“Criou-se um grande vazio de poder na Igreja dos Estados Unidos”. Entrevista com Massimo Faggioli

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24 Agosto 2018

“O escândalo dos abusos e a deslegitimação do episcopado criaram um grande vazio de poder na Igreja” dos Estados Unidos, onde se aplica “uma mentalidade de corporação, na qual o Papa é visto como o administrador delegado e os bispos como seus gerentes, a quem ele pode simplesmente despedir”. É o que explica nesta entrevista ao Vatican Insider o professor de teologia e estudos religiosos Massimo Faggioli, da Villanova University, da Filadélfia.

A entrevista é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 23-08-2018. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

O que surgiu com a publicação do relatório da Pensilvânia e por que agitou tanto a opinião pública?

O Grande Júri instituído pelo procurador geral da Pensilvânia apresentou, no dia 14 de agosto, um relatório que expõe em detalhes (1.400 páginas) a maneira como os dirigentes da Igreja católica, em seis dioceses da Pensilvânia, ocultaram os abusos sexuais cometidos pelo clero (300 sacerdotes acusados; mais de 1.000 vítimas) nos últimos setenta anos (nas outras duas dioceses do estado, entre as quais está a Filadélfia, havia sido apresentado um relatório, há alguns anos). Surge um marco de acobertamento sistemático, “de manual”, dos casos de pedofilia cometidos pelo clero. Um relatório semelhante, por extensão, mas muito mais sistemático e científico, é o que publicou o John Jay College, da City University of New York, em 2001.

Os fatos do Grande Júri não são novos, mas em grande parte “históricos”, quer dizer que se verificaram (em sua maioria) ao longo de um período que chega até os anos 1990. O relatório surpreendeu a opinião pública por alguns motivos. Em primeiro lugar, quase nenhum dos acusados será processado, não só porque alguns faleceram enquanto isso, mas porque os crimes prescreveram. Um segundo fator é a importância da Igreja católica na Pensilvânia, que é um dos estados berço do catolicismo estadunidense, tanto na história dos últimos dois séculos, como na atualidade (Filadélfia e Pittsburgh são duas dioceses que deram um elevado número de bispos para a Igreja estadunidense). O relatório foi publicado em um momento no qual outros escândalos criam um mosaico particularmente inquietante para a Igreja nos Estados Unidos: as revelações sobre a vida dupla do ex-arcebispo de Washington, McCarrick, que provocaram sua renúncia do Colégio Cardinalício (uma sanção com pouquíssimos antecedentes na história), e uma série de investigações sobre alguns seminários estadunidenses (Boston, Lincoln, Filadélfia), surgidas graças a denúncias de abusos sexuais contra os seminaristas dentro dos próprios seminários.

O que surgiu contra o cardeal Donald Wuerl? O que lhe parece sua posição?

Contra o cardeal Wuerl há um panorama complexo: por um lado, Wuerl não teve medo de enfrentar o tribunal da Signatura Apostólica do Vaticano, que queria que voltasse a admitir um sacerdote da diocese de Pittsburgh ao ministério (e Wuerl prevaleceu), ao passo que em outros casos parece que teria colaborado para o acobertamento de alguns casos, por exemplo sem oferecer à diocese de chegada toda a informação sobre o caso de um sacerdote pedófilo proveniente de sua diocese. É uma posição muito difícil, sobretudo porque Wuerl se tornou um símbolo (bispo de Pittsburgh de 1988 a 2006 e arcebispo de Washington desde 2006) para além das acusações contra ele, das quais não pôde se defender em público.

Um elemento essencial para compreender o contexto é que os escândalos também são a oportunidade para o catolicismo neotradicionalista das jovens gerações estadunidenses atacar bispos e cardeais próximos ao Papa Francisco. O escândalo dos abusos e a deslegitimação do episcopado criaram um grande vazio de poder na Igreja dos Estados Unidos e é um vazio que alguém preencherá. Enganam-se aqueles que pensam que a solução é a renúncia massiva de todos os bispos estadunidenses: o vazio deixado pelos bispos não será preenchido pelos simples leigos.

Em algumas das respostas ao relatório do Grande Júri, há bispos que criticam algumas de suas interpretações a respeito dos acobertamentos. O que pode dizer a esse respeito?

O relatório do Grande Júri é o resultado não de um processo, mas de uma investigação. Portanto, o relatório do Grande Júri é o documento da acusação: os jurados escutam e veem somente o que os procuradores da acusação produzem diante deles e, portanto, no relatório não existe a possibilidade para que os acusados se defendam. Neste sentido, é perfeitamente compreensível que a Santa Sé não queira se basear em um relatório do Grande Júri (e sobre as reações da imprensa) para decidir a sorte de muitos bispos envolvidos no acobertamento dos abusos. O caso da Pensilvânia é diferente, por exemplo, do caso do bispo de Adelaide (Austrália), que renunciou há algumas semanas, depois da sentença do tribunal. Por outro lado, o Grande Júri também publicou os documentos originais que, se não representam a última palavra do ponto de vista da responsabilidade penal, há uma responsabilidade moral e pastoral por parte de alguns bispos que é difícil não enxergar.

O relatório reconhece que a Igreja deu passos positivos nos últimos anos. Qual é a percepção nos Estados Unidos a esse respeito? Firmou-se uma cultura da proteção às crianças?

Diria que está se firmando. Posso testemunhar pessoalmente que tive que participar de dois cursos de prevenção a abusos (um como pai de crianças que vão a uma escola católica e outro como professor de uma universidade católica). A Igreja estadunidense deu enormes passos, a partir de 2002, graças à chamada “carta de Dallas”: é um dos fatos positivos que o relatório do Grande Júri reconhece. O problema é que os casos de abusos sexuais por parte do clero são denunciados anos ou décadas depois. Então, a Igreja deve se preparar para um período muito longo (durante, ao menos, toda a próxima geração) de revelações de abusos cometidos antes da aplicação das linhas-guia e dos protocolos elaborados após o escândalo revelado pelo Boston Globe, em 2002 (depois de cerca de uma década de denúncias por parte da imprensa católica progressista, a partir dos anos 1990, e sistematicamente ignoradas).

Por que, em sua opinião, a carta de Francisco ao “povo de Deus” sobre o tema dos abusos foi tão criticada? O que é o que se espera que faça?

A carta foi apreciada porque identifica o problema do clericalismo como a questão principal. Foi criticada porque não exprime passos concretos que é necessário dar ou que foram dados na luta contra os abusos sexuais e contra o silêncio na Igreja. Especialmente nos Estados Unidos, espera-se que o Papa Francisco passe a uma fase legislativa e executiva em relação a accountability dos bispos que não vigiaram (ou pior). Espera-se que o Papa Francisco faça uma lista de bispos estadunidenses, como já fez em outros casos, quer dizer, aceitar a renúncia ou convidar para que estes bispos renunciem.

Depois, vem a questão da corresponsabilidade do laicato e da sinodalidade na Igreja (que permanece no papel, após o discurso de Francisco de outubro de 2005) e da formação do clero nos seminários, que nos Estados Unidos é um problema sério. A distância entre o Vaticano e os Estados Unidos é também cultural.

Por um lado, a cultura estadunidense leva muito a sério as leis e tende a aplicar à Igreja uma mentalidade de corporação, na qual o Papa é visto como um administrador delegado (CEO) da Igreja católica mundial, e os bispos como seus gerentes, a quem o Papa pode simplesmente despedir.

Por outro lado, o “demos” estadunidense sempre suspeita da autoridade e da elite (política, cultural e religiosa: a deslegitimação do episcopado estadunidense deve ser entendida neste marco). Também é preciso dizer que há um problema de comunicação institucional por parte do Vaticano, que não consegue alcançar o mundo de língua inglesa e, particularmente, estadunidense. Durante o Pontificado do Papa Francisco, foram realizadas coisas importantes na frente de luta contra a pedofilia, mas não há uma comunicação eficaz, que neste âmbito é crucial, não só para defender o Papa, mas também para a reputação própria da Igreja.

Na carta, Francisco acusa o clericalismo e o abuso de poder. Vários dos que o criticam afirmam que o verdadeiro problema é a homossexualidade estendida e praticada no clero. O que lhe parece?

A atual crise é diferente da de 2002, porque então estava o Papa João Paulo II, que era o fiador a respeito da transição da Igreja do Concílio ao pós-Concílio. A Igreja estadunidense, nos últimos quinze anos, viveu uma radicalização do conservadorismo religioso de sacerdotes e intelectuais. A atual crise dos abusos é interpretada por eles como um fenômeno que nasce dos erros do próprio Concílio e não apenas do pós-Concílio, e se relaciona com o surgimento da questão homossexual e da legalização do matrimônio homossexual nos Estados Unidos, em 2015.

Este catolicismo neotradicionalista acredita que os abusos sexuais são cometidos somente pelo clero homossexual (coisa que os dados do relatório do John Jay College desmentem) e que a crise dos abusos pode ser resolvida por uma espécie de jacobinismo católico que deveria eliminar a todos os bispos e sacerdotes minimamente comprometidos no diálogo com a cultura moderna, para os substituir por um clero jovem caracterizado por uma santidade pessoal e por um fascínio por uma Idade Média mítica e pela rejeição de uma relação Igreja-mundo baseada no princípio de realidade.

A homossexualidade no clero é uma questão que deve ser enfrentada, mas a crise dos abusos não se resolve convertendo os homossexuais da Igreja em bodes expiatórios de um escândalo que tem raízes antigas, que remontam a muito antes do Concílio Vaticano II. O debate sobre o escândalo dos abusos cometidos pelo clero corre o risco de se tornar, infelizmente, outro capítulo da história das “batalhas culturais” dos últimos 30 anos do catolicismo estadunidense.

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