“A Igreja chilena é uma igreja enferma”. Entrevista com Hernán Reyes

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03 Julho 2018

Hernán Reyes é correspondente em Roma da agência de imprensa argentina Télam e recentemente publicou América Latina, um importante livro de entrevistas com o Papa Francisco.

Como é possível deduzir do título, Reyes examina as origens latino-americanas do Papa do fim do mundo, com uma visão especial da Conferência de Aparecida, na qual Bergoglio desempenhou um papel principal e que, por sua vez, é uma chave fundamental para entender seu pontificado. Um trabalho muito interessante, que ajuda a compreender melhor o pano de fundo cultural deste Pontífice.

Não é por acaso que Reyes tenha tido a oportunidade, há apenas alguns meses, de apresentar seu livro na China, país com o qual o Vaticano está em contínuo diálogo, e possa utilizá-lo como uma ferramenta valiosa para aprofundar o conhecimento do pensamento do Papa Francisco. Entrevistamos Hernán Reyes a partir dos fatos mais recentes sobre a América Latina e seus povos.

A entrevista é de Francesco Gagliano, publicada por Religión Digital, 01-07-2018. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

A crise da Igreja e do episcopado no Chile foi o tema mais urgente que o Papa precisou enfrentar, recentemente, na América Latina. Qual é a situação no restante da região? Acredita que pode haver casos similares no horizonte?

Embora o tema dos abusos, lamentavelmente, tenha tido suas réplicas em todos os países, o caso chileno mostra que o problema era muito mais profundo, que havia uma corrosão na Igreja que, embora houvesse os ataques sexuais como a ponta do Iceberg, revelou uma armadilha de acobertamentos e problemas de muito maior profundidade. Não em vão, foi o próprio Papa Francisco que falou de “abusos de consciência, de poder e sexuais”. Ou seja, sem sombra de dúvidas, os abusos foram a parte mais visível e repudiável, mas não teriam sido possíveis fora desse âmbito de obscuridade no qual se deram. Foi justamente essa singularidade do “caso chileno”, de uma Igreja enferma sem sombra de dúvidas, o que provocou a “singularidade” das medidas que o Pontífice adotou e que seguirá adotando para lhe enfrentar.

Dom Víctor Fernández, recém-eleito bispo de La Plata, falava sobre a exploração política do Papa na Argentina. Pode nos ajudar a delinear melhor este fato e como Francisco é percebido em seu país, após cinco anos de pontificado?

São vários os caminhos que levaram a esta paradoxal situação no país. Na raiz, de todos os modos, estão a deturpação e manipulação político-midiática que se fez de Jorge Bergoglio no país, desde seus anos de cardeal e Arcebispo de Buenos Aires. Assim como é impossível entender muitas de suas ações como Papa, sem rastrear o seu “DNA portenho” (diálogo inter-religioso, ecumenismo, por exemplo), o problema da instrumentalização política de Francisco não começou em 2013. Há um conceito que pode servir de aglutinador: salvo exceções, os que antes criticavam Bergoglio, hoje adoram Francisco; e os que adoravam Bergoglio, agora o criticam. Mas, por qual motivo, se em essência a imensa maioria das posições do Papa são as mesmas? Porque durante anos os meios de comunicação embarcaram na construção de um Bergoglio cardeal que fosse o farol opositor ao Governo de então, manipulando suas mensagens e homilias nessa direção. Após sua eleição, em março de 2013, e se esquivando da dimensão internacional que Francisco adquiriu, esses mesmos meios de comunicação começaram um caminho de semantização do Papa, mas em sentido oposto.

De qualquer forma, a maior parte das críticas não deixa de ser reproduzida nesse mundo de classe média alta, urbana e de boa posição socioeconômica que são as redes como Twitter e similares. O povo profundo, as 23 províncias que cercam a capital argentina, que historicamente desenvolveram mais anticorpos ao veneno midiático, mantém-se à margem desta manipulação de Francisco. Vê-se, por exemplo, a festa popular que foi a posse do cargo do novo bispo auxiliar de Buenos Aires, Gustavo Carrara, em inícios do ano, uma verdadeira festa popular com enormes demonstrações de afeto ao Papa. Ou cada encontro pastoral que se faz no interior do país; ou os argentinos que todas as quartas-feiras cruzam o oceano e chegam à Praça São Pedro para ver a “seu” papa, ainda que seja a cem metros de distância.

Em seu livro, traçando um caminho ideal a partir da Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano de Medellín, em 1968, até a V Conferência de Aparecida, em 2007, o Papa disse em certo ponto que não é necessária uma sexta Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano. Já perguntaram a ele sobre esta passagem em uma entrevista prévia, mas gostaria de lhe perguntar se, em certo sentido, o próximo Sínodo para a Amazônia não pode ser, alguma maneira, uma continuação desse caminho.

Concordo plenamente em que, no momento, o Sínodo do próximo ano será o mais parecido a uma sexta assembleia do CELAM. Basta olhar os países reunidos no conselho assessor da secretaria geral do Sínodo para confirmar a plena participação dos países da região. Inclusive, os cardeais criados no consistório de 28 de junho, ao menos o de Peru e o de Bolívia, estão indubitavelmente assinalados nas áreas de interesse do Sínodo. Mas, além disso, acredito que há outro elemento de importância: é uma oportunidade imbatível para que a Igreja latino-americana termine de transitar, parafraseando o uruguaio Alberto Methol Ferré, de “Igreja reflexo” a “Igreja fonte”, na que tem produção de conhecimento e proposição de novas formas de evangelização. Porque, para além das características particulares, e sem querer cair logo na exportação de “modelos fechados”, o acúmulo de propostas, discussões e conhecimento que será gerado no caminho para o Sínodo Pan-Amazônico depois poderá servir para regiões do planeta com temáticas similares.

Não seria se de estranhar que, depois, alguns delineamentos possam ser extrapolados para regiões da bacia do Congo na África, às densas populações de matas nativas no sudeste asiático, às regiões de reservas indígenas do Canadá, por exemplo. Uma das perguntas-chave: que modelo de inserção para os povos indígenas a Igreja latino-americana está pensando? É a mesma pergunta que muitas outras Igrejas devem estar fazendo. E na América Latina é preciso aproveitar a oportunidade, talvez inédita em nossa História de cinco séculos, sendo a primeira vez que podemos fazê-lo sui generis, sem imposições de fora, nem adoção de receitas estrangeiras. Essa será uma das grandes riquezas do Sínodo.

Alguns defendem que o Pontificado do Papa Francisco está ajudando a compreender a história da América Latina de uma maneira diferente, muitas vezes distorcida por uma leitura de mundo dividida em dois blocos, da guerra fria. Com Francisco, descobrimos outra história que já não é contada pelos “vencedores”, mas, sim, pelos “vencidos”, como diríamos ao pensar no período colonial. Você concorda?

Acredito que nessa direção é de muita relevância uma das passagens do vídeo-mensagem que enviou aos jovens de Rosário, no mês passado: “não renegue a história de sua Pátria, não renegue a história de sua família, não negue a seus avós, busque as raízes, busque a história e, a partir daí, construa o futuro. E àqueles que dizem para você: “Sim, os heróis nacionais já passaram, não têm sentido, que agora começa tudo de novo”, ria na cara deles! São palhaços da história”. Mais que uma releitura de interpretações, ou o que na Argentina se chamou o “revisionismo” como corrente, acredito que há um pedido implícito do Papa para não acreditar nas tendências periodicamente “refundacionistas” que os governos da região assumem. Também na necessidade de abrir o foco e contemplar a continuidade do ciclo histórico com duas finalidades claras: primeiro é somar experiências que ajudem a ter elementos para que nossos países não caiam em erros do passado. “Quem não conhece sua história está condenado a repeti-la”, diz um ditado colombiano. E, segundo, incorporar ao horizonte de olhares alguns dos tantos projetos inconclusos que a região teve, especialmente no que faz à unidade regional. Um ex-presidente latino-americano caracterizou com inteligência esse problema e disse que “armamos dez países porque não soubemos construir uma só pátria”.

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