longo de várias linhas de ruptura teológico-culturais.

Críticas foram levantadas sobre a adequação do uso, neste documento, da distinção clínica entre efebofilia e pedofilia, sendo esta última definida como o abuso de crianças de 13 anos de idade ou menores de 13 anos.

Mas os resultados não oferecem "munições teológicas": nem aos liberais, que viam na crise uma oportunidade para provar uma ligação entre o celibato do clero e os abusos sexuais, nem aos conservadores, que tentavam fazer da presença dos gays na Igreja o bode expiatório.

Resta saber se esse estudo representa só a situação da Igreja norte-americana, ou se pode ser aplicado também a outras Igrejas católicas, como a italiana, na qual só alguns casos vieram à luz até agora.

Mas, do relatório do John Jay College, surge que o claro culpado pelos acobertamentos dos abusos são, sem dúvida, os bispos e a cultura do clericalismo: a história da sex abuse crisis, uma outra trahison des clercs.

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