Chile: Igreja Católica em deriva, uma situação nunca vista antes. Seria o colapso final?

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26 Julho 2018

Bento XVI: “É preciso agir com urgência para enfrentar esses fatores, que tiveram consequências tão trágicas para as vidas das vítimas e das suas famílias e obscureceram a luz do Evangelho a tal ponto, ao qual nem sequer séculos de perseguição tinham chegado”.

A nota é de Luis Badilla, publicada por Il Sismografo, 25-07-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Não nos anima nenhum espírito ou impulso alarmista, acusação que nos foi dirigida antes da viagem do Papa Francisco ao Chile e ao Peru em janeiro passado. Os fatos, durante a viagem, e acima de tudo aquilo que aconteceu depois, nos deram razão, infelizmente.

Tudo o que aconteceu após a partida do papa para o Peru, em 18 de janeiro passado, até hoje tem-se revelado infinitamente muito mais grave e preocupante do que tínhamos previsto com base nas muitas notícias recebidas nos últimos 20 anos de amigos, leigos, bispos, religiosas e agentes humanitários.

Entre outras coisas, em uma viagem nossa à capital do país, em 1993, já havíamos entendido o que acontecia com o catolicismo chileno, sua hierarquia e suas comunidades. Depois, muitos bispos de passagem por Roma só confirmavam, a cada ano, a piora irrefreável do declínio.

Mas hoje, 25 de julho, seis meses após a visita do papa, tudo, apesar do que Francisco e seus colaboradores fizeram, parece ter piorado de modo quase irreversível. As notícias, os comentários, os estados de ânimo sobre a realidade chilena atual parecem uma espécie de impulso para o desencorajamento conclusivo e para a rendição final.

A própria Igreja, sua hierarquia, exceto com algumas exceções, se apresenta aos olhos dos fiéis como uma assembleia em deriva, em que o lema é o usual: “Salve-se quem puder!”.

A sucessão de novos escândalos sexuais de todos os tipos, o silêncio dos bispos que preferem escapar pela janela antes de falar com um jornalista (Nota de IHU On-Line: o jornalista refere-se à rede de televisão chilena que tenta entrevistar o bispo Valenzuela, discípulo de Karadima, e que foge do seu escritório pela janela, para não encontrar-se com a jornalista) , sacerdotes na prisão ou forçados a desfilar diante de diversos tribunais, o cardeal Ezzati convocado por um juiz por ser acusado de ocultamento, 23 religiosas afastadas das comunidades por terem denunciado comportamentos inapropriados de sacerdotes, estatísticas oficiais sobre os abusos, processos, condenações que, como escreveu o L’Osservatore Romano nessa terça-feira, 23, “fazem tremer”... tudo isso (e mais ainda) criou objetivamente a sensação de catástrofe e o sofrimento dos católicos, em particular dos simples, homens e mulheres de piedade e de bondade, de amor à Igreja de Cristo, sensação enorme e dilacerante.

Não há tempo a perder. O remédio poderia chegar tarde demais.

O caso irlandês e as palavras de Bento XVI

Neste ponto, vale a pena reler alguns trechos da carta de Bento XVI aos católicos da Irlanda, de alguns anos atrás, quando a Igreja local enfrentou problemas semelhantes aos que hoje a Igreja chilena enfrenta.

* * *

Nas últimas décadas, a Igreja do seu país teve que se confrontar com novos e graves desafios à fé que surgiram da rápida transformação e secularização da sociedade irlandesa. Verificou-se uma mudança social muito rápida, que muitas vezes atingiu com efeitos hostis a tradicional adesão do povo ao ensinamento e aos valores católicos. Com frequência as práticas sacramentais e devocionais que sustentam a fé e a tornam capaz de crescer, como por exemplo a confissão frequente, a oração cotidiana e os ritos anuais, não foram atendidas. Também foi determinante nesse período a tendência, até da parte de sacerdotes e religiosos, a adotar modos de pensamento e de juízo das realidades seculares sem referência suficiente ao Evangelho. O programa de renovação proposto pelo Concílio Vaticano II por vezes foi mal compreendido e na realidade, à luz das profundas mudanças sociais que se estavam a verificar, não era fácil avaliar o modo melhor de o realizar. Em particular, houve uma tendência, ditada por reta intenção mas errada, a evitar abordagens penais em relação a situações canónicas irregulares. É nesse contexto geral que devemos procurar compreender o desconcertante problema do abuso sexual dos jovens, que contribuiu em grande medida para o enfraquecimento da fé e para a perda do respeito pela Igreja e pelos seus ensinamentos.

Só examinando com atenção os numerosos elementos que deram origem à crise atual é possível empreender uma diagnose clara das suas causas e encontrar remédios eficazes. Certamente, entre os fatores que contribuíram com isso podemos enumerar: procedimentos inadequados para determinar a idoneidade dos candidatos ao sacerdócio e à vida religiosa; insuficiente formação humana, moral, intelectual e espiritual nos seminários e nos noviciados; uma tendência na sociedade a favorecer o clero e outras figuras com autoridade e uma preocupação inoportuna pelo bom nome da Igreja e para evitar os escândalos, que levaram como resultado à malograda aplicação das penas canônicas em vigor e à falta da tutela da dignidade de cada pessoa. É preciso agir com urgência para enfrentar esses fatores, que tiveram consequências tão trágicas para as vidas das vítimas e das suas famílias e obscureceram a luz do Evangelho a tal ponto, ao qual nem sequer séculos de perseguição tinham chegado.

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