"Spotlight" exibe bastidor de jornal que revelou como igreja escondia pedofilia

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07 Janeiro 2016

"Mais do que expurgar o drama das vítimas desses padres, o filme quer levar o jornalismo ao confessionário". A análise é de Guilherme Genestreti, em artigo publicado por Folha de S. Paulo, 07-01-2016.

Eis o artigo.

Um "pecado jornalístico" é deixar a verdadeira notícia escapar por entre os dedos.

Na Boston do começo dos anos 2000, a notícia de verdade não era informar sobre mais um caso de abuso sexual cometido por um padre pedófilo, mas revelar por que, após 34 anos e 130 relatos de estupro, ele continuava impune.

A questão assola a equipe de jornalistas retratados em "Spotlight - Segredos Revelados", recém-eleito o melhor filme do ano pela associação de críticos dos EUA e que estreia nesta quinta (7) no Brasil com grandes chances de se destacar no Oscar.

"Spotlight" é inspirado no furo jornalístico dado pelo diário "The Boston Globe", que revelou como a cúpula local da Igreja Católica acobertou dezenas de padres acusados de molestar crianças e adolescentes –a cobertura rendeu um prêmio Pulitzer em 2003.

"É a história de um abuso físico e espiritual: de crianças que se sentiram abandonadas por não terem a quem recorrer", disse o diretor Tom McCarthy logo depois da exibição do longa, que fez sua estreia mundial em setembro, durante o Festival de Veneza.

O filme mostra como a Igreja Católica estava imiscuída nos círculos de poder da cidade americana, onde era mais forte do que a média graças à comunidade irlandesa.

"A polícia, a política, as famílias importantes: todos tinham algum rabo preso com a igreja na cidade", afirmou o ator Mark Ruffalo, que interpreta um dos repórteres que trabalharam nesse caso.

Mais do que expurgar o drama das vítimas desses padres, o filme quer levar o jornalismo ao confessionário.

Michael Keaton faz o papel do chefe da equipe Spotlight, espécie de destacamento do jornal devotado a reportagens de fôlego. Além de Ruffalo, Rachel McAdams e Brian d'Arcy James compõem a equipe de jornalistas. Liev Schreiber faz o editor-executivo, um novato no "Boston Globe".

Nem abutres nem super-heróis –polaridade que não raro é o retrato da profissão no cinema–, os repórteres do filme enfrentam as agruras mundanas da apuração: as fontes desconfiadas, a concorrência com outros veículos, a checagem de dados e os egos e rivalidades internos.

Com o novo filme, McCarthy de alguma forma se redime após a direção de "Trocando os Pés" (2014), outra comédia com Adam Sandler malhada pela crítica. Em Veneza, "Spotlight" roubou os holofotes mesmo fora da competição do festival.

"Sou pessimista quanto aos rumos da igreja, não espero reações dela. Mas adoraria que o papa assistisse", disse o diretor, de formação católica.

Bem, o papa ainda não se pronunciou sobre "Spotlight", mas Luca Pellegrini, comentarista de cultura pop na rádio do Vaticano, o chamou de "honesto" e "persuasivo".

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